2017: o ano no qual a moda foi mais inclusiva e diversificada

 

Considerando dados e estatísticas, 2017 foi o ano mais inclusivo do mercado fashion. Foram os doze meses nos quais mais presenciamos gordxs, negrxs, velhxs e transexuais e não binários nos editoriais, campanhas e desfiles de moda mundo afora. Antes de aplaudir, porém, vale ressaltar que este é um universo focado única e exclusivamente no consumo. Ou seja, nada é por acaso e as marcas não estão sendo tão generosas e abrangentes assim.

O que acontece é que as mídias sociais estão ganhando cada vez mais força, permitindo assim que a massa tenha voz. De tal modo, cada vez menos cabe às pessoas se adequarem às marcas e cada vez mais cabe às marcas se adequarem às necessidades e urgências do povo.

Sendo assim, a transformação e a inclusão vêm aos poucos… Ainda tem muita priorização por modelos negras de ‘traços finos’, muita plus size de manequim 44, muita modelo acima de 50 anos com rosto e corpo plastificados (nada contra as cirurgias estéticas, hein, é apenas uma ressalva de que falta coerência na realidade das mulheres reais com meio século de vida).

Outra contradição são as publicações que pegam carona na inclusão publicando um editorial mensal exclusivo sem coerência nenhuma com o restante de seu conteúdo. É de perder as contas de quantas revistas se dedicam a um ensaio só com plus sizes e, nas páginas seguintes, publicam ‘dicas de emagrecimento’ e propagandas de produtos ‘milagrosos’ que prometem eliminar os quilinhos indesejados – e assim o fazem com os negros, com os mais velhos…

Agora sim, pode rolar o cursor o conferir os marcos que valem a pena ser celebrados no que diz respeito à inclusão e diversidade na moda em 2017:

>>> Etnias & Raças <<<

[L’Oréal Paris fez uma campanha realmente inclusiva para divulgar a True Match]

Uma vez que se trata de uma linha com 33 tonalidades distintas de base, a marca fez o óbvio… contou com um casting realmente variado que incluiu celebridades e influenciadores digitais – tais como Cipriana Quann, Hari Nef, Marquita Pring e Sabina Karlsson.

[Halima Aden foi a musa do ano]

A modelo somaliense desfilou com seu hijab pra Alberta Ferretti, Max Mara e Yeezy de Kanye West; foi garota-propaganda da Nike (a primeira marca a atender a demanda de muitas atletas muçulmanas ao, finalmente, lançar um produto que estava engavetado há 17 anos) e ainda virou estrela da ‘Allure’ usando aparelho ortodôntico!

[Rihanna lançou a linha de beleza mais inclusiva de todos os tempos com a Fenty Beauty]

Um batom vermelho e um gloss brilhante que combina com qualquer tipo de pele junto a uma base disponível em 40 tonalidades distintas. Foi este o grande feito de Ri-ri.

[A modelo indígena Charlee Fraser reinou nos desfiles de Primavera 2018]

A australiana, descendente dos Awabakal, foi a modelo mais prestigiada nas passarelas, estando presente em 40 desfiles!

[O Calendário Pirelli 2018 teve casting all-black]

Clicado por Tim Walker e com styling de Edward Enninful; editor-chefe da edição britânica da Vogue, o calendário foi estrelado por nomes como Duckie Thot, Naomi Campbell, Sasha Lane, Slick Woods e Whoopi Goldberg. Inspirada em ‘Alice no País das Maravilhas’, a produção aposta num mundo utópico, livre de antigos estereótipos.

>>> Sexualidade <<<

[Hanne Gaby Odiele: a porta-voz da juventude intersex]

Ao revelar publicamente sua intersexualidade em janeiro, a modelo belga (queridinha de alexander Wang e Dries Van Noten) se tornou a grande representante da comunidade intersex, viajando por todo os Estados Unidos para palestrar e participar de conferencias sobre o tema, desmitificando assim, muitos pré-conceitos em torno da intersexualidade.

[A Vogue francesa teve sua primeira capa estrelada por uma modelo transgênero]

E a grande estrela foi a brasileira Valentina Sampaio, clicada por Mert Alas & Marcus Piggott, que também foi capa das edições brasileiras da ELLE de julho e da Vogue de dezembro.

[Os transgeneros de Proenza Schouler]

O trio Marcs Marcus, Stav Strashko e Torraine Futurum foi clicado ao lado de Emm Arruda e Michelle Gutknecht por Ethan James Green; modelo aposentado e estrela da Calvin Klein, para o look book de inverno da marca.

[Teddy Quinlivan se revelou transgênero]

Em setembro, no último dia da Semana de Moda de Nova Iorque, a modelo descoberta por Nicolas Ghesquière, da Louis Vuitton, em 2015, revelou sua identidade transgênero no Instagram. Com a ‘confissão’, conquistou muito mais seguidores que qualquer outra modelo e reinou nos principais desfiles de primavera-verão 2018 (que teve em seus castings 47 modelos trans).

