Memento Drag Queen – Lauanda Dumore

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Diego Almeida, 32, é natural de Socorro, interior de São Paulo, saiu de casa com 17 anos, já morou em Minas Gerais, Curitiba e foi, em 2000, para a capital paulistana. Foi em Lindóia, no interior de São Paulo, durante as reuniões de amigos, que ele, Gustavo e Cauê começaram a se montar, eram as Superpoderosas. “Eu era a verde, o Gustavo era a de cabelo vermelho e o Cauê era a loirinha. Era muito bom no interior porque tinha essa coisa das gays se unirem, fazer confraternização.”

O nome Lauanda Dumore é uma invenção da amiga Joyce Carvalho, na 8ª série, na Escola Estadual Pedro de Toledo. “Ela escreveu Lauanda num trabalho que a gente fez e a professora perguntou ‘Quem é Lauanda?’ Imagina minha cara na sala. Eu não lembrava dessa história, amiga, faz mais de dez anos.”

O primeiro show foi na boate Six Rainbow, da empresária Ana Lee.

“Eu não lembro como eu conheci a Ana, ela tinha um projeto que era essa boate. Tinha seis ambientes a casa e a gente usava dois, só que durou muito pouco. Meu primeiro show foi nessa boate, mas não foi um show, foi só um close de garota, meu primeiro show foi aqui (Campo Grande) mesmo.

Tinha uma época que eu recriminava drag, você acredita? Eu tive essa fase, muito ruim. ‘Não, drag não dá futuro, drag não dá isso.’ Agora olha onde eu tô. Eu brigava com elas. Eu trabalhava tanto e eu via as meninas com esse sonho de drag, drag, drag e as coisas não aconteciam. Aí recriminei mesmo, dava sermão, que drag não ia dar certo, que drag isso, que drag aquilo. Feio.”

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Diego trabalha na indústria de confecção, entra às 5h da manhã e sai às 17, de segunda a sexta-feira. A Lauanda trabalha somente aos fins de semana, sexta, sábado e, eventualmente, aos domingos. Para sobreviver em São Paulo, em 2000, Diego experimentou alguns momentos nada agradáveis.

“Eu trabalhava numa loja de CD que a mulher me escravizava, amiga. Todo dia eu chorava. Ela me pagava (por mês) 200, 300 reais.” Ele lembra que a antiga empregadora atendia os clientes e obrigava os funcionários a seguirem sua regra. “Vai comprar? Se não vai comprar, pode sair.”

“Aí saí de lá e surgiu esse curso na Francisca Franco, é quase uma faculdade, é uma instituição pra pessoas carentes. Como eu não tinha emprego, não tinha nada, eles davam uma bolsa de 60 reais por semana. Aí que eu consegui fazer meus cursos de corte costura, de modelagem.

A minha família já vem de costureiras, a minha madrinha, que é irmã da minha mãe tem uma fábrica de roupa infantil, minha vó tinha máquina de costura. Trabalhei numa fábrica de uniforme, amiga, fiquei acho que um mês, não dei conta. Era só eu e mais uma, amiga, não tinha dinheiro, não tinha nada, não tinha pra onde correr, ganhava por peça tipo 20, 30 centavos. Amiga, era babado essa época aí.”

“Sabe como comecei antes de ter máquina de costura? Eu colava minhas roupas com cola quente. Eu cortava e passava a noite em claro pra todo fim de semana ter um look diferente. Pegava esses tecidos mais sintéticos, eles colam com cola quente, não desgruda como os outros tecidos.”

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O vestido mais emblemático de Lauanda é o que foi usado durante sua primeira participação, há dois anos, na Parada Gay de Campo Grande. “Não consigo me desfazer dele. Foi muita emoção. Sabe o que é falar pra cerca de 20 mil pessoas?”

Diego compra perucas baratíssimas, desmonta partes dela e refaz de acordo com sua necessidade. “Acho que peruca tem que ser grandona, sabe, você já viu as da Kim Chi, não viu? Então eu tiro partes dela, tiro a parte da frente, tiro ou coloco uma franja, encho com mais cabelo pra ficar volumosa, jogo um talco e pronto.” O talco é pra tirar o brilho que os cabelos sintéticos têm. “Pode usar vinagre também.”

“Tudo tem sua hora. Eu acho que vai ter uma hora pra eu parar. Eu quero passar tudo o que eu sei pra uma outra pessoa, eu quero ter uma filha que vai levar meu nome. O meu maior sonho é deixar uma história, não é close. Como as Models (há cinco anos existiu esse grupo com seis drags, cada uma referendava uma cor do arco-íris), eu tenho uma referência muito grande delas. Elas tiveram uma história aqui. Acho lindo isso, você lembrar de uma pessoa e lembrar das coisas boas que ela fez, eu quero deixar isso no meu trabalho.”

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