Memento Drag Queen: Daffiny Storm

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Rafael de Oliveira Rodrigues, a.k.a. Daffiny Storm, já foi jogador de vôlei e faz, atualmente, EJA (Educação de Jovens e Adultos). Seu sonho, de criança, é subir no palco e cantar para dez mil pessoas e estudar Artes Plásticas ou Artes Cênicas. A drag queen Daffiny Storm existe há cinco meses.

“Eu nunca tinha ouvido falar em Silvetty Montila, de ninguém. Quando completei meus 18 anos, em outubro do ano passado, a primeira vez que eu vi a Lauanda, foi na festa de Halloween. Eu tava com um vestidão branco, uma peruca preta e toda ensanguentada e pensei ‘poxa, um dia eu quero me vestir que nem ela’.”

A inspiração de Rafael foi Lauanda. “O que mais me inspirou foi ver como as pessoas tratavam ela porque… o meu sonho é ser visto pelas pessoas, é ser reconhecido pelo o que eu faço. Um dia eu gostaria de aparecer na televisão, de conversar com pessoas que se dizem meus fãs, sabe, eu gostaria muito de ser famoso ou famosa, independente de drag.

Em março, eu cheguei na Lauanda, eu tava na fila pra entrar na boate. Eu disse um dia eu quero aprender a me montar, ela me olhou assim e disse ‘Bi, se joga, se você gosta, arrasa’. No outro fim de semana eu apareci na boate montado. Ela olhou pra mim assim, me levou pro palco e meio que, ‘Nossa quem é aquela ali’.

Eu não tinha noção nenhuma de maquiagem então eu achava que era só um pozinho na cara, um batom e vai assim. Minhas roupas, a maioria, dos quatro primeiros meses, fui eu que fiz e eu não tinha máquina de costura, eu fazia tudo na mão. Eu passava o dia inteiro costurando. Até que eu comecei a descobrir os brechós.

Aí a Lau também começou a me ajudar muito e a primeira pessoa que falou pra Lau me adotar como filha foi esse aqui (Carlos), o meu pai. A Lau sempre falava pra mim, calma vai chegar seu momento de brilhar, de fazer show.

O meu primeiro show, mais ou menos, foi uma aparição, foi lá no Sis, onde tava todo o filet mignon das drags, neh. A Lau falou ‘É seu momento, se joga’. E eu fui com a cara e a coragem. Passou umas duas sextas e aí foi meu show oficial, meu primeiro show na Non Stop que é a boate que eu considero a minha casa. Lá foi o público que mais me recebeu, foram as pessoas de lá de dentro que começaram a me ver com olhar diferente, ‘Nossa você é uma drag legal, você é bonita’. Depois do show que eu fiz, eles falaram que eu arregacei. É muito bom você ver as pessoas falarem ‘Nossa, parabéns’.

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As duas pessoas que me inspiram é a Lau e a Rafa (Spears). A Rafa é o bate-cabelo que eu adoro, a Lauanda pela simplicidade e simpatia dela, ela é uma inspiração pra mim.”

“Vish, começou a babação. Não tem maquiagem, não, tá?” grita Lauanda, do banheiro, enquanto se maquia.

Como você criou seu nome?

“É uma coisa ligada ao desenho animado. Eu adorava a Dafne do Scoob Doo, eu me via nela. Quando eu era criança o pessoal olhava pra mim e me chamava de Patricia. E eu olhava pra Dafne, do desenho, chegava na escola e fazia ela certinho, o pessoal gostava. E o Storm, a única personagem negra, mais bem vista, não só nas histórias em quadrinhos, mas nos filmes também, é a Storm, a Tempestade, do X-Men. Eu acho ela muito linda e eu usei pro meu nome.”

O sonho de Rafael se mistura com o da drag Sophya e desenha uma colcha de retalhos com várias histórias. Essas experiências fazem dele uma pessoa consciente do mundo em que vive e das barreiras que precisam ser vencidas.

“O meu sonho de criança é ser cantor. Com a drag, esse sonho só aumentou. É difícil por eu ser negro, gay e pobre. E outra, a minha mãe sempre fala que eu tenho que focar primeiro nos meus estudos… pra eu querer ser alguém na vida porque querendo ou não, nós negros já sofremos preconceito por ser negro… e homossexual, o preconceito é maior.

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Quando eu joguei a minha primeira foto montado no face, muita gente gostou e muita gente criticou porque eu era da igreja, eu era coroinha. Eu fui muito criticado, as pessoas já olhavam pra mim com outros olhos. São pessoas que entraram na minha vida, mas eu excluí porque são pessoas que não fazem mal, mas também não fazem bem, são pessoas que não me acrescentam em nada.

Até minha mãe começou a me aceitar. Na verdade eu não falei pra ela que eu ia fazer drag, só mostrei a foto. Ela não gostou, achou que eu estava virando travesti, que ia fazer programa. Quando o meu pai entrou no meu quarto e viu roupa de mulher no chão, ele achou estranho, ele foi conversar com a minha mãe. Mas até hoje o meu pai não sabe que eu sou drag. Ele nunca me viu montado. Não é que ele não sabe, ele sabe, mas não fala, ele olha, observa, vê as coisas, mas ele prefere não falar.

Eu falei pra minha mãe da reportagem, ela falou ‘Poxa, legal, vai ser uma maneira de você mostrar pro seu pai que você está crescendo’. E eu vim pensando nisso, dentro do ônibus, quando tava vindo pra cá. Eu vim pensando, poxa, vai ser uma maneira d’eu mostrar pro meu pai que eu estou crescendo, que eu não sou travesti, não estou na rua trabalhando e até pra algumas pessoas da minha família, também, vai ser legal.”

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