Representatividade Gorda e o perigo do Herói

cabecalho

 

Os últimos dias tem sido marcantes para a História das pessoas gordas no Brasil. Em um curto espaço de tempo, diversas pessoas gordas foram protagonistas em diversas áreas midiáticas, e pasmem, a maioria delas teve representações positivas! Numa era pré coluna O Grande Close, eu já escrevi um texto falando sobre representatividade gorda, então nesse texto de hoje eu gostaria de tomar um rumo um pouco diferente pra nossa conversa.

Mas vamos falar primeiro sobre quem esteve tomando todos os nossos likes e coraçõezinhos no Facebook nos últimos dias. Tivemos Bia Gremion e Akeen dos Santos desfilando para a marca Lab no São Paulo Fashion Week N42, tivemos Bee Reis arrasando como garota propaganda da Avon, Flavia Durante (que dentre muitas outras coisas é a criadora do Pop Plus) e Ju Romano, uma das primeiras blogueiras plus size do Brasil, numa peça publicitária para o energético TNT. Vale ainda lembrar que a Ju Romano fotografou para a revista Playboy de novembro/2016 (quer você problematize ou não a existência da revista Playboy, Ju foi a primeira garota plus size a fazer um ensaio sensual para a publicação). E além de tudo isso ainda tivemos a volta do Ballet Plus Size numa apresentação no Teleton 2016 (as meninas já tinham se apresentado com a cantora Anitta no Criança Esperança desse ano).

 

Bia Gremion e Akeen dos Santos no desfile da Lab no SPFW42

Bia Gremion e Akeen dos Santos no desfile da Lab no SPFW42

 

Resumindo, foram muitas pessoas gordas (em especial, mulheres gordas) aparecendo em parte da mídia (e digo parte porque muitas dos vídeos comerciais foram produzidos somente para a internet). Com exceção das meninas no Teleton, que sofreram comentários racistas e gordofóbicos por parte do apresentador Silvio Santos (que só pra pontuar, acho que deve ser responsabilizado pelas bobagens que diz a despeito de sua idade e posição como ícone da TV), todas as representações das pessoas gordas foram positivas, exaltando beleza, talento, capacidades e potencialidades… Ah mas então se foi tudo positivo, não tem nem o que problematizar, né? Estamos mudando a forma como as pessoas gordas são vistas no Brasil e vamos continuar! Hum… Não é bem assim.

 

 

Eu fiquei sim muito feliz em ver pessoas tão maravilhosas conquistando um espaço na mídia, conseguindo trabalhos, inspirando muitas pessoas que as veem. Mas ao mesmo tempo uma questão me preocupou enquanto tudo isso acontecia: a reação das pessoas em relação a esses momentos de representatividade. E as reações pareciam polarizadas (semelhanças com a opinião política dos brasileiros na atualidade não são mera coincidência): de um lado tivemos os “representantes da saúde”, que advogam que mostrar pessoas gordas sob um viés positivo é “incentivar a ~~obesidade~~~” e de outro tivemos as pessoas (especialmente muitas pessoas gordas) que se mostravam emocionadas e comemoravam tudo aquilo como se fosse uma “redenção gordo-messiânica” que aguardaram a vida toda. Cheguei a ver gente dizendo que era “o fim da gordofobia”, inclusive.

 

 

Ao primeiro grupo, os “arautos da boa saúde”, nem vale a pena gastar muito tempo. Já temos na coluna O Grande Close textos sobre o assunto, além de uma série de textos incríveis de gente maravilhosa como a Rachel Patrício. Quem quiser que leia, se informe e se possível, melhore. Só ressalto que NÃO, vocês não estão preocupados com a nossa saúde, até porque ser gordo não implica automaticamente em ser doente. Seu preconceito é estético, seu ódio é ao corpo que “foge da norma fitness”, mas como é muito feio admitir que se tem ódio a algo que não é motivo de ódio, as pessoas se agarram firmemente a um argumento que possa maquiar sua babaquice e transformá-la em “preocupação social”. A maior prova de que não é preocupação, mas ódio o que essas pessoas sentem foram os ataques massivos feitos principalmente pra Flávia Durante e pra Ju Romano após a divulgação da propaganda do energético TNT. As meninas foram bombardeadas por ofensas pessoais, chacotas, ameaças e raiva que só me fazem pensar se não estamos eternamente vivendo numa grande sala de sexta série onde é muito legal rir da pessoa gorda.

 

Ju Romano para a Playbou Brasil de novembro/2016.

Ju Romano para a Playbou Brasil de novembro/2016.

 

Mas minha preocupação maior é com o grupo das pessoas que levaram a representatividade a um patamar eufórico de redenção pessoal e coletiva, porque isso é prejudicial tanto pra quem aplaude como pra quem é aplaudido. Vamos lá, problematiza comigo. Joseph Campbell, um mitólogo norte-americano escreveu na década de 40 uma teoria de que havia uma estrutura comum na grande maioria das simbologias das mitologias antigas até os contos de fadas e lendas da atualidade. O autor chamou essa estrutura de Jornada do Herói. De acordo com Campbell, o mito é uma forma de entrarmos em contato com a cultura popular, visto que as simbologias entram em contato com nossos centros criativos e facilitam inclusive nosso aprendizado de antologias.

