‘Hot Girls Wanted’ debate tudo, menos o machismo da indústria do cinema pornô

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Há tempos que eu observava o filme “Hot Girls Wanted” ali na lista de produções da Netflix, disponível para assistir. Nunca havia pintado muito interesse não. Achei que poderia ser mais um documentário bobo e superficial sobre a indústria pornográfica e exploratória que existe nesse mundo machista em que vivemos. Mas alguém compartilhou o filme na timeline e eu quis assistir.

A princípio, o “Hot Girls Wanted” quer mostrar a vida de atrizes jovens, com recém-completos 18 anos, que ingressam na indústria pornô norte-americana como “novidades”, no segmento amador de filmes. Tudo que elas precisam é serem bonitas/gostosas, uma conta no Twitter para se divulgarem, e terem 18 anos (o que a lei nos EUA exige). As documentaristas Jill Bauer e Ronna Gradus acompanham Tressa, de 19 anos, do Texas, que conta para os pais sua escolha de carreira, entre outras mulheres. E por isso mesmo que é tão estranho que o filme seja tão superficial, clichê e que não bata no ponto principal que move essa indústria: o machismo.

“Hot Girls Wanted” trata a indústria como uma entidade maléfica, mas sem ir muito adiante, sem aprofundamento. Separa o que interessa, passa de relance pelo real sofrimento das mulheres, não se importa muito com a causa desse sofrimento e utiliza alguns dados desatualizados com o objetivo de chocar. É um filme clichê sobre uma indústria igualmente amada e odiada.

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Casa mostrada no filme / Foto: Reprodução

Primeiramente tenta culpar de leve as mulheres que se submetem à isso através do bom e velho argumento do capitalismo. Em algumas cenas elas dizem: “Para que eu vou me submeter a trabalhar como garçonete, se eu ganho 900 dólares por cena?”. Fica até desconfortável entender a motivação dessas jovens, porque é muito óbvio e o documentário não é sutil em mostrar. É claro que é pelo dinheiro! Para que uma moça jovem se submeteria a transar com homens diversos em cenas filmadas de forma ginecológica, em um set cheio de estranhos, e fingir que ainda gosta, direto na concepção daquele cinema pornô mais “agrada macho” possível? Mas o filme nem chega nesse ponto. Sem falar de filmes que querem simular estupro. Uma das personagens fala sobre isso duas vezes.

É claro que é pelo dinheiro, mas esse dinheiro também não se vê. Tressa mora em uma casa grande porém imunda, cheia de bagunça e sujeira espalhada, entre calcinhas, biquinis, cachorros e latas de bebida, junto com outras várias meninas e o agente, que as contratou pelo Craigslist, as obriga a pagar 10% para ele de tudo que filmam, e também são elas que pagam o aluguel e as contas da casa. O que exatamente ele faz em retribuição não fica claro. Só sabemos que elas moram de qualquer jeito, e talvez o dinheiro só fique visível quando Tressa fica doente – uma glândula vaginal se rompe em decorrência do sexo nas filmagens, sempre feito sem preservativo – e consegue pagar as contas médicas exorbitantes que chegam. De resto, esse dinheiro que é tanto falado nem é visto.

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Tressa, 19 anos / Foto: Reprodução

Em segundo lugar, como filme, o tédio prevalece em um formato de documentário que lembra as produções mais insossas da MTV. Chega a incomodar que o documentário não se faça a principal pergunta: quem move a indústria do sexo? São os homens. A pornografia é consumida por homens que continuam movendo e alimentando essa indústria que pode até ser considerada menos cruel do que a da prostituição. Ou não.

Falando em prostituição, ainda não sei o que pensar ao ver o Projeto de Lei 4211/12 no Brasil, conhecido como “Lei Gabriela Leite”, que regulamenta a atividade dos chamados profissionais do sexo. Há algum tempo a Câmara criou uma comissão para analisar o texto. Segundo informações, o objetivo principal da proposta não é só desmarginalizar a profissão e, com isso, permitir, aos profissionais do sexo, o acesso à saúde, ao Direito do Trabalho, à segurança pública e, principalmente, à dignidade humana.

Tá tudo bem certo. Mas me incomoda saber que na verdade, regulamentar a prostituição não vai fazê-la acabar. Vai tentar dar dignidade às mulheres e mulheres trans? Com certeza. Mas a gente vive em um mundo machista onde homens acham ok estuprar uma mulher pagando ou não. Então precisamos nos proteger de qualquer jeito. Ou seja, a lei não debate o cerne da questão porque o cerne da questão é o machismo. O que eu quero é que menos mulheres precisem se sujeitar à prostituição para ganhar dinheiro. E é o machismo que mantém a prostituição acontecendo e as mulheres morrendo com a violência.

Então é muito triste que “Hot Girls Wanted” não atinja o problema, seja superficial, desatualizado e clichê. Um ponto a menos para a Netflix.

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Daiane “Lyra” Libero é jornalista de cultura e cinema em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.