Gordofobia nas nossas famílias: o Efeito Pigmalião

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Conta a mitologia grega que Pigmalião era um escultor que se apaixonou por uma estátua de mulher que esculpiu, por considerá-la a “mulher ideal”. Como ele não aprovava a atitude libertina das mulheres de Chipre, onde vivia, pediu à deusa Afrodite uma mulher perfeita, e ela acabou por transformar a mulher da estátua em uma mulher de carne e osso. Os dois, Pigmalião e a estátua-agora-mulher, se apaixonaram, se casaram e tiveram uma filha chamada Pafos, que mais tarde deu nome à ilha de Pafos, no Chipre.
Poderia ser só a história de mais um machinho defensor da moral e dos bons costumes procurando por uma mulher “de bem” pra casar, mas na verdade o mito de Pigmalião é usado como uma alegoria na área de Psicologia, para descrever como as expectativas que criamos podem determinar nossos rumos e trazer à realidade aquilo que desejamos. A lenda foi adaptada por George Bernard Shaw em uma peça de teatro em 1913, e trazia a história de uma mulher do povo transformada em dama da alta sociedade. A peça acabou virando filme, um dos clássicos do cinema estrelado por Audrey Hepburn: My Fair Lady (1964, Minha querida dama em português), dirigido por George Cukor.
Audrey Hepburn em My Fair Lady, antes e depois dos produtos Jequiti.

Audrey Hepburn em My Fair Lady, antes e depois dos produtos Jequiti.

No final dos anos 60, Robert Rosenthal, professor de Psicologia da Universidade da Califórnia, juntamente com Lenore Jacobson, conduziram um estudo sobre o Efeito Pigmalião na sala de aula. Sua tese propunha que as expectativas do professor afetam tanto as realizações escolares dos alunos quanto seu desenvolvimento intelectual. Professores receberam fichas de alunos antes do ano letivo, e dentre esses alunos alguns foram aleatoriamente marcados como “acima da média” no que tange ao desempenho escolar. O resultado de testes de inteligência aplicados depois de alguns meses mostraram que os alunos tratados pelos professores como os “melhores” obtiveram melhores notas e melhores ganhos totais de QI na área de raciocínio quando comparados aos alunos que foram aleatoriamente classificados como medianos. Isso quer dizer que as expectativas e o tratamento dos professores em relação a alunos que eles achavam mais suscetíveis ao sucesso de fato levaram os alunos a maior êxito escolar. A esse fenômeno chamaram de Efeito Pigmalião, em referência à história mitológica.

Os resultados desses estudos foram questionados e problematizados (você pode ler mais a respeito aqui e aqui), mas ainda assim a ideia central da teoria persistiu na área da Psicologia, e podemos dizer em linhas gerais que as expectativas criadas por uma pessoa em relação a outra (especialmente se essa pessoa for uma figura de liderança), pode fazer grande diferença no desempenho da pessoa de quem se espera algo. Isso porque boas expectativas geram:
1. um ambiente mais receptivo para as pessoas “com grande potencial” e 2. os ensinamentos transmitidos a essas pessoas são feitos com maior ênfase e dedicação por parte do mentor/professor/líder, justamente por acreditar que seu aprendiz é capaz de ir além.

Robert Rosenthal (à esquerda) e Lenore Jacobson (à direita), condutores do experimento. No centro, capa do livro que documentou os resultados da pesquisa sobre o Efeito Pigmaleão na sala de aula.

Robert Rosenthal (à esquerda) e Lenore Jacobson (à direita), condutores do experimento. No centro, capa do livro que documentou os resultados da pesquisa sobre o Efeito Pigmaleão na sala de aula.

E você, leitor, deve estar se perguntando o que todo esse papo de Efeito Pigmalião tem a ver com pessoas gordas, e mais ainda, com famílias. E eu digo que tem tudo a ver, até porque o conceito pode ser extrapolado para além da sala de aula. Vamos para um breve contexto histórico: até a Idade Média, era comum que crianças fossem inseridas normalmente nas atividades da vida adulta. Não havia um grande período temporal de infância como a conhecemos hoje. A escola substituiu essa aprendizagem através da vida prática com os adultos, e a família passou a ser um local de afeição entre pais e filhos. A escola e a família passaram a ser instâncias de formação para as crianças, bem como a infância passou a ser um período de preparação para a vida adulta (para quem se interessar em saber mais sobre esse assunto, recomendo esse livro).
É na família que recebemos nossas primeiras impressões de quem somos e como nos posicionamos diante do mundo. É nas expectativas da família que crescemos e nos desenvolvemos, ou nos retraímos e atrofiamos. O Efeito Pigmalião tem muita força dentro do seio familiar, porque