 

Christopher Vogler, famoso roteirista, usou os conhecimentos produzidos por Campbell na construção de roteiros da Disney nos anos 80. Hollywood usou a Jornada do Herói de Campbell (caracterizada por 17 fases, que vão desde a partida do herói pra uma aventura até seu retorno e vida livre) na construção de diversos filmes, e o jornalismo – a parte que nos interessa nesse texto – também começou a valer-se da construção da figura do herói pra contar histórias. A mídia fez com que a cultura popular, que era transmitida pelo contato entre as pessoas, passasse a ser difundida através de uma indústria de cultura, onde apenas algumas pessoas produzem cultura pra uma grande maioria.

 

A maneira de lidar com as massas é introduzindo essa figura dos “heróis”, das “estrelas”, dos “ídolos”. Dessa forma, a comunidade passa a se identificar com uma pessoa/evento num grande inconsciente coletivo. O herói é o protagonista de uma história de vida. Sua jornada cria não somente a história de estrelas e grandes personalidades, mas também dá voz a anônimos e marginalizados pelo poder. Artigos acadêmicos analisam a figura do herói como aquele que por excelência consegue superar sua condição humana, e que através da figura do herói, que é uma memória coletiva, construímos a nossa própria identidade. Nesse sentido do herói como identidade coletiva, temos a mídia que acaba por converter o heroísmo em espetáculo. A jornada do herói, nesse sentido, vai além da superação das agruras da vida ou um poder de vitória sobre a morte, mas é transformado em entretenimento.

 

MAS QUE RAIOS ESSE PAPO DE HERÓI TEM A VER COM AS PESSOAS GORDAS NA MÍDIA?

 

Bem, ainda estamos engatinhando no que diz respeito à organização de uma militância gorda, especialmente no Brasil. A própria mídia parece ainda não saber direito o que fazer quando, por exemplo, uma garota que usa tamanho 60 desfila na semana de moda mais importante do país. E quando não sabemos direito como lidar com uma nova informação, é muito comum que recorramos a estratégias que nos são familiares. E aí de repente a garota gorda passa de modelo a heroína. E como heroína, tendemos a achar que ela venceu as dificuldades de ser uma pessoa gorda numa sociedade gordofóbica, que ela derrotou o “monstro” da gordofobia e nos traz o elixir de vivermos todos gordos e felizes.

 

A linha entre representatividade e idealização é muito tênue. MUITO tênue. É claro que devemos ficar felizes em ter alguém nos representando na passarela ou numa propaganda. O sentido primário da representatividade é esse mesmo, conseguir se enxergar na pessoa que aparece na mídia. Mas daí a achar que só representatividade é suficiente na luta contra a gordofobia, ou pior, que a gordofobia tem sido enfraquecida no país só porque conquistamos espaços em campanhas publicitárias, programas de TV e desfiles é muito prejudicial ao movimento como um todo. E é prejudicial porque:

 

  1. Ainda vivemos num contexto capitalista, onde cada vez mais necessidades são criadas para que possamos consumir cada vez mais produtos e serviços. E atualmente o conceito de Representatividade VENDE. Não há nenhuma “bondade” ou “militância” em grandes empresas que estão vendendo seus produtos e serviços (podem haver pessoas militantes trabalhando nessas empresas, mas a intenção da empresa é vender e lucrar, não fazer mudanças estruturais na sociedade). Não podemos nunca basear nossa identidade em conceitos de mercado, porque se representatividade hoje em dia consegue gerar lucros, amanhã a realidade pode ser outra (e se assim for, não duvide que vão riscar esse item da pauta das campanhas).

 

  1. Idealizar qualquer pessoa é perigoso. Basear nossa autoestima na representação de outra pessoa é mais perigoso ainda. Todo mundo falha, todo mundo erra. O dia que nossos “heróis” cometerem algum deslize, entraremos em crise, porque nosso auto-conceito não se estabeleceu numa base sólida (nós mesmos). E pra quem é “heroi”, essa pressão também pode ser muito prejudicial. Elevar ao posto de “porta-voz” uma pessoa comum que passa pelas mesmas opressões que a gente só gera um stress a mais pra essa pessoa, e isso é totalmente desnecessário.

 

  1. Achar que é suficiente ter pessoas gordas estrelando propagandas, desfilando e aparecendo na TV em horário nobre pode nos levar à acomodação. E enquanto achamos suficiente apenas “nos sentirmos representados”, tem pessoas gordas morrendo com diagnósticos errados em hospitais (ou sem acesso a aparelhos de saúde), não saindo de casa com medo de entalar na catraca ou de não caber/quebrar a cadeira, sem roupas decentes pra trabalhar (isso se conseguirem um emprego), sofrendo bullying na escola, sendo rejeitadas pela família, tendo seu direito a afetividade negado…

 

Representatividade é importante porque é uma plataforma. Tem mais gente vendo pessoas gordas sendo representadas como exemplos positivos, então temos que aproveitar essa oportunidade pra irmos além da representação imagética; é nesse momento que temos que intensificar a discussão sobre gordofobia, que devemos nos articular pra lutar por melhores condições de acessibilidade, pra demandarmos igualdade e não-patologização. E esse papel não cabe só aos “heróis” que estão protagonizando essa visibilidade, essa função é da militância gorda como um todo. Coletivamente e com os pés no chão. Num dia a gente aplaude as amigas que estão arrasando em frente às câmeras, mas no dia seguinte já temos que estar de punho cerrado exigindo que nossos direitos sejam respeitados. Militância não é só lacre, militância é articulação, reflexão e luta.

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.