Reflexão sobre imposição de gêneros

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A coluna “Ai que aBIsurdo!” está mais parada do que fila do INSS, mas decidi transformar um post pessoal que fiz no meu Facebook em uma nova coluna, mesmo sem falar exatamente sobre bissexualidade. Inconformidade de gênero é algo que faz parte do íntimo de muitas pessoas (de muitas pessoas bi e pansexuais, inclusive), e espero que meu relato e minha reflexão possa ajudar alguém que esteja me lendo a se entender melhor. Não sou psicóloga, nem psiquiatra ou nenhum tipo de terapeuta, mas vivo essa questão na pele desde criança e me ofereço para conversar a respeito com quem precisar! Vamos lá:

Quando eu era criança, até a terceira ou quarta série, eu batia nos meninos na escola dando uma lancheirada na cabeça deles. Eu não era uma criança agressiva, mas me sentia incomodada e invadida nessa fase em que os meninos começam, mesmo com muita ingenuidade e sem malícia, a se interessar por meninas e vice-versa. Minha reação instintiva e completamente irracional era bater neles, mesmo que eu nem entendesse o porquê. Isso já dizia muito a meu respeito, porque esse sentimento vinha do fato de que eu me sentia parte dos meninos, e não entendia por que de repente eles me enxergavam como “do outro time”.

Outra coisa que já dizia muito a meu respeito quando criança, que também não foi observada como deveria pela minha família (mas não os culpo de maneira alguma), era o fato de eu estar sempre sem camisa, assim como os meninos. Eu não entendia e não aceitava o fato de que, por ser menina (mesmo sem ter seios ainda), eu não poderia me refrescar no calor ficando sem camisa, não poderia ficar à vontade da mesma forma que os meninos só porque nasci menina.


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Eu com uns seis anos de idade, do jeitinho que eu mais gostava: sem camisa, depois de comer muito na chácara dos meus avós


Por muitos anos eu rejeitei o gênero que me foi atribuído quando nasci. Eu nunca conversei com minha família sobre isso, e isso é algo que eu mesma só tive clareza de pensamento pra compreender há poucos anos (vejam, eu estou rumo aos 34 anos de idade). Na verdade, eu nunca me senti nem menino nem menina. Queria ser os dois. Não queria ser nenhum. Gostava de boneca, gostava de usar vestidinhos e me sentir “mocinha”, quase tanto quanto gostava de jogar bola com os moleques na rua, subir em árvore, brincar de carrinho, jogar videogame e ficar sem camisa. Hoje sei que sempre vivi em conflito, sem me entender, me sentindo um ET, por conta disso.

383383_419750141375670_842669039_nMas eu também me sentia muito “mocinha” quando usava esse vestido da Branca de Neve com esse par de botinhas!


Eu tenho corpo “de mulher”. Tenho peitão, cintura marcada, quadril largo e bundão desde os 14 anos de idade. Mesmo quando emagreci muito e fiquei com a cara chupada parecendo doente, continuava tendo corpão. E, de repente, passar de ser um moleque (que eu sempre fui) pra ser um “mulherão” foi algo muito, mas muito difícil de aceitar. Por ser mulher e ter um corpo que chama atenção, eu fui muito abusada. Eu fui muito ridicularizada, também. Eu fui estuprada. E doía ainda mais passar por tudo isso enquanto não me aceitava como mulher. Eu me vi obrigada a aceitar minha “feminilidade” ao longo dos anos entre a adolescência e o início da vida adulta, aceitar, enfim, o gênero que me foi imposto no instante em que eu nasci, sem ter tido qualquer outra opção.

546949_419750378042313_2026579819_nEra mais legal brincar de He-Man do que se She-Ra!

Hoje, abraço minha aparência feminina, meu corpo de mulher, e performo a feminilidade sem crises. Até me sinto bem eventualmente quando saio de casa bem “menininha” – e penso que talvez isso também seja por conta do meu feminismo, em que em vez de eu negar o feminino, eu o abraço e luto na batalha em prol do respeito para com as mulheres. Mas foi uma escolha minha ter aceitado, mesmo que essa escolha tenha sido feita depois de muitos anos em conflito por conta de uma sociedade que impõe gêneros e diferenciam o modo de tratar os demais com base nisso. Há quem lide com essa questão de maneira diferente e está tudo bem, também.


Eu costumo me dizer mulher porque é como eu sou vista, e sempre serei. Me digo mulher porque sofro a opressão que as mulheres sofrem. Mas, no meu interior, a definição de gênero que me contempla mais é o não binário. Na prática, eu fui uma criança não binária e até mesmo genderfluid. Um dia me sentindo mais menina, outro dia me sentindo mais menino, outro dia não me sentindo nada com coisa nenhuma. Estamos falando dos anos 80, quando não havia internet pra se informar sobre qualquer assunto, quando homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e viado é viado (tá, a música é dos anos 90, mas vcs entenderam).

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Enfim, eu sei, dentro de mim, que eu me sentiria imensamente mais eu mesma se tivesse uma aparência andrógina, aquela coisa que as pessoas olham e não sabem dizer o que você é. Essa aparência estaria de acordo com como eu me sinto aqui dentro. Até poderia (e já tentei no passado) adotar um visual mais nessa pegada, mas meu corpo nunca será andrógino sem processos tortuosos como hormonização e cirurgias. Eu admiro MUITO as pessoas que decidem passar por tudo isso, sentir no funcionamento de seu organismo as consequências desse processo, e encarar ainda mais preconceitos e opressões, saindo da zona de conforto dos gêneros aceitos pela sociedade (deixando claro que não há conforto algum em ser mulher, mas certamente o desconforto é ainda maior para quem decide “deixar de ser” mulher e se expressar de outra forma).

Dito isso, o ano é 2017 e já chega de normatividade com relação a gênero. Não há só um ou o outro, e tudo o que existe entre o 8 e o 80, entre o preto e o branco, é válido e merece o devido respeito.

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Patricia Gnipper é redatora, fotógrafa e crazy cat lady, além de bissexual assumidíssima.