Gordofobia e as armadilhas do Empoderamento

cabecalho empoderamento

Na foto (que também é a imagem destacada), campanha de moda praia da Modcloth

 

Empoderamento é uma das palavras de ordem mais usadas na nossa geração. Sejamos nós millenials acostumados com a linguagem de internet ou não, provavelmente a mídia já se incumbiu de trazer esse termo para o nosso dia-a-dia. Geralmente atrelado aos conceitos de diversidade e igualdade, são nas campanhas de moda que a palavra tem ganhado cada vez mais espaço. Mas afinal, todo esse empoderamento dá poder pra quem? E ele tem alguma coisa a ver na luta contra a gordofobia?

A informação é uma arma poderosa. Seu uso estratégico pode ser um fator positivo nos princípios do protagonismo social e na diminuição da desigualdade. Mas a informação está sujeita à cultura onde está inserida, e aos mediadores que assegurarão que ela vai ser distribuída e compreendida. Esses mediadores podem tanto agir no sentido de imposição da cultura a quem se destinam as informações como podem se colocar numa posição de compreensão e respeito do lugar onde o outro fala. Através dessa mediação, relações são estabelecidas e mudanças sociais são colocadas em prática. A informação apropriada de maneira adequada por populações marginalizadas levam à autonomia e ao empoderamento cultural e social.

Mas vamos por partes. O que é afinal de contas o tal do empoderamento? Como a maioria dos conceitos, a noção de empoderamento vai depender da área do conhecimento que estiver se valendo do conceito e também do tempo histórico. Empoderamento, ou empowerment, na área da Administração, por exemplo, consiste em um sistema de gestão que dá maior poder aos funcionários com vistas a aumentar seus rendimentos e reduzir seus custos. Basicamente é esse discurso de flexibilização, descentralização e inovação que estamos tão acostumados a ouvir dos empresários “cool e descolados” que existem na contemporaneidade. Por mais que no discurso pareça uma revolução nas relações de trabalho, as pessoas (no caso, funcionários) continuam sendo peças de uma cultura administrativa orientada para o lucro. E não é desse empoderamento que vamos discutir aqui porque ele não tem grandes possibilidades de mudança social (mas se você quiser saber mais sobre ele tem um artigo aqui).

Já existem até cursos pra empresários aprenderem a usar o discurso de empoderamento...

Já existem até cursos pra empresários aprenderem a usar o discurso de empoderamento em favor de suas empresas…

 

Esse artigo discute que especialmente no Brasil o empoderamento tem sido usado como o processo para impulsionar grupos e comunidades na melhoria de suas condições de vida e também, por outro lado, como um viés assistencialista que organiza sistemas precários e atendem as pessoas individualmente. Nesse segundo sentido, o empoderamento pode ser uma arma de controle na mão de instituições e grupos para a despolitização de conflitos. Historicamente, os movimentos de luta por direitos civis (como o movimento feminista, por exemplo) são os grandes responsáveis pelo nascimento do termo empoderamento, como forma de fazer com que as pessoas participem da sociedade democrática. Através do governo de suas vidas de formas individuais e coletivas, as pessoas podem conseguir mudanças sociais significativas. E pra isso é essencial que as pessoas sejam capazes de desvendar as estruturas de poder existentes na sociedade, “desnaturalizando” o cotidiano e transformando as relações de poder em relações de mais igualdade, que questionam o que está instituído.

O processo de empoderamento tem duas etapas: o empoderamento individual, de dimensão psicológica, que fortalece o auto-conceito e a autoestima das pessoas. Mas depois desse processo vem um segundo estágio: o empoderamento como dimensão política. E é aí que os indivíduos buscam coletivamente as mudanças estruturais da sociedade. Vamos, portanto, do micro (eu empoderado) ao macro (coletivamente buscamos pela mudança das estruturas). E esse processo coletivo de empoderamento causa melhora gradual e progressiva na vida das comunidades em questão, indo além de apenas projetos sociais assistenciais ou ações individuais. E é aí que o ativismo se transforma em agente educador e mediador em prol da melhoria das comunidades. Esse artigo sustenta que a participação da sociedade civil na luta por transformação social se dá na ocupação de espaços onde apenas interesses econômicos eram levados em conta, e pressiona as administrações públicas a fazerem políticas que atendam de fato às necessidades de populações historicamente marginalizadas.

 

E onde é que esse tanto de informação se conecta?

 

É importante termos a noção de quem está mediando as discussões sobre empoderamento e a difusão desse conceito para que possamos entender as intenções por trás disso. Afinal de contas, quando um ativista gordo fala sobre empoderamento ele não tem necessariamente o mesmo sentido de uma grande empresa de moda falando sobre o mesmo conceito, entende? E é aí que muitas vezes temos nos perdido, quando nossas bandeiras são usadas para se tornarem estratégicas de incentivo ao consumo e de esvaziamento do seu sentido original.

 

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Campanha da Lane Bryant que traz modelos com diferentes corpos com os dizeres “Plus [Size] é igual” e “É hora de representatividade”.

Atualmente é muito comum que o empoderamento esteja ligado ao consumo. Marcas tem atrelado o conceito de empoderamento ao de body positivity e fazendo editoriais que mostram diferentes tipos de corpos vestidos com as roupas da marca. E isso não é um processo “militante” e nem “inocente”. Empresas monitoram seus mercados e viram ao longo dos anos como os discursos dos grupos que lutam pelos direitos civis impactavam grupos de pessoas que não estavam incluídas no público alvo original dessas empresas. E então passa a ser “cool” pra imagem da empresa defender que todos tenham o direito a coisas que ela mesmo negou ao longo dos anos. E aí se nota a grande quantidade de marcas investindo em coleções plus size e revistas colocando modelos curvilíneas para estampar suas publicações.

A maioria dos conceitos dessas campanhas é o fortalecimento da autoestima. Aliás, é muito comum que se relacione empoderamento com autoestima. Mas será que de repente as grandes empresas começaram a querer que as pessoas se sintam bem consigo mesmas? Não é o caso, te garanto. Lembra que o empoderamento tem dois estágios, o individual (fortalecimento da autoestima) e o coletivo (que luta por transformações sociais reais)? E como os movimentos por direitos civis tem cada vez mais avançado e difundido suas plataformas para cada vez mais pessoas? Pois então, para grandes empresas usar o conceito de empoderamento como autoestima é praticamente um plano de absorver certas pautas desses movimentos sociais e, pasmem, FREAR seus avanços.

 

Mas como assim?

Você está dizendo que é ruim ter pessoas com diferentes corpos estrelando campanhas midiáticas?

Não é, e inclusive já falamos sobre representatividade gorda em outro texto aqui no A Coisa Toda. Mas reduzir empoderamento somente a auto-estima individual impede que a discussão evolua para o coletivo, que é o que vai de fato promover mudanças sociais.

 

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Campanha de denim da Torrid.

 

Exemplos? Enquanto está todo mundo discutindo que a Revista Vogue fez uma capa com vários biotipos de modelos, incluindo uma plus size (que não é gorda, só é plus size, diga-se de passagem), tem garota morrendo após se submeter a uma cirurgia bariátrica. E o discurso da “beleza e autoestima” já ficou tão enraizado em nossas mentes que olha só como o Hypeness noticiou a morte da garota. O site inclusive termina seu texto com:

Deixamos aqui nossos sentimentos à família que perdeu alguém tão especial e um alerta importante para que as pessoas se libertem de padrões inalcançáveis de beleza. É preciso ser feliz sendo gorda ou magra, alta ou baixa, branca ou negra, lisa ou encaracolada. O que nos torna verdadeiramente belos os olhos não conseguem enxergar.

 

 

Repitam comigo até decorar:

GORDOFOBIA NÃO É APENAS SOBRE PADRÃO DE BELEZA

GORDOFOBIA É UMA ESTRUTURA SOCIAL DE EXCLUSÃO

 

Recentemente o site Revelist publicou um artigo falando sobre como os movimentos de fat positivity sofreram apagamento ao longo dos anos em nome dos movimentos de body positivity; enquanto os primeiros discutiam a aceitação e criação de políticas positivas para o corpo gordo, os segundos tem como lema a noção de que “todos os corpos são importantes”. Evidente que todos os corpos devem ser respeitados e amados, mas colocar tudo no mesmo discurso inclusivo é ignorar as nuances e intersecções que corpos gordos sofrem socialmente (especialmente se os indivíduos forem, além de gordos, parte da populaçao LGBTQ+, mulheres, negros, deficientes…). Um corpo pode não estar dentro do padrão propagado por anos pela indústria cosmética/médica/de moda, mas o corpo gordo além disso sofre com a exclusão sistemática do espaço público, e isso é uma questão muito mais complexa do que apenas sofrer bullying por não ser “bonito o suficiente“.

 

Todos os dias milhares de pessoas gordas morrem por negligência médica, se submetem a cirurgias de alto risco sem as devidas informações de suas consequências, são impedidas de se locomoverem porque não cabem no transporte público, tem CID atribuído a elas simplesmente pelo seu peso, independente da análise clínica de outros fatores que levam à saúde ou doença, e a mídia insiste que gordofobia é apenas SER CONSIDERADO FEIO POR SER GORDO.

Enquanto engolirmos o discurso que empoderamento é somente nos sentirmos ou sermos considerados bonitos, as estruturas sociais que sustentam a gordofobia permanecerão intocadas. Inclusive na Moda! Não é porque a indústria do consumo cooptou nosso discurso que necessariamente todo gordo terá roupa pra vestir (uma demanda válida e importante). Quantas marcas tem grades de numeração realmente abrangentes e não fazem coleções “plus size” que mal vestem uma pessoa que usa tamanho 52? E quanto uma pessoa gorda paga por uma peça de roupa? Todos tem acesso a essas coleções plus size se até a C&A, uma gigante do varejo de fast fashion, produz camisetas brancas plus size que chegam a custar 264 reais? (Duvida? Olha aqui). Quantas mulheres gordas conseguem se ver na modelo Hunter McGrady, que estampou a edição de praia da Sports Illustrated e foi colocada pela revista Glamour como a “heroína da imagem corporal positiva que precisamos”?

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Capa da Revista Vogue que traz Ashley Graham, modelo plus size, juntamente com várias modelos com corpos diferentes e Hunter McGrady em editorial da Sports Illustrated (à direita).

 

As conclusões de tudo isso?

Empodere-se. Mas não caia na falácia do discurso das grandes empresas que limitam o empoderamento somente a uma mera questão de autoestima.  Amar seu corpo é importante, mas é somente o primeiro passo. Mudanças estruturais não se fazem apenas com a mudança das mentalidades individuais, e isso significa dizer que somente eu ou você amarmos nossos corpos NÃO É O SUFICIENTE. Não deixemos nossa voz militante enquanto grupo de pessoas sistematicamente excluídas da sociedade ser abafada por um novo ensaio fotográfico ou por uma nova coleção de roupas com tamanhos um pouco maiores e preços maiores ainda. Tem gente do nosso grupo morrendo por causa da gordofobia, e isso nunca foi uma questão de padrão de beleza.

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.