A culpa é sua! Gordofobia e culpabilização

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Você é gordo e a culpa é sua se você está assim. Toda pessoa gorda tem uma ou várias histórias pra contar sobre momentos em que uma pessoa, seja ela um familiar, um colega, um profissional da saúde ou até um desconhecido a abordou pra dar algum palpite sobre seu corpo. Geralmente vem acompanhada de um “causo”, de um fulano que emagreceu x quilos fazendo a dieta y, da fulana que “fechou a boca e hoje está bonita”, ou de pior, de beltrano que ficou doente por causa do peso e ~insira aqui uma história de terror~.

Esse tipo de situação são ações abertas e diretas da gordofobia, que está presente na mídia, discurso biomédico e senso comum. Mas há uma prima-irmã da gordofobia que a acompanha na maioria das situações, e que também causa inúmeros estragos na vida de pessoas gordas de diferentes idades, origens e realidades sociais: a culpabilização. A culpabilização age na premissa de que você não está apenas doente por ser gordo, mas você também é culpado por isso. E essa culpa vem da associação de que o corpo gordo é resultado de uma alimentação compulsiva, de uma dieta rica em gorduras e pobre em nutrientes e do sedentarismo.

Esse tipo de associação entre o gordo comilão e preguiçoso é a base do imaginário sobre pessoas gordas. Duvida? Pois bem, as imagens que ilustrarão esse texto foram resultado de uma pesquisa em bancos de imagens obtidas digitando as palavras gordo e fat. Bancos de imagens são frequentemente utilizados por agências de publicidade e comunicação e outros veículos, ou seja, de instituições que ajudam a construir o imaginário social através da mídia. E através das fotos inseridas nesse texto – a maioria ainda com a marca d’água dos bancos de imagens que as armazenam – você perceberá qual a imagem sedimentada que tem a pessoa gorda no imaginário: a comilona, sedentária e infeliz.

 

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A culpa é usada como instrumento de controle em muitas situações da História e da nossa vida. Houve um tempo em que o Cristianismo era a principal instituição formadora de opinião no mundo ocidental, e usava a culpa para manter as pessoas obedientes. A gula e a preguiça como pecados capitais remontam dessa época. Comer demais e trabalhar de menos eram delitos que manteriam as pessoas fora do recebimento da recompensa celestial, e dá-lhe exploração do trabalho e armazenamento de riquezas e alimentos pela Igreja e pela Nobreza.

Mesmo depois que o Capital tomou o lugar da igreja como a última palavra na sociedade, a culpa continuou lá, usada como arma. Nas escolas, exército e hospitais somos controlados, ensinados a sermos obedientes, dóceis, prontos para o trabalho. O gordo, nesse contexto, representa preguiça, moleza, improdutividade. E quem é improdutivo na era do capital é pobre. No mundo fitness onde todas as performances necessitam de alto rendimento (quase que uma [in]volução do trabalhador-máquina da Revolução Industrial), ser gordo é ser doente, colocado a margem, feio. E novamente vem a culpa por comer um pãozinho ou fazer cara feia pro pote de Whey.

Seja qual for a origem e o meio pelo qual a culpa é inserida na nossa vida, a questão culpabilização vai muito além de aguentar uma pessoa dando palpite não solicitado no seu corpo e a construção de um imaginário mentiroso sobre a pessoa gorda. As consequências de pessoas gordas serem consideradas culpadas pelos seus corpos se estendem a:

 

1. Maior propensão a recorrer a dietas ultra-restritivas e desenvolvimento de distúrbios alimentares.
Não. Nem toda pessoa gorda apresenta quadro de compulsão alimentar. Pesquisas apontam que apenas uma em cada três pessoas gordas apresentam quadro compulsivo (o que é uma taxa pequena até pra fazer uma generalização). A expectativa social de corpo perfeito – o corpo magro e sarado –  leva pessoas gordas (e até pessoas magras que não se encaixam nos padrões irreais difundidos midiaticamente) a adotarem dietas altamente restritivas e cargas de exercícios extenuantes como forma de atingir um ideal inatingível. À medida que a frustração por não conseguir os resultados desejados aumenta, aumentam também a obsessão e a compulsão, levando a distúrbios como a anorexia, bulimia, ingestão de diuréticos… Quando se ressalta que o controle do corpo de uma pessoa é de inteira responsabilidade dela, se incentiva que ela não deve medir esforços para conseguir esse controle irrestrito.

 

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2. Relações familiares deterioradas
Já falamos como as expectativas familiares afetam positiva ou negativamente na relação que as crianças e adolescentes tem com seus corpos. Quando se tem uma crença de que o corpo gordo é culpa de alguém, associado com o fato de que crianças não são plenamente responsáveis pelo cuidado com seus corpos e saúde, como fica a questão da culpa? Bem, ela acaba recaindo sobre os adultos responsáveis por essa criança. Famílias se sentem culpadas por serem responsáveis por crianças gordas, por teoricamente não estar oferecendo condições de vida saudáveis para seus filhos, e com medo do julgamento social que podem receber (e acredite, receberão). Essa culpa, nem sempre interpretada conscientemente, é transferida para as crianças através de pressões emocionais, falta/excesso de afeto, e verdadeiros bombardeios na auto estima e na identidade ainda em construção das crianças e adolescentes.

