13 Reasons Why e a Gordofobia na Escola

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Se você teve acesso à internet e redes sociais nas últimas semanas, com certeza ouviu falar da nova série original da Netflix: 13 Reasons Why. Idealizada por Brian Yorkey e adaptada do best seller homônimo escrito por Jay Asher, a série conta a história de Hannah Baker (Katherine Langford), que cometeu suicídio aos 16 anos de idade após uma série de acontecimentos infelizes em sua vida. Boa parte desses acontecimentos ocorreram na escola, de forma que antes de suicidar-se a garota grava uma série de fitas que listam as 13 razões que a levaram a tirar a própria vida, e cada causador dos infortúnios de Hannah ganha seu espaço na narrativa e a oportunidade de ouvir as tais gravações.

Atenção: O texto teoricamente contém spoilers mas não é algo que vá estragar sua experiência com a série. Falar sobre a história da série também não é o objetivo principal do texto.


A série tem sido um sucesso de público desde sua estréia, e dividiu opiniões. Há quem diga que a série acendeu a discussão sobre suicídio, depressão e bullying, justificando inclusive que as pessoas tem se encorajado a buscar mais ajuda em situações de crise. O Centro de Valorização à Vida reportou que pedidos de ajuda aumentaram depois do lançamento da série. Por outro lado, há quem diga que a série romantiza o suicídio e culpabiliza pessoas, podendo funcionar inclusive como um incentivo para um suicídio em massa. Ativistas e especialistas comentam que a série pode ser mais negativa do que positiva, especialmente para o público jovem, audiência maciça do show.
Pessoalmente a minha opinião é que a série é uma porta de entrada para a discussão do assunto, especialmente com parcelas mais jovens da população, mas que deveria sempre vir acompanhada de um trabalho pedagógico consistente de um bom professor ou adulto para que o adolescente não termine por glamourizar o suicídio. Mas esse não é o assunto desse texto, pelo menos não diretamente. Resolvi falar sobre a série aqui na Coluna O Grande Close porque uma coisa me incomodou enquanto assistia o desenrolar da trama: a dificuldade de colocar a gordofobia como parte do contexto opressor no ambiente escolar. Vamos a alguns pontos que achei problemáticos:
1. Falta representatividade
Nenhum dos personagens principais é gordo. Mesmo a série se passando principalmente numa escola, quase nenhum dos figurantes é gordo. Como se alunos gordos não existissem no contexto escolar (o que fica ainda mais absurdo se você pensar que estão retratando uma escola nos Estados Unidos, país com grande concentração de pessoas gordas). Se o personagem gordo não existe, as questões que ele poderia viver por ser gordo também não existem. Os personagens da série lidam com o machismo, com a lgbtfobia, com racismo, com diferenças de classe, xenofobia… Mas não com a gordofobia, porque em nenhum momento os roteiristas parecem ter pensado que gordofobia é um problema enfrentado no Ensino Médio.

 

Pôsteres com os personagens principais da série. Ao centro, Hannah Baker.

Pôsteres com os personagens principais da série. Ao centro, Hannah Baker.

2. Os personagens magros têm atitudes gordofóbicas
No episódio 9, a personagem Jessica (Alisha Boe), que é líder de torcida, é substituída quando começa a faltar aos treinos. Em conversa com os amigos, a garota diz a respeito da treinadora que a puniu:

“No, so now she’s trying to punish me by giving all of my stunts to this 80-pound freshman. Go ahead. You really think that she can lift Melanie Opstad’s fat ass into pyramid formation? She’s fucking fat! Really, good luck!”
Em tradução livre:
“Agora ela está tentando me punir dando todas as minhas acrobacias para essa caloura de 35 kilos. Ela que vá em frente. Vocês acham que ela vai conseguir levantar o traseiro gordo da Melanie Opstad numa formação de pirâmide? Ela é gorda! Sério, boa sorte!”

O diálogo é inserido de maneira causal e sem nenhuma tentativa de problematização da fala. O contexto da cena leva em consideração mais a raiva de Jessica por ter sido substituída do que a fala ofensiva com a qual ela se refere à colega “gorda”.

Mais grave e desastrosa é uma cena do capítulo 7. Os alunos estão na aula de Comunicação e uma aluna não magra (mas que está longe de ser gorda) está fazendo um desabafo com a turma:

Garota (ninguém na série fala o nome dela, então não temos como nomeá-la):

“I’m sick of it, you know? Just because I don’t have her skinny-ass body doesn’t mean I’m fat!”
“Estou cansada, sabe? Só porque não sou magérrima não quer dizer que eu seja gorda!”

O garoto Pratters intervém e diz:

“Maybe she should try a diet.”
“Talvez você devesse tentar fazer uma dieta.”

Hannah diz:

“Seriously, Pratters? Jesus!”
“Sério, Pratters? Jesus!”

Pratters:

“I’m just saying, all right, if you’re getting fat-shamed, then… you know, don’t be fat.”
“Só estou dizendo, se você está cansada de ser envergonhada por seu corpo, então… você sabe, não seja gorda.”

