Memento Drag Queen – Camila Diamond

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Camila Diamond existe há um ano. Tudo começou quando o técnico de carne, Ricardo Pietro Cáceres Ramires, que não quis revelar sua idade, se propôs a se montar para ir ao aniversário do colega de trabalho. “Ele disse ‘Não, não tem jeito, por causa do açougue’, e eu respondi ‘Eu vou’.”

Ricardo é açougueiro em uma rede de supermercado da cidade, trabalha no setor há 12 anos. Ele é de Ponta Porã e mora, desde 2008, em Campo Grande. Fez magistério, lecionou na Escola Municipal Arlindo Lima, trancou recentemente a faculdade de Matemática e pretende fazer cursos de maquiagem e corte e costura. “Agora quero fazer Artes Visuais ou Artes Cênicas.”

Depois do aniversário, Ricardo guardou todas suas coisas “a sete chaves” e, neste ano, retomou a drag. Para ele, a primeira montação deu uma prévia do que é ser tratado como artista. “Era uma festa hetero, tinha os pais, idosos, crianças, mas foi engraçado porque eles não me viram como se eu fosse diferente, eles me trataram como se eu fosse um artista.”

Ele lembra, por exemplo, que havia apenas um banheiro para atender todos os convidados e que, apesar da fila, ele teve privilégios. “Tava aquela fila enorme e eu entrava. Eles faziam questão que eu passasse na frente.”

Ricardo soube que existia drag no antigo Bistrot.

“Eu era de Ponta Porã e meus colegas falavam da boate. Quando vinha, isso era 2003, 2004, tinha o show de drags, toda sexta e sábado. A gente vinha de ônibus, tomava banho na rodoviária e guardava nossa roupa no guarda-volumes, aí a gente ia pro antigo Bistrot. Acabava a festa, a gente voltava pra antiga rodoviária, pegava o ônibus seis da manhã e ia pra Ponta Porã, de novo. A gente fazia essa rotina direto.

Eu adorei, fiquei encantado com aquilo. Desde aquela época fiquei com aquilo na cabeça.”

O nome drag é uma homenagem à irmã e o gosto pelo brilho. “Camila é porque quando me montei pela primeira vez eu fiquei parecendo minha irmã. Fiz uma maquiagem levinha, bem normal, com peruca e ficou parecendo irmã gêmea.

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Algumas (drags) me chamam de Patrícia, outras de Paulete, mas sempre quis que ficasse Camila. Alguns dizem que é muito menininha, mocinha, mas Camila foi a primeira coisa que veio porque era a cara da minha irmã.”

Camila Diamond nunca teve mãe drag. “A primeira vez que eu queria me montar mesmo eu fui atrás de umas drags e todas fugiram, sabe assim? Não sei se ficaram com vergonha ou medo, porque cada uma tem seu espaço, cada uma tem seu estilo. Aí então tá, eu falei ‘Eu vou com a ajuda do Youtube, eu vou me virar nos 30’.”

Brenda Black e Lauanda foram as drags de Campo Grande que a ajudaram no começo. Lauanda a maquiou duas vezes e Brenda deu várias dicas e algumas roupas antigas que ela não usava mais.

O espírito drag ganhou força quando Ricardo se montou, em 2014, para a Parada Gay, em Campo Grande. “As pessoas queriam tirar foto comigo… Nada paga isso, sabe, nossa, é muito, muito gratificante.”

Neste ano, ao tomar conhecimento da Corrida das Drags (evento para exibição de RuPaul’s Drag Race e apresentação de drags regionais) decidiu participar. “A Rafa (Spears) é muito amiga do meu namorado, foi quando soube da Corrida e aí pensei em participar, mas não falei nada pra Rafa. Só que eu só era conhecido como Camila, não tinha sobrenome e precisava de um pra dar destaque. Foi assim que surgiu Camila Diamond, que é muito brilho, exagero.”

Ricardo costuma fazer toda sua pesquisa pela internet. Suas referências são as drag queens Robytt Moon e Talessa Top, ambas de São Paulo. Ele tem uma costureira que faz roupas mais elaboradas, quando precisa, mas costuma fazer tudo sozinho, em casa. Ele revelou, por exemplo, que chegou a procurar maquiadoras, mas não encontrou nenhuma que soubesse fazer uma maquiagem drag. “Fui em vários salões de beleza, mas não consegui encontrar nenhuma profissional que pudesse me atender.”

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Camila tem várias saias de tule que aprendeu a fazer em um tutorial do Youtube. “Fui ver na costureira, mas ela queria me cobrar caro (45, 50 reais cada saia), aí coloquei na internet ‘saia bailarina’, ‘saia de tule’, tem várias meninas ensinando, aí eu fui no mais fácil. Como ela não tinha a boneca, o manequim, ela fez na cadeira, amarra o elástico e foi assim. Comprei dez metros de tule, ainda sobrou; o elástico é baratinho e em uma hora você faz a saia.”

Quando fiz a entrevista com Camila, ela se preparava para participar de uma festa junina. “Eu quero fazer uma roupa com pipoca, passar verniz e ir nesse estilo.” Um dia antes da publicação desta entrevista, pergunto se ela conseguiu fazer o figurino. “As pipocas murcharam.”

Camila Diamond participou da edição Drag Star 2016. Não há registro de sua performance, apenas um vídeo de sua participação em uma performance, com outras drags, no primeiro dia do concurso.

Para a grande noite, ela havia feito um body roxo, mas que ficou apertado e muito curto. “Como já tinha o body preto, aí coloquei pedra pra honrar o nome, peguei uma peruca velha, porque tinha visto uma drag, com roupa de cabelo, uma daqui de Campo Grande e a Robytt Moon. Eu sempre olho o estilo dela, ela não economiza em pedraria, igual eu, eu não quero economizar em pedraria.”

Para a apresentação, Camila escolheu duas músicas, uma para abertura e outra para o restante da performance. “Eu vi a Talessa Top dançando essa música, eu gostei e pensei, vou na minha área de conforto, não vou pular muito, levantar perna porque aí eu posso cair e vai ficar feio pra mim. Só que como aí aconteceu o massacre de Orlando, entrei com essa música, durante um minuto e pouco.”

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Pergunto se os colegas do supermercado foram prestigiá-la no concurso.

“Não, eles têm medo de serem agarrados, ‘ah, alguém vai passar a mão em mim’. Eu falei ‘Não, gente, vai, pode ir que não vai dar nada.”

Sua família sabe que você faz drag?

“Eles desconfiam, só que eu não falo, solto no ar, eles (os paraguaios) são mesmo preconceituosos, contra gay e negro, mas eu sou artista. Eu postei no face (sobre o concurso), alguns irmãos curtiram, outros não, mas ninguém comentou nada.”

Qual o futuro da Camila?

“Ainda não sei, não parei pra pensar. Tem vários projetos, tava conversando com meu namorado, como organizar em instituições, fazer recreação, levar brinquedo. Acho que drag não é só ficar no palco dançando, ela tem que participar de ações sociais porque faz parte da vida do artista.”

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