 

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3. Tomar como natural a exclusão de dispositivos públicos
Se a culpa é minha por estar gordo, porque eu deveria exigir tratamento digno em hospitais? Macas pra internação que aguentem meu peso? Porque reclamar ao entalar na catraca do ônibus? Questionar a qualidade de cadeiras e assentos que não são capazes de comportar meu peso ou o volume do meu corpo? Roupas que me vistam bem e que eu possa escolher segundo meu estilo pessoal? Por que eu deveria lutar pra ter acesso digno a banheiros, prédios, mobiliário…? Afinal, a culpa é minha por estar gordo, né?
Profissionais da construção civil, engenheiros, designers, legisladores e diversos outros profissionais que contribuem para a construção da cidade e seus dispositivos acabam passando batido quando a questão é o acesso de pessoas gordas. A crueldade da culpabilização afeta a própria mobilização e resistência de pessoas gordas, que acabam por internalizar essa culpa e ficarem mais preocupadas em não serem mais gordas do que refletir que merecem acessibilidade independente da forma de seus corpos.

 

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4. Impactos na(s) Militância(s)
É um fato observável pra quem está inserido nas diversas militâncias (feminista, negra, lgbt…), que a gordofobia muitas vezes é diminuída e silenciada. Gordos muitas vezes são colocados na categoria deficientes físicos, inclusive (não tem nada de errado em ser deficiente físico, mas considerar corpo gordo uma deficiência só corrobora com visão que tentamos combater de que gordura não é doença). E boa parte da culpa por esse apagamento mesmo dentro de contextos de articulação politica é justamente da… culpabilização. Ao internalizar que o corpo gordo é de responsabilidade de quem o possui, ou seja, de que pra diminuir a opressão sofrida basta emagrecer, muitos dos militantes acabam por considerar a luta contra a gordofobia como uma questão secundária ou até irrelevante. Se nós como pessoas gordas já sabemos que dificilmente encontraremos empatia na sociedade como um todo, como nos sentimos ao perceber que lugares aparentemente seguros – como espaços de militância contra opressões sociais –  não são tão seguros assim? Se eu fosse contar quanta gordofobia já recebi de pessoas que teoricamente “lutam contra todo tipo de preconceito”…

 

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Esse mesmo estudo citado anteriormente e que fala das relações entre corpos gordos e compulsão alimentar revela que pessoas gordas (o estudo relata como obesas, mas esse é um termo que pressupõe doença e por isso ele não é usado nessa Coluna) sofrem com maiores níveis de perfeccionismo, impulsividade, ansiedade, isolamento social, vulnerabilidade à depressão, pior qualidade de vida e pior auto-estima. Não descartamos desbalanços químicos que possam levar pessoas a quadros compulsivos, mas… O quanto desses sintomas não provém justamente das opressões sofridas por essas pessoas desde muito cedo? Da culpabilização por seus corpos, dos olhares tortos quando comiam na praça de alimentação do shopping, dos médicos gordofóbicos, dos “conselhos” recebidos sem solicitação, dos entalamentos nas catracas, na falta de roupas…? O nível de doença que uma pessoa gorda pode ser diagnosticada está relacionado também ao nível de opressão que essa pessoa sofreu a vida toda, e negar essa verdade é patologizar cada vez mais o corpo gordo.

É só olhar essa cartilha da Sociedade Mineira de Pediatria sobre o tema Obesidade Infantil pra perceber como a culpabilização e a gordofobia agem desde muito cedo sobre os indivíduos, e muitas vezes partindo de indivíduos que têm ~~autoridade~~ pra falar sobre nossos corpos. Se não considerarmos a culpabilização e a responsabilização da pessoa gorda como um dispositivo gordofóbico, militar somente pelo empoderamento individual será um esforço em vão.

Gordura não é doença. Ser gordo não é necessariamente ser doente, assim como ser magro não significa automaticamente ser saudável. Há pessoas gordas com problemas de compulsão alimentar, e há pessoas magras e saradas com problemas de compulsão alimentar. Ninguém tem nada a ver com a saúde da outra pessoa, mas se vamos usar o argumento “problema de saúde pública” pra julgar os corpos alheios, vamos discutir os dispositivos opressores que são erguidos desde muito cedo com pessoas gordas. Se precisamos falar de acessibilidade pra pessoas gordas, é porque falhamos em considerá-las como pessoas “normais” desde sempre.

Gordofobia não é uma “opressão menor” e nem está em segundo plano na militância. Ela precisa estar articulada e receber atenção assim como tantas outras opressões e exclusões sociais. E a você, pessoa gorda que lê essa coluna:
Não tem problema nenhum em ter um corpo que difere do que é socialmente celebrado. Você não é automaticamente doente só por ser gordo, e se há hábitos nocivos a serem mudados visando uma melhor qualidade de vida, faça isso, mas nunca tendo em vista que é obrigatório ser magro pra ser saudável.

Não é culpa sua não ser como as pessoas gostariam que você fosse, você é sua própria medida e é saudável física e mentalmente que seja sempre assim.

 

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.