Será que é uma escola de princesas o que as meninas merecem?

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Quarta-feira (12), o E+, do jornal O Estado de São Paulo, publicou uma matéria que repercutiu nas redes sociais: uma resenha da Escola de Princesas causou frisson entre os internautas. Trata-se de uma empresa inaugurada em Uberlândia (MG), em 2013 e que hoje conta com unidades nas cidades mineiras de Belo Horizonte e Uberaba. Mas por que um empreendimento de três anos ganha os holofotes repentinamente? Porque até o final do mês outra filial abrirá as portas, desta vez em São Paulo, sob o comando de ninguém menos que Silvia Abravanel, filha de Silvio Santos.

O furdunço se dá porque, em pleno século XXI – e em um país onde uma mulher é agredida a cada sete minutos (segundo dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR)) – ainda existem serviços que reforçam os padrões machistas e sexistas presentes em nossa sociedade.

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Idealizada pela psicopedagoga Nathalia de Mesquita, a Escola de Princesas é inteira cor-de-rosa, não aceita meninos e oferece cursos para meninas entre quatro e 15 anos. O tradicional, com três meses de duração, ensina desde ‘valores de uma princesa’ (como bondade, humildade e solidariedade) e atividades práticas de como pentear os cabelos e se maquiar até regras de etiqueta, organização da casa e aulas de culinária.

Ou seja, crianças e adolescentes aprendem que existem papeis destinados às mulheres e aos homens e finalizam os estudos cientes de suas ‘funções femininas’. Na reportagem, a proprietária discorda que a proposta de seu empreendimento seja um retrocesso e a mãe de uma das alunas reforça que, graças aos conhecimentos adquiridos, sua filha não irá dividir grandes funções com o futuro marido porque saberá o que pedir a ele (?), bem como poderá facilitar a vida de sua ajudante doméstica (!).

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O mote da escola é de que ‘o sonho de toda menina é se tornar uma princesa’, porém, há de se convir que os conceitos precisam ser revistos – uma vez que até mesmo a Disney tem adaptado o enredo de suas personagens princesas; vide Fronzen, Valente e Malévola.

Afinal de contas, relacionamentos amorosos não são sinônimos de uma vida plena (relembre a relação abusiva de ‘A Bela e a Fera’), homem nenhum deve beijar uma mulher sem consentimento (um alô aos príncipes que despertaram Aurora e Branca de Neve) e padrões estéticos impostos pela sociedade não têm de servir de parâmetro para conquistar um amor (como Cinderela se submeteu para conhecer o príncipe e Ariel para prosseguir com o seu).

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Aprender e executar leves tarefas domésticas são ensinamentos válidos, sim, mas isso não é algo que diz respeito único e exclusivamente às mulheres. Afazeres do tipo não têm gênero. Uma louça é suja por ambos e deve ser limpa por ambos. O mesmo serve para a manutenção de todo o lar. É preciso desassociar o conceito pré-histórico de que cabe apenas às mulheres manter uma casa ‘em ordem’. E um homem que lava, cozinha e passa não está ajudando ninguém não. Ele está fazendo apenas a sua parte, algo que todos os outros homens podem e devem fazer também.

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A problemática de uma escola voltada exclusivamente ao público feminino é sua proposta e tudo aquilo que as garotas realmente deveriam aprender e ninguém as ensina; do básico (como o fato de brinquedos e cores serem agênero) ao fundamental (como o direito à liberdade de escolhas sem medo de julgamentos).

Quem instrui às meninas a importância da sororidade (mulheres não são rivais), da aceitação do corpo e de sua beleza única, da autodefesa em casos emergenciais, da sexualidade feminina, da prevenção dos cânceres de mama, útero e ovários, do controle de natalidade, das imposições para encarar o mercado de trabalho? Quem as educa a serem felizes com a própria presença e companhia, sem a necessidade de uma busca constante e incessante pelo amor dos outros? Quem explica que não existe o ‘viveram felizes para sempre’ porque a vida fluída e feita de bons e maus momentos?

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Na Austrália, por exemplo, há um ano as aulas de feminismo fazem parte da grade curricular do ensino médio da Fitzroy High School. São 30 lições oferecidas para garotas e garotos que abordam temas como a objetificação do corpo feminino, a relação entre desigualdade de gênero, a violência contra a mulher e o sexismo.

A iniciativa partiu de um coletivo feminista da escola, há três anos, que propôs ao colégio a inclusão do debate na grade curricular. Em vigor desde novembro passado, o programa está disponível para outras instituições de ensino locais interessadas em discutir o tema.

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Por aqui temos o recém-inaugurado ‘Escola sem Machismo’, projeto da ONU Mulheres, idealizado em parceria com a iniciativa ‘O Valente Não É Violento’, que consiste em seis planos de aula livres propondo discussões sobre educação de gênero em classe.

Disponível para download gratuito aos professores de ensino médio, o programa tem como objetivo abordar ideias pré-concebidas sobre o que é “ser homem” e “ser mulher” em sala de aula e promover debates e discussões sobre os papéis de gênero no Brasil.

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Cada aula tem um tema específico e apresenta estratégias de mudança para tais contextos. São elas: ‘Sexo, gênero e poder’, ‘Violências e suas interfaces’, ‘Estereótipos de gênero e esportes’, ‘Estereótipos de gênero, raça/etnia e mídia’, ‘Estereótipos de gênero, carreiras e profissões: diferenças e desigualdades’ e ‘Vulnerabilidades e prevenção’.

Mais eficaz do que remediar as consequências do machismo é educar as crianças sobre igualdade de gêneros. Desconstruir padrões que nos faram passados por gerações não é algo que se obtém repentinamente, trata-se de uma longa caminhada. E enquanto meninas e meninos continuarem sendo instruídos a agirem, portarem-se e serem de um determinado modo, seguiremos estagnados.

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Garotas merecem receber exemplos de mulheres reais – e não personagens da ficção – para poderem se inspirar. Garotos também merecem o mesmo. E ambos precisam aprender a conviver em sociedade e aceitar as diferenças (e neste caso, muito além de gêneros). Sendo autoconfiantes, respeitando ao próximo e tendo liberdade em se expressar com autonomia, não haverá problema algum uma mulher optar por viver a maternidade, seguir uma dieta regrada, recorrer às cirurgias estéticas, lavar, passar e cozinhar. Desde que isso seja uma questão de escolha consciente!

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Adele Grandis: Taurina com ascendente em touro - isso explica muita coisa!