A professora chama a atenção de Pratters e Zach complementa:

“Pratter’s, that’s like someone saying to you, ‘Don’t be an idiot and a dickwad’. You can’t help it.”
“Pratters, dizer isso é como se alguém te dissesse: ‘Não seja um idiota e um inútil’. Você não consegue evitar.”

Pratters:

“Exactly. Thank you.”
Exatamente. Obrigado.

Zach:

“Totally not on your side, dude.”
“Estou totalmente não do seu lado, cara.”

A cena – e a discussão sobre a suposta gordofobia sofrida pela aluna sem nome – acabam abruptamente e fica só a mensagem de que a Hannah achou fofa a atitude do Zach em repreender o Pratters.

Não falar sobre um assunto pode ser um posicionamento bem contundente sobre ele. Naturalizar discursos problemáticos também. E é exatamente essas duas coisas que a série faz em relação à gordofobia: apaga a experiência de pessoas gordas na adolescência na escola e naturaliza que é ok fazer piada ou tratar a gordura como defeito, inclusive culpabilizando quem é gordo (na lógica “se não quer ser maltratado por ser gordo, não seja gordo”).

O tempo que passamos na escola é um período essencial na construção da nossa identidade, especialmente porque geralmente coincide com nossa infância e adolescência, períodos críticos e decisivos na nossa vida. E Escola vai muito além dos conteúdos que a gente aprende em sala e fora dela. A vivência escolar compreende todo um contexto sociocultural que, assim como os conteúdos, também contribui para a nossa formação pessoal. E muito desse contexto, infelizmente, pode ser violento. O termo bullying, que vem de bully (ou seja, o uso de uma suposta superioridade física para intimidação) tem sido um termo usado por estudiosos e pesquisadores para definir os contextos violentos sofridos por uma pessoa, ou situações que também podem ser chamadas de humilhação social.

O bullying não é “um mimimi“, nem “uma fraqueza da geração atual que não aguenta uma brincadeirinha“. Tampouco não é um “processo e comportamento naturais da adolescência“.  Apesar dos estudos mais organizados do fenômeno bullying datarem do final dos anos 70 e começo dos anos 80 (logo, um campo de estudos relativamente recente), a violência sempre existiu no ambiente escolar. O bullying é um exercício de poder que tem consequências negativas imediatas e tardias para quem observa, para quem sofre e para quem agride.

O bullying é considerado direto quando envolve apelidos, agressões, ameaças e chacotas e indireto quando são ações que levam ao isolamento social, como indiferença, difamação, exclusão. Hoje em dia, com oavanço da tecnologia, ainda temos o cyberbullying, ou seja, todos esses comportamentos descritos acima só que manifestados através do ambiente virtual. Estatísticas oficiais sobre quem sofre bullying variam, e temos taxas que oscilam entre 15% a 70% dos entrevistados. Sobre os agressores, essas taxas variam entre 10 e 50%, além dos que se identificam tanto como vítimas como agressores. Os estudiosos são praticamente unânimes em dizer que a discussão, conhecimento e treinamento são ações essenciais para o combate e diminuição do bullying. Se quiser ler mais sobre o assunto, alguns artigos aqui, aqui e aqui.

E como pessoas gordas costumam se relacionar com a cultura do bullying no contexto escolar? Bem, se você perguntar pra uma pessoa gorda que já era gorda na época de escola, ela provavelmente vai ter alguma história pra contar nesse sentido. Eu sofri bullying direto e indireto durante minha trajetória escolar, e ainda assim considero que foi “leve” se comparado a verdadeiros infernos que amigos relatam ter sofrido. As piadas, apelidos, chacotas, exclusão, desprezo amoroso e violência física que pessoas gordas sofrem na escola podem inclusive ter consequências mais sérias, como o desenvolvimento de distúrbios alimentares, automutilação, evasão escolar e até suicídio.

Um exemplo péssimo de campanha anti bullying contra pessoas gordas é a da Organização norte americana Strong4life. Nela, podemos ver fotos de crianças gordas com os dizeres:

Um exemplo péssimo de campanha anti bullying contra pessoas gordas é a da Organização norte americana Strong4life. Nela, podemos ver fotos de crianças gordas com os dizeres: “Aviso: minha gordura pode ser engraçada pra você mas está me matando” (pôster 1), “Aviso: a prevenção contra a gordura começa em casa e na fila do buffet” (pôster 2) e “Aviso: É difícil ser uma garotinha quando você não é uma” (pôster 3).

 

13 Reasons Why, de uma maneira ou de outra, acabou funcionando como uma forma de discussão sobre o bullying. E se é chover no molhado que pessoas gordas costumam ter experiências escolares ruins por conta do bullying, por que não aproveitar a série pra discutir isso também? Justamente porque o bullying não é uma experiência descolada da realidade social mais ampla. Se a sociedade é estruturalmente gordofóbica, a tendência é que a gordofobia seja “autorizada” ou naturalizada quando ocorre em forma de bullying. É por isso que se produz uma cena em que uma pessoa reclama por ser ridicularizada por ser gorda, alguém diz que ela deve fazer uma dieta, é repreendido e a cena acaba por aí. No fundo, o que todos estão pensando é que ser gordo é justamente culpa da pessoa gorda, e que gordura é sim um defeito.