>>> Terceira Idade <<<

[Christie Brinkley voltou a ser capa da Sports Illustrated após mais de duas décadas]
Durante três anos consecutivos (de 1979 a 1981), Christie Brinkley foi capa da Sports Illustrated. Em 2017, aos 63 anos, ela recebeu um novo convite da publicação e posou ao lado de suas filhas; Alexa Ray Joel e Sailor Brinkley Cook, de 31 e 18 anos respectivamente.

[Maye Musk se tornou a embaixadora mais velha da CoverGirl]
Aos 69 anos, a modelo se tornou representante da coleção Simply Ageless. No decorrer do ano, outras personalidades mais velhas também estrelaram campanhas de beleza, como Helen Mirren, Jane Fonda e Susan Sarandon para a L’Oréal Paris, Isabella Rossellini para a Lancôme e Jessica Lange para Marc Jacobs Beauty.

[Allure baniu o termo ‘anti-aging’]

A septuagenária Helen Mirren foi capa da edição de setembro da revista, que anunciava que, a partir de então, a publicação não utilizaria mais o termo ‘anti-aging’, uma vez que beleza nunca foi e nem será exclusividade da juventude.

>>> Gordos <<<

[Começaram a compreender que xs gordxs também consomem moda]

Muitas lojas de departamento expandiram suas linhas ‘plus size’ – tanto no tamanho da grade como na quantidade de produtos ofertados. Isso sem contar as novas marcas e coleções voltadas exclusivamente ao público extra-grande: as blogueiras Gabi Gregg e Nicolette Mason apresentaram a linha ‘Premme’; um mash-up de premium e femme, Jeff Cafone criou a All 67; uma linha de jaquetas voltada à 67% da população americana, considerada plus size, Kathryn Retzer e Patrick Herning fundaram a 11 Honoré, voltada às mulheres de manequim de 46 a 54…

[Candice Huffine conquistou sua primeira capa americana]

Um ano após firmar com a IMG Models, na categoria ‘curve’, a modelo se tornou capa da ELLE em maio. Após 16 anos na indústria fashion, foi sua primeira capa.

[Ashley Graham: a primeira plus size entre as modelos mais bem pagas do mundo]

Foi a primeira vez que uma modelo gorda apareceu entre as dez mais bem pagas do mundo segundo a Forbes. Liderada por Kendall Jenner, que em 2017 lucrou US$22 milhões, a lista tem Ashley em décimo lugar, com US$6 milhões faturados apenas no último ano. Além de ser capa de diversas revistas, a top também teve coleções com a Addition Elle, Dressbarn e Swinsuits e foi destaque no desfile de Michael Kors.

>>> Miscelânea <<<

[Project Runway atualizou suas exigências de modelo]

Em julho, o programa anunciou que a partir de sua 16ª temporada, os designers competidores teriam de trabalhar com modelos que vestissem do 34 ao 44 (ou mais). Outro reality, o America’s Next Top Model também removeu o limite de idade entre suas participantes, aceitando modelos acima de 27 anos.

[Gucci inclusivona]
Em agosto, a marca teve a modelo trans Hari Nef dentre os rostos da campanha de lançamento do perfume Bloom (a primeira essência feminina criada para a grife por Alessandro Michele). Depois, a Gucci elegeu um casting exclusivamente negro para o pré-lançamento de sua coleção de inverno.

[Edward Enninful foi eleito o novo editor-chefe da edição britânica da Vogue]
O anúncio foi feito em abril, mas foi em agosto que ele se tornou, oficialmente, o primeiro homem negro a ocupar tal cargo em cem anos da publicação. E ele não veio só, trouxe seu grupo de amigos inclusivos para lhe acompanhar: como a maquiadora Pat McGrath e a modelo Adwoa Aboah.

[Celulites e estrias foram consagradas pela Missguided]

Campanhas sem retoques não são um conceito tão novo assim, mas a marca fez bonito em sua última coleção de inverno, para a qual convidou uma série de digital influencers, com corpos distintos, para exaltar suas celulites e estrias nas fotos promocionais da campanha.

[Baby Boom]

E as grávidas também tiveram espaço além das campanhas de moda gestante! Foi a artista e modelo Maia Ruth Lee que apareceu na passarela da Eckhaus Latta durante a mais recente Semana de Moda de Nova Iorque a primeira gravidinha sob os holofotes. Em seguida, veio a designer MadeMe na divulgação da coleção de primavera da Opening Ceremony, Erin Magee e sua parceira Nicole Albino para a Supreme e Swin Cash Canal para a campanha da Glossier.

[Inverno acolhedor]

Foram 187 campanhas de inverno de marcas internacionais – 30.4% delas estreladas por modelos ‘não-brancxs’. Dentre os destaques, estão as grifes Coach 1941, Christian Dior, D&G e Helmut Lang.

[A primavera mais abrangente de todas]

Os desfiles de primavera 2018 das Semanas de Moda de Londres, Milão, Nova Iorque e Paris tiveram, ao total, 266 desfiles de 8.258 looks. Em seus castings, 30.2% dos modelos não eram brancos. Foram recrutados ainda 93 modelos plus size, 45 transgêneros e 27 com idade igual ou acima de 50 anos. As marcas que mais priorizaram a diversidade foram: Ashish, Christian Siriano, Chromat, Desigual, Helmut Lang, Kenzo, Marc Jacobs, Sophia Webster, Tome, Torrid e Tracy Reese.

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[O desfile ‘diferentão’ da Victoria’s Secret e sua sátira]

Desta vez, a marca de lingerie trocou suas locações tradicionais por Shangai (muito mais visando atingir novas consumidoras do que promover um intercâmbio e promoção cultural, obviamente). As 55 modelos que subiram à passarela pertenciam a 20 países, contudo, mais do mesmo no que diz respeito ao manequim padrão das moças. O destaque ficou por conta do desfile ‘resposta’, desenvolvido pelas irmãs Alyse e Lexi Seafiddi. As ‘gurus’ fitness de Nova Jersey fizeram um recrutamento online para o casting do desfile, que visava recriar o evento da VS com mulheres ‘reais’, com diferentes alturas, corpos, cores e condições físicas – um incentivo à autoaceitação que teve até trilha sonora exclusiva; a música ‘Mirror’, composta por Zach Matari, especialmente para a ocasião.

[Ativismo foi tendência]

Posicionamento político e boicotes chegaram às passarelas e vitrines: marcas como L.L. Bean, New Balance e Under Armour perderam clientes e ganharam vaias quando seus responsáveis se declararam pró-Trumph. O mesmo aconteceu com D&G quando o duo decidiu vestir a primeira-dama norte-americana. Porém, a dupla fez dos limões a limonada e lançou uma camiseta estampada com ‘BOYCOTT DOLCE & GABBANA’ e faturaram euros com a iniciativa… Enquanto isso, a Teen Vogue levou Hillary Clinton à capa. Tops como Bella e Gigi Hadid marcaram presença no protesto #NoBanNoWall, realizado em Nova Iorque, contra a proposta do presidente de banir a imigração. Bella também protestou em Londres na marcha ‘Free Palestine’. Outras modelos se uniram contra Terry Richardson, conceituado fotógrafo de moda acusado de abuso sexual. E o diretor de casting James Scully ganhou atenção do público e da mídia ao falar abertamente sobre o pobre tratamento que muitas modelos, especialmente no início de carreira, recebem. Com as declarações, juntou-se a conglomerados como Kering e LVMH para criar medidas de proteção aos direitos das modelos.

[A diversidade nas revistas de moda]

Analisando 782 capas das 49 principais revistas de moda do mundo, 32.5% delas tiveram capas estreladas por personalidades não brancas. A Vogue Arábia foi a mais inclusiva, tendo todas as suas capas protagonizadas por modelos não brancas – duas delas, inclusive, com mais de 50 anos. A Vogue Tailândia teve 12 de 13 capas e a Vogue Índia, 19 de 21 – sendo, também, duas delas por pessoas acima de 50 anos. No que diz respeito ao plus size, os números são bem insatisfatórios. Apenas 1% das capas foram estreladas por modelos gordas. Neste quesito, Ashley Graham se destacou, sendo capa da ELLE U.K, Glamour EUA, Harper’s Bazaar U.K e Vogue EUA – lembrando que nem todas as aparições foram solo: na Vogue posou ao lado de Adwoa Aboah, Liu Wen, Vittoria Ceretti, Imaan Hammam, Gigi Hadid e Kendall Jenner, e na ELLE U.K., foi uma das capas de novembro, que contou ainda com Beth Ditto. Quanto à idade, 5% das capas trouxeram personalidades com 50 anos ou acima. Nicole Kidman, que completou meio século de vida em 2017, apareceu em 6 capas: ELLE, Glamour, InStyle, LOVE, Vogue EUA e W. também vimos Carrie Fisher na Vanity Fair, Meryl Streep na Vogue, Hillary Clinton na Teen Vogue, Madonna na Harper’s Bazaar EUA… Sobre visibilidade trans, foram cinco capas com modelos não binário ou trans. Amandla Stenberg estrelou duas delas: Dazed em fevereiro e Teen Vogue em agosto, Hari Neff esteve na edição 17 da LOVE e a brasileira Valentina Sampaio apareceu na Vogue Brasil, Vogue Paris e ELLE Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

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Adele Grandis: Taurina com ascendente em touro - isso explica muita coisa!