Gordofobia: indo além da revista Galileu

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Janeiro de 2017. Essa foi a data que uma revista de grande circulação da Editora Globo (pois é) entrou pra História ao dedicar uma capa pra discutir gordofobia. Usando os dizeres: “O que é um corpo capa de revista?”, a Edição 306 da Revista Galileu o fotografou a modelo plus size Evelyn Daisy de biquíni e se propôs a discutir o preconceito contra pessoas gordas sob a luz de novas pesquisas científicas.

As pessoas gordas – especialmente as envolvidas com a militância – comemoraram (com razão) esse acontecimento. Na internet, as páginas da Revista no Twitter e no Facebook recebiam uma batalha desigual de pessoas aplaudindo a iniciativa contra muitas outras pessoas criticando a publicação e escancarando o ódio contra pessoas gordas e a tal da “obesidade”. Eu faço parte das pessoas que aplaudiram. Achei corajoso e necessário. Incentivo que quem puder compre a revista e leia a matéria na íntegra (isso não é um publi, eu realmente quero que todo mundo leia até pra concordar ou discordar do que vamos falar aqui).

 

Um pouco do ódio recebido no Facebook da Revista Galileu.

Um pouco do ódio recebido no Facebook da Revista Galileu.

 

Não é a primeira vez que a revista aborda assuntos polêmicos. Quando anunciou seu novo projeto gráfico, em novembro de 2015, a Galileu teve como tema principal uma discussão sobre gênero. A revista à época também recebeu bastante ódio através das redes sociais. E se falar sobre gordofobia foi uma decisão planejada pela equipe editorial pra gerar buzz, pouco importa. O assunto e a revista estão aí, e é sobre ela que vamos falar hoje.

Momentos como esse, que mobilizam a discussão e a crítica de uma grande quantidade de pessoas, são essenciais para que a militância reflita sobre caminhos, estratégias, e faça uso do pensamento crítico para rever e reforçar suas diretrizes. E percebo que isso tem ocorrido, especialmente em discussões nas redes sociais. Por isso quis transformar essa reflexão em texto da Coluna O Grande Close, pra que fique registrado e pra que a gente possa problematizar ainda mais.

 

Mais ódio à revista, dessa vez no Twitter.

Mais ódio à revista, dessa vez no Twitter.

 

A matéria escrita tenta abordar diversas facetas do que é ser gordo e sobre o que seria a gordofobia. Nenhum dos tópicos é aprofundado, mas pela necessidade de fazer uma matéria abrangente e levando em conta que muitos dos leitores nunca tiveram contato com o assunto, isso é perfeitamente compreensível. Ao longo do texto, temos uma breve contextualização histórica do corpo gordo, falas de especialistas da saúde aliadas com resultados de pesquisas acadêmicas sobre obesidade, uma discussão sobre gordura e saúde, padrões de beleza, consequências psicológicas da gordofobia e atitudes de empoderamento de pessoas gordas.

Muitos dos que tiveram suas experiências de vida relatadas no texto também participaram de um editorial, e suas fotos estamparam a matéria. Além de Evelyn Daisy, que também foi capa, temos fotos do rapper Méqui, da Youtuber Jéssica Tauane, da criadora da página Indiretas do Bem no Facebook Ariane Freitas, do organizador da Festa Baleia Bernardo Costa e da criadora do Africa plus size Luciane Barros. O tema do editorial era “um dia na piscina”, e todos foram fotografados em trajes de banho.

 

Capa da Edição 306 da Revista Galileu (janeiro/2017).

Capa da Edição 306 da Revista Galileu (janeiro/2017).

 

A escolha do tema para o editorial é acertada, mas há algumas questões a se refletir. Não parece que nenhuma das pessoas selecionadas sejam de fato classificadas como “obesas” ou “obesas mórbidas” (ou gordos maiores, como dizemos informalmente na militância para evitar esses termos medicalizantes da obesidade). Arrisco a dizer que ninguém ali usa um manequim maior que 54 (se usa, fica difícil de dizer só pelas fotos). Ao falar de representatividade, isso importa, porque a mensagem passada é que “tudo bem ser gordo, mas gordo até certo ponto”.

Muitas das poses e edição das fotos também escondem partes do corpo dos modelos e angulam certos pontos para parecem menores (foto tirada “de cima”, pessoas sentadas “de ladinho”, close ups de rosto que não mostram o corpo…). É compreensível que se busque pela foto “mais bonita”, mas se a intenção era justamente questionar o que são “corpos de revista”, faltou sensibilidade na hora de comprovar isso nas imagens selecionadas.

Como já foi dito, a matéria aborda vários assuntos de maneira superficial, como forma de dar um panorama ao leitor sobre a questão da gordofobia. Mas ao chegar ao final do texto, parece que um pouco mais de profundidade era necessária para que ocorressem menos equívocos de interpretação. É importante ressaltar que ser gordo não está relacionado diretamente com ser doente e que a beleza do corpo magro é social e historicamente construída, mas gordofobia vai além de “não gostar de gordos” e combater a gordofobia vai além de empoderamento.

O mais importante e o que eu considero uma fala totalmente equivocada presente no texto, é dizer que “não são só as pessoas obesas ou com sobrepeso que sofrem gordofobia. Qualquer um que não se encaixe nos padrões de beleza pode se sentir estigmatizado e, como resultado, desenvolver doenças como bulimia e anorexia…” (p. 38). A falha essencial que aconteceu aí foi terem confundido pressão estética com gordofobia, julgando que os dois processos são uma coisa só.

Não são. Já falamos mais detalhadamente sobre isso na Coluna, e a Rachel Patrício também já falou bastante, mas é importante ressaltar que não são todas as pessoas “fora do padrão de beleza” que sofrem gordofobia. Gordofobia é patologização e culpabilização. Uma pessoa curvilínea de manequim 46 não sofre o mesmo que uma pessoa gorda de manequim 64. Gordofobia é patologização (você é doente) e culpabilização (isso é culpa sua). Pressão estética é pressão para conformar-se a padrões – cada vez mais irreais – de beleza.

E porque gordofobia não é só sobre não encaixar-se num padrão de beleza? Por causa de suas consequências. Quem de fato sofre gordofobia tem problemas de acessibilidade (entala na catraca, quebra cadeira de plástico, não cabe na cadeira do cinema, não encontra equipamento hospitalar adequado, não encontra roupa nem nas araras “plus size” das lojas…) e sofre exclusão social (tem dificuldade de arrumar emprego, muitas vezes é preterida em relacionamentos românticos, tem dificuldade em receber atendimento médico adequado porque profissionais da saúde pressupõem que tudo se resolve com perda de peso…). Não é sobre padrões de beleza, é sobre ter direitos enquanto pessoa negados por um sistema gordofóbico.

Empoderamento é importante? Com certeza. É importante que pessoas gordas se sintam bem consigo mesmas porque esse é o primeiro passo pra gente ir à luta por direitos, mas certamente não é o ponto final da existência plena de uma pessoa gorda. É perigoso quando uma profissional de saúde afirma numa revista que “a questão mais importante para combater a gordofobia é não ser gordofóbico” (p. 38). Não é uma questão apenas de iniciativas individuais. O mundo não deixa de ser gordofóbico porque uma pessoa deixou de ser.

Obviamente que isso contribui para que o senso comum sobre a pessoa gorda seja mais positivo e isso alivia certas camadas de opressão, mas o combate à gordofobia envolve luta por mudança de leis, briga por direitos que já são assegurados, mas não são respeitados, exigência do direito de ocupar lugares públicos e ter sua dignidade respeitada em todos os contextos. Opressões estruturais se combate com mudanças… estruturais. Gordofobia não é só bullying.

Espero que a publicação seja a primeira de muitas que virão. E o meu conselho é que mais pessoas gordas sejam envolvidas nessa discussão e na produção dessas matérias (e não somente pra contar suas experiências de vida). Que profissionais da saúde se atenham a falar sobre patologização do corpo gordo, que pessoas da área jurídica falem sobre legislação e direitos, arquitetos, engenheiros e designers sobre acessibilidade, que militantes possam explicar a diferença entre pressão estética e gordofobia e que quem sofre na pele essa opressão possa indicar caminhos para superá-la.

Que as equipes de styling entrem em contato com tantas marcas incríveis de roupas grandes para conseguir figurino pra editoriais (há uma lamentação no editorial da Revista Galileu sobre como foi difícil encontrar roupas e acessórios de praia que vestissem bem os modelos. Logo a gente que tem marcas com coleções incríveis específicas de lingerie e moda praia, como a F.A.T.). Que entre os fotografados haja mais diversidade de biotipos (“ah, mas não tem modelo que vista mais de 54”. Vocês já ouviram falar de Bia Gremion?), e que as fotos produzidas e escolhidas mostrem os corpos por inteiro e em plenitude.

No mais, a gente que é da militância e que sofre gordofobia todos os dias vai estar aqui pra aplaudir, mas também pra problematizar.

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.