Inclusive, falamos sobre o bullying até agora nesse texto porque ele é grande parte do mote da série, mas de maneira alguma a gordofobia no espaço escolar se resume a sofrer bullying. É um erro conceitual muito comum que as pessoas têm que sofrer gordofobia é APENAS ser ridicularizado por ser gordo. NÃO É.

A gordofobia no espaço escolar também age quando as cadeiras são fracas demais e quebram com o peso das pessoas, quando os tamanhos disponíveis de uniforme não servem e é necessário fazer sob medida, quando todos vigiam o que o quanto você come no intervalo, quando há pesagem nas aulas de educação física e seu professor altamente desatualizado te classifica como doente por conta do cálculo do IMC. Não é somente sobre apelidos ou piadinhas, mas sobre a ação de um sistema construído para exclusão e para violências simbólicas em diferentes esferas.

Já que a série não tocou no assunto, decidi fazer uma série de 13 maneiras de acabar com a violência escolar contra pessoas gordas. As dicas valem para estudantes, professores e gestores:

  1. Não naturalize a patologização. Um corpo gordo não é necessariamente um corpo doente, assim como um corpo magro não é necessariamente saudável. Apoiar no contexto escolar que pessoas gordas são doentes (inclusive se valendo de pesagens e cálculos de IMC) é contribuir para sua exclusão e para a naturalização das violências;
  2. Não culpabilize a pessoa gorda. Dizer que uma violência contra uma pessoa gorda terá fim se ela emagrecer é jogar a responsabilidade da agressão na vítima, ao invés de educar e parar o agressor;
  3. Expanda seu conceito de sucesso e beleza. Tendemos a valorizar o que achamos belo, mesmo que as características ruins se sobreponham às boas.  Um processo social e histórico se deu para que naturalizássemos que a beleza é magra, branca, loira e de olhos azuis, mas podemos quebrar esse ciclo. Todo corpo é bonito, toda pessoa tem valor;
  4. Não ignore as vivências de uma pessoa gorda. Silenciar alguém que está tentando sinalizar suas dores é uma nova violência sobre essa pessoa;
  5. Não seja um observador passivo quando uma situação de violência acontecer. Por exemplo, rir de uma piada ou não fazer nada a respeito é compactuar com o que está sendo dito e feito.
  6. Desenvolva relacionamentos significativos com pessoas gordas. Filtrar relacionamentos com base em aparência estética pode limitar seu crescimento pessoal e contribuir para o processo de exclusão social do outro.
  7. Coloque pessoas gordas em lugares onde não costumam ser colocadas. Por que não podemos ter um protagonista gordo como galã da peça da escola, por exemplo? Estereótipos existem porque nos recusamos a quebrar o ciclo.
  8.  Acessibilidade importa. Mobiliário, questões arquitetônicas e de vestuário precisam atender a TODOS, ou caso contrário não estarão atendendo a ninguém.
  9.  Nem todo gordo vai gostar das mesmas coisas. É comum que pessoas gordas sejam empurradas para atividades mais “intelectuais”, e parte desse processo vem da crença de que o corpo gordo é menos capaz. Podemos estar perdendo excelentes atletas, atores, modelos e palestrantes simplesmente porque os consideramos inaptos logo de cara em virtude de seu biotipo.
  10. Não considere a gordofobia como uma “opressão menor” ou como uma “não opressão”. O tratamento dado a uma ofensa racista, machista ou lgbtfóbica deve ter o mesmo peso e importância ao tratamento dado a uma ofensa gordofóbica. Todas as opressões são maléficas e devem ser combatidas.
  11. Crie canais de comunicação. Isso serve para qualquer opressão, inclusive. Crie mecanismos para que as pessoas possam denunciar seus agressores e meios para que se sintam realmente seguras caso o façam.
  12. (Para estudantes gordos) Saia imediatamente dos círculos tóxicos. Quem te acha feio, doente e incapaz NÃO É seu amigo. Pode demorar um pouco para que você consiga criar uma rede de apoio forte, mas ela existe e é possível viver cercado de amigos de verdade.
  13.  (Para estudantes gordos) A fase escolar um dia ACABA. Lembre-se que se a luta contra a gordofobia não surtiu efeito imediato no seu contexto escolar, não é o fim do mundo. Coloque as coisas em perspectiva e veja que essa fase vai passar. Escolha seus amigos, nem que sejam virtuais. Há comunidades de pessoas gordas na internet que podem oferecer um alívio (pode entrar em contato comigo se precisar conversar, inclusive). Não há nada de errado com você. Essa fase vai passar. 

 

O Centro de Valorização à Vida disponibiliza um chat e outras opções de conversa e ajuda no seu site: http://www.cvv.org.br/index.php

Suicídio não é uma opção. Gordofobia não é um processo natural.

 

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.