Cristianismo e Gordofobia

Pois é, eu sei. A gente não discute muito sobre isso na militância gorda no geral, né?

Tem aquele velho ditado que “religião e política não se discutem”. Sinto te informar que se discutem sim, e é isso que faremos hoje. Falar sobre religião pode ser um terreno perigoso, ainda mais se optamos por falar das religiões hegemônicas no país. Segundo os dados do último Censo do IBGE, dos 190 milhões de habitantes brasileiros, 165 milhões se declaram católicos ou evangélicos. Sim, estamos falando de quase 90% da população brasileira. E antes que a gente comece nossa problematização, é importante deixar muito claro que:
1. O objetivo do texto não é debater escolhas pessoais. Logo, ninguém está questionando sua escolha religiosa nem orientando que você deve alterar sua fé. A discussão, apesar de tomar como exemplos atitudes pontuais do líder religioso x ou y, procura falar sobre uma questão mais estrutural e geral. Repito, este não é um texto de ataque a você, leitor cristão;
2.Ah, mas nem toda igreja / nem todo líder / na igreja onde eu frequento não é assim“. Volte para o tópico 1 e releia. Se o lugar que você frequenta não tem atitudes como as que serão descritas nesse texto, ótimo! Mas como já foi dito, o texto é sobre um comportamento que costuma ocorrer em vários lugares, então se você não os vive diretamente, fique esperto pra poder problematizar caso algum dia venha a experimentar tais discursos;
3. Eu não gosto de fazer “militância de vivência”, mas acho interessante fazer uma observação nesse caso pra que você saiba de que lugar eu estou falando. Eu, um homem gordo que é gordo desde criança, passei mais de vinte anos em diferentes denominações evangélicas. Falar sobre gordofobia em igrejas não é algo que eu li na internet, pincei exemplos e escrevi um texto. Os casos do texto se tornaram públicos via internet, mas eu vivi cada uma dessas situações inúmeras vezes vindo de discursos de diferentes pessoas e lideranças cristãs. E não é que eu seja o “revoltado com a fé que resolveu soltar as amarguras num texto”; eu só me dei conta desses discursos e como eles eram tóxicos quando me afastei um pouco desses contextos. E é por isso que estou escrevendo hoje, porque se foi tóxico pra mim pode ter sido ou estar sendo ainda pra muita gente.

Feitas essas considerações, sigamos em frente.

A motivação pra esse texto é antiga, mas foi reavivada quando a Pastora Sarah Sheeva (aquela que é filha da Baby do Brasil, fez parte do SNZ, realiza um culto das princesas e voltou a ser meme recentemente quando criou a expressão AQUILO MARAVILHOSO) começou a fazer alguns posts beeem problemáticos sobre perder peso no Instagram. Usando o exemplo de um “casal fitness ex-gordo“, Sarah escreveu legendas ressaltando como é possível que pessoas feias (no caso, por serem gordas) fiquem bonitas (no caso, emagrecendo). Em nenhum momento a pastora pop pareceu achar problemático chamar pessoas gordas de feias e preguiçosas.

Print do Instagram de Sarah Sheeva

E ela não é a única. Ana Paula Valadão, pastora e uma das cantoras evangélicas mais bem sucedidas do Brasil também falou em pregação que a prática do jejum com fins religiosos pode ser benéfica também pra perda de peso. Aproveitou pra dizer que não entendia como existiam tantas pessoas e líderes gordos nas igrejas, e que isso deveria ser um sinal de falta da prática de jejum. Obviamente, a declaração repercutiu muito mal e Ana Paula chegou a pedir desculpas pelas pelo que disse, embora ela não tenha dito que não acha a obesidade um problema.

Na mesma igreja em que Ana Paula pregou sobre os pastores gordos, a Pastora Bianca Toledo, durante pregação em que contava sobre seu testemunho, se referiu a si mesma no passado como “muito feia”, e o maior motivo pra tal feiura seria o fato dela ser “gorda como um marshmallow” (a pregação é muito longa, e a fala apontada está entre 1 hora e 20 minutos e 1 hora e 23 minutos).


Padre Marcelo Rossi, um dos maiores nomes da Igreja Católica no Brasil, também já fez declarações muito problemáticas sobre peso. O religioso, que se diz vaidoso em “questões de peso”, chegou a lançar um livro sobre dietas saudáveis, visto que segundo o padre “Deus também se preocupa com nosso corpo“. Assim como padre Marcelo, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem uma série de vídeos sobre os males da obesidade (como o vídeo abaixo) e como ela deve ser “combatida”, incentivando os fiéis a perderem peso para evitar doenças oriundas do tal excesso de gordura. A Igreja também tem textos sobre o assunto (se tiver estômago, leia o capítulo sobre obesidade que vai da página 30 à 38).

 

Vários exemplos, diferentes correntes teóricas cristãs, uma coisa que os une. Jesus? Amor de Deus? Incentivo à fé e prática de boas obras? Hum, não. Gordofobia mesmo. E como quase tudo na vida, estudar a História pode nos ajudar a entender o presente. Há um motivo muito claro e muito antigo pra que a gordofobia ainda seja tão difundida e tão naturalizada no meio cristão: ela é um instrumento de controle via culpabilização. Falar sobre culpa é complexo; já tivemos um texto sobre o assunto aqui na Coluna e temos bons textos acadêmicos que abordam o assunto de maneira mais completa.
Resumidamente, a culpa especificamente em relação ao corpo resulta principalmente de comparação social, ou seja, de um padrão ideal estabelecido socialmente. A culpa acontece quando é interpretada como um fracasso oriundo de uma fraqueza de caráter, falta de foco ou força de vontade. Um sentimento de transgressão, uma vontade de reparar um dano que fizemos a nós ou aos outros; um padrão interno que foi violado e gerou tensão, remorso e arrependimento. Sendo assim, uma ação reparadora é necessária para o restabelecimento da auto-estima. Quanto mais rigorosa for a lei moral internalizada, maior será a culpa caso essa lei seja violada.

Isso soa familiar num contexto cristão? Quando você transforma o corpo gordo num PECADO, fica fácil fazer com que pessoas gordas sintam culpa por seus corpos e assim busquem tentativas de reparar o “mal” que fizeram. E isso está longe de ser um processo novo dentro da religião cristã. Nesse artigo, por exemplo, vemos como os manuais cristãos que começaram a ser difundidos desde o século XVIII ajudaram a disseminar a noção de gordura como pecado. Desde muito antes disso a gula já era considerada pecado capital, e sua associação com a gordura formava a imagem da pessoa gorda como descontrolada e preguiçosa. Mas com a ampliação da imprensa na Europa e com o crescimento do comércio de livros, as publicações religiosas que tratavam desses assuntos se espalharam muito mais entre parcelas cada vez maiores da população.

Esses manuais incentivavam a vida santa, a libertação dos pecados – especialmente os capitais – e eram escritos em linguagem vulgar, justamente pra alcançar mais pessoas. Uniformizavam os preceitos da igreja católica, impondo penitências como forma de expiação de pecados (muitas dessas penitências eram verdadeiras formas de tortura, tanto para os fiéis como para os clérigos). Salvar-se dos pecados cotidianos e dos pecados capitais era condição essencial para livrar-se da condenação ao inferno. O discurso contra o pecado no ocidente sempre esteve ligado à culpabilização. O “remédio” contra os pecados capitais eram uma vida de virtude; no caso da gula, uma vida de temperança era incentivada. Contra o “desordenado desejo de comer e beber“, pregava-se o jejum e a abstinência, mesmo em tempos de escassez de alimentos.

Se a abstinência era o remédio para a gula, o corpo gordo era a prova do pecado. E o culpado por esse corpo era somente o pecador, o que sucumbiu aos desejos da carne e abdicou da razão humana. Em um dos manuais, o tormento designado para o pecado da gula era ser obrigado, no inferno, a consumir animais peçonhentos. O glutão seria obrigado a comer baratas, escorpiões, insetos e cobras, enquanto é torturado por demônios em forma de serpente. Para escapar de tão terrível castigo, o pecador, além da abstinência e prática de jejuns, deveria orar e confessar seus pecados, de modo a obter misericórdia do Criador.

 

Manual Desengano dos pecadores, de Alexandre Perier, traz imagem do Inferno e dos castigos destinados aos gulosos: ser obrigado a se alimentar de animais peçonhentos.

 

Ah, mas a Igreja mudou muito, você pode dizer. De fato, muitas coisas aconteceram ao longo da História: reforma protestante, revisão de conceitos, reformulação de discursos, até chegar à infinidade de denominações e doutrinas que vemos hoje tanto na igreja católica quanto na igreja evangélica. Mas o passado não se muda do dia pra noite, e de alguma forma esse discurso culpabilizador do corpo gordo e punidor por uma possível “gula” é a espinha dorsal que torna possível a manutenção do discurso gordofóbico ainda hoje em tantas igrejas. E ele pode vir em diferentes formas:
– Como uma crítica estética, como no caso da Sarah Sheeva;
– Como um atestado de “falta de santidade e prática de jejum”, como no caso da Ana Paula Valadão;
– Como um problema emocional, como no caso Bianca Toledo;
– Ou como “discurso de saúde”, no caso da Igreja Adventista ou do Padre Marcelo Rossi.

 

Mais prints do Instagram de Sarah Sheeva

 

A primeira forma é fácil de identificar e combater. Se você acha pessoas gordas feias, além de gordofóbico você também é babaca. Além disso, padrões de beleza estética deveriam andar longe de discursos religiosos cristãos, não acham? Até porque Jesus mandou alimentar os famintos e cuidar dos pobres, não tornear seu bíceps.

Dizer que gordura é falta de jejum e assim desacreditar da pessoa gorda como uma boa cristã, além de um julgamento descarado (e se não me engano tem um lance de não julgar pra não ser julgado na bíblia) é a velha fórmula de associar gordura à preguiça e apatia. Ou seja, se Valadão voltasse uns 300 anos no tempo, seu discurso estaria super adequado.

Encarar a gordura como problema emocional é bem perigoso. Evidente que existem distúrbios alimentares, e eles devem ser tratados com profissionais da saúde, não num púlpito de igreja. E quando se diz que “eu era feia PORQUE era gorda“, você sai do território do distúrbio alimentar e cai no território “sou babaca” do primeiro tópico. Aparentemente a porta do céu só tem 30 centímetros de largura pra essa galera.

O discurso da saúde é o mais sagaz. Afinal, quem em sã consciência vai brigar se seu líder está apoiando que você desenvolva bons hábitos de saúde, não é mesmo? Eu pessoalmente não acho errado que igrejas incentivem bons hábitos de saúde como alimentação balanceada e prática regular de exercícios. O problema é fazer isso virar um dogma, porque aí os líderes recaem ou para interpretações muito específicas das escrituras sagradas ou então eles tentam se apropriar de um discurso “científico” que a própria ciência já refuta. Por exemplo, no capítulo sobre obesidade da Igreja Adventista a base do discurso é o cálculo do IMC para descobrir se o indivíduo está “com sobrepeso”. IMC já é um cálculo ultrapassado de se medir gordura corporal, mas como ainda serve pra um pastor ou padre dizerem que um corpo gordo é doente, os líderes não vem problema em usá-lo. Ou então sequer sabem que o conceito é ultrapassado, afinal, eles são CLÉRIGOS, não PESQUISADORES e PROFISSIONAIS DA SAÚDE.

Ah, mas e se eles usarem a bíblia pra fundamentarem seu discurso? Pois bem, vamos lá. Durante minha vida, eu ouvi várias pregações a respeito dos cuidados com o corpo (também conhecidos como “emagreça já“). Todos eles partem da premissa de que pessoas gordas são pessoas que comem demais ou que não se exercitam. A própria noção de quem são pessoas gordas e da infinidade de trajetórias e histórias de cada um já invalidaria esse discurso, mas vamos mais fundo. Os versículos que eu mais vi serem usados pra justificar que pessoas gordas não deveriam ser gordas eram:
Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 10, versículo 31).
Leia esse versículo quantas vezes quiser. A não ser que você considere uma pessoa gorda uma preguiçosa glutona que só pensa em comida e no prazer que pode obter com ela, não há interpretação possível que dê a entender que isso é sobre emagrecimento. Sobre viver segundo preceitos cristãos de devoção, ok, mas sobre emagrecer? Não.

 

Há ainda um outro versículo campeão de citações em mensagens cristãs sobre saúde:
Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?
Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.”
(Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 6, versículos 19,20).
O conceito de “corpo como templo” não é exclusivo da religião cristã. Várias outras religiões pregam cuidados específicos com o corpo, e que as pessoas devem cuidar bem de seu corpo físico. Isso não está sendo questionado, e como eu disse, é sim válido que igrejas incentivem as pessoas a buscarem o bem-estar físico, mesmo que a ênfase do seu discurso seja a vida espiritual, não a física. Mas entre dizer: “cuide bem do seu corpo” a inferir que “você não cuida bem do seu corpo porque seu corpo é gordo” há uma barreira gigante. E essa barreira se chama… gordofobia.

 

E qual o objetivo desse texto, portanto? Não é ser um tratado teológico, nem um manifesto pra que pessoas gordas deixem de frequentar suas respectivas igrejas. O objetivo desse texto é aliviar o fardo de culpa que muitas pessoas gordas estão recebendo através de discursos religiosos sobre seu corpo. Existem muitas pessoas gordas cristãs e a militância tem que olhar pra elas também, e oferecer a elas o acolhimento que muitas vezes não é oferecido nas igrejas. Além disso, Igrejas, assim como a sociedade como um todo, ainda tem problemas quanto à acessibidade de pessoas gordas (afinal, quem nunca morreu de medo de quebrar uma cadeira plástica durante um culto que atire a primeira pedra). Ninguém é menos ser humano, nem menos cristão, nem menos digno por ser uma pessoa gorda. Por mais respeitado e aparentemente “santo” que seu líder possa parecer, ele não tem direito algum de fazer qualquer julgamento sobre sua saúde, seu corpo e seu bem-estar.

Se houver algum líder religioso lendo essas palavras, e se de alguma forma esse texto chegou até você, repense sua conduta. A influência que você exerce sobre a identidade de muitas pessoas é enorme, e você pode sim escolher não ser gordofóbico e repetir preconceitos e dogmas antigos. E isso vale pra líderes cristãos e para qualquer outra religião. Se a base do discurso realmente é o amor, e se há a crença de que Deus é amor, não há razão para infligir culpa e mal-estar nas pessoas que estão sob seu cuidado. Até onde eu me lembro, “o bom pastor dá a vida pelas ovelhas”, não é mesmo?

 

 

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.