O peso da militância gorda

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Quem acompanha a Coluna deve ter percebido que há algum tempinho não são publicados textos novos. Peço desculpas pela breve-não-tão-breve ausência, mas parte da militância é justamente ter alguns desses momentos de distanciamento e reflexão, já que antes de ser militante a gente é… gente, com problemas e realidade de gente. E é justamente o tema militância que resolvi abordar nesse texto; Porque convivendo nos grupos de gordos no Facebook, vendo o número cada vez maior de vídeos sobre gordofobia no Youtube e assistindo a explosão dos blogueiros/as gordos na internet, acho necessário nortearmos o que afinal é militância gorda e que rumo a gente tá tomando.

É importante deixar claro que não estou “reinventando a roda”. Tem muita gente que já escreveu coisas excelentes sobre o tema; particularmente, recomendo esse e esse texto da Bee Reis e esse texto da Luciana Moraes sobre o assunto. E acho que chegou a hora da Coluna O Grande Close dar sua contribuição pra discussão.

Acho que a primeira coisa é definir o que é MILITÂNCIA. Acredite ou não, muita gente já trava nessa parte da conversa. A militância nada mais é do que uma forma de estruturar um movimento social. Através da militância, se constrói de maneira coletiva, com base nos significados políticos e culturais que um grupo tem em comum, os discursos e as estratégias que serão utilizados na luta por políticas públicas e mudanças sociais, políticas, culturais e/ou sistêmicas. É muito comum confundir militância com grupos específicos de pessoas ou com eventos e manifestações.

Por exemplo, uma Marcha das Vadias organizada por coletivos feministas é uma manifestação feita por um ou mais movimentos sociais organizados, mas ela por si só não é a militância feminista em si, é só uma manifestação dela. A militância feminista em si é um movimento bem mais abrangente do que as maneiras como ela se articula para conseguir visibilidade pública, entende? Trazendo pra realidade gorda, nós temos eventos, debates, textos, vídeos que são lançados diariamente, mas isso são apenas manifestações e articulação de um movimento maior, a militância gorda. Quer entender mais essa diferença? Tem um artigo bem didático aqui.

Na realidade brasileira, a partir dos anos 60 o discurso, especialmente das ciências humanas, passou a infuenciar com mais força o discurso político, impactando a historiografia e até mesmo a organização dos partidos políticos. Isso não quer dizer que a militância se limita à existência de um partido político ou ainda que militância = partido político. Só quer dizer que a militância não só ajuda a entender e interpretar os fenômenos políticos como também influencia na ação política, inclusive no funcionamento dos partidos políticos.

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Estudiosos afirmam que os anos 2000 representaram uma ruptura de paradigmas em relação aos anos 60 no que tange a referenciais de militância. Há uma tentativa maior de estabelecer um diálogo entre a literatura de movimentos sociais e as discussões sobre ações coletivas. Pessoas que compartilham identidades e solidariedades se unem e enfrentam as estruturas e práticas sociais dominantes, além de buscar mudanças nas políticas públicas, com maior participação de ativistas inclusive dentro do próprio Estado. Passa-se a falar de movimentos EM REDES, ou seja, com estratégias para que cada um dos atores conciliem sus aspirações pessoais com uma coordenação interna do movimento, com vistas à sua representação externa.

Em movimentos em rede, não há hierarquias; por isso é comum falar que a militância é horizontal. A rede se baseia em vínculos sociais densos, identidade forte e alvos específicos por quem/o quê lutar. A evolução das tecnologias, por sua vez, mudou a forma como as pessoas se comunicam, e consequentemente, influenciaram a maneira como a militância se constrói, articula e se manifesta. O grande diferencial são as interações e laços sociais possíveis de serem construídos, e como esses laços vão influenciar na constituição dos movimentos em rede. Logo, a militância virtual não é um mero acessório da militância, mas boa parte de sua constituição e estratégia de divulgação na atualidade. Dá pra ler mais a fundo sobre esses assuntos nesse artigo, nesse artigo e nesse artigo.

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Esses aportes teóricos podem nos dar parâmetros avaliativos da nossa militância pessoal e da militância como um todo. É importante definirmos alguns pontos-chave nessa discussão:

Toda pessoa gorda sofre gordofobia, mas isso não a torna automaticamente uma militante contra a gordofobia. Isso parece uma ideia até óbvia, mas na prática percebe-se muita gente que, apenas com base EM SUAS VIVÊNCIAS de opressão com pressão estética e/ou gordofobia já acredita que pode formular postulados gerais sobre pessoas gordas, sempre partindo somente de experiências individuais, o que nos leva ao próximo tópico:

 

 

Sua vivência não é parâmetro geral de militância. Militância se faz de maneira coletiva e pensando de maneira coletiva. Mudar um sistema opressor não é somente resolver incômodos pessoais, mas sim refletir em soluções abrangentes e que ataquem a raiz do problema. E é por isso que…

 

 

Militância não é sobre auto-estima. É ÓBVIO que empoderamento e auto-estima individual de uma pessoa gorda é importante. É muito bom que todas as pesssoas gordas consigam chegar ao ponto de amarem seus corpos, mas não é isso que vai definir sucesso ou pauta de militância. Inclusive, você sequer precisa se sentir bonito pra ser militante (leiam por favor esse texto da Cida Neves sobre a questão). Militância é sobre políticas públicas e garantia de direitos básicos para um CONJUNTO de pessoas, não sobre fazer você se sentir bem (embora isso possa ser um efeito “colateral” da militância);

 

 

E se militância não é individual e nem hierárquica, ela também não tem “gurus” e nem “porta-vozes”. Evidente que na prática haverá pessoas que estão produzindo reflexões que atingem um número grande de pessoas, mas é importante dizer que qualquer um que começar a se auto-intitular como “porta-voz da militância” já está com a base da sua militância errada, e uma hora esse castelinho de areia vai ruir e o prejuízo pra causa vai ser sentido. Então, cumpre dizer que…;

 

Militância não existe pra tornar as pessoas “famosas”. Ser reconhecido pelo material produzido é legal, mas tem muita gente (e MUITA MESMO) que se envolve em militância só porque observou que era um “nicho de mercado a ser explorado”. E por que é tão perigoso objetivar ser um “militante famoso”? Porque na ânsia por mais cliques, mais likes e mais alcance, 99,9% dessas pessoas diluem seus discursos e os adaptam pra aquilo que as pessoas querem ouvir. É por esse motivo que a “militância de sofrimento” se alastra tanto na militância gorda: porque o discurso “ai como gordo sofre, ai como é horrível ser gordo” agrada muitas pessoas. E as soluções dadas pela militância de sofrimento geralmente são o quê? Se ame, você é lindo/a! Ou seja, foco somente em auto-estima sem questionar nenhum pilar da gordofobia de fato. Tem militante gordo com fã-clube atualmente, vocês tem noção do quanto isso é desvia o foco da pauta e da luta anti-gordofobia?
Militância e mercado, na maioria dos casos, não se misturam. Essa é uma ramificação dos que querem ser famosos: os que querem ganhar dinheiro ou presentes sendo militantes. Assim como as blogueiras de moda no começo da década começaram a fazer publicidade disfarçada de dica só porque ganhavam rios de dinheiro e presentes das marcas, blogueiros gordos tem ido pelo mesmo caminho. Nada contra quem é blogueiro de moda gordo, acho legal que existam porque inspiram muita gente. E é bom sim dar dicas de marcas que fazem roupas legais, mobiliário adequado e outros produtos que atendam às necessidades de pessoas gordas (eu mesmo faço isso no meu Instagram na medida do possível). Mas chamar de militância uma intenção de vender um produto se aproveitando de uma consequência da opressão gordofóbica? Aí já não tem como. A sociedade de consumo influencia diretamente na gordofobia, e usar de suas lógicas pra “combater” a gordofobia é, no mínimo, um conflito de interesses.

 

 

Marcas não são militantes anti-gordofobia. Pessoas são militantes. Militância tem intenções políticas, marcas querem vender. As duas coisas não andam juntas. A marca pode ter uma filosofia inclusiva, pode fazer “roupas com mensagens”, podem colocar modelos gordos pra fotografar, e podem ter poder de alcance devido seu poder de mídia, mas isso tudo não as qualifica como militantes porque, novamente, são PESSOAS que constituem redes de militância. Vamos colocar nosso foco mais nas redes de pessoas do que nas campanhas publicitárias.

 

 

Militância precisa ser interseccional. Militância de valor é aquela que entende as questões sociais como complexas e que diferentes opressões se relacionam. Lutar contra gordofobia é essencial, mas isso deve vir acompanhado de questões de classe, gênero, sexualidade, cor… Todos esses fatores influenciam na desigualdade social que planejamos combater, e reconhecer os próprios privilégios é o primeiro passo da jornada de uma pessoa militante.

 

 

Lugar de fala é importante sim. É maravilhoso que pessoas não gordas sejam aliadas na luta anti-gordofobia, mas o protagonismo do movimento é das pessoas gordas. Qualquer pessoa magra que se defina como aliada mas que expõe, patologiza, fetichiza e diminui pessoas gordas não é uma aliada de fato. No final das contas, é a gente pela gente.
Militantes precisam de fortalecimento. O fortalecimento dessa rede de apoio é importante também porque militantes gordos recebem geralmente muito mais ódio do que pessoas gordas não militantes. Saúde mental é importante, e o apoio de outros militantes é essencial nesse processo de continuar a luta. Ser militante não torna ninguém imune ao ódio recebido, por isso precisamos aprender a cuidar de quem está na luta ao nosso lado também. Repito, no final das contas, é a gente pela gente.

 

 

Militância não significa homogeneidade. O fato da militância ser uma rede não significa que não existam discordâncias entre as pessoas, e discordâncias também são normais, desde que não comprometam a base da luta: o fim da patologização e culpabilização contra o corpo gordo.
Gratidão também é militância. Por fim, se você escolheu lutar contra a gordofobia, aprenda a reconhecer quem veio antes de você. Agradecimento e honra são sinônimo de dignidade, e isso em qualquer área. Menos ego, mais união. Em qualquer lugar que me perguntarem vou dizer que os textos da Jéssica Ipólito mudaram minha vida há alguns anos, que a Rachel Patrício é uma das pessoas mais incríveis pra ler e reler, que a militância “radical” da Bee Reis é um parâmetro pra mim, enfim, é realmente uma rede de pessoas que permitem que eu também cresça como militante.

 

Militância não é glamour. Não é sobre ter os melhores lugares nos eventos nem fila de fãs esperando pra tirar foto. Não é sobre ganhar muito dinheiro ou muitos presentes. Militância é ideologia, é luta, é reflexão constante, e justamente por isso é uma escolha.

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(Todas as ilustrações desse post são do artista britânico Banksy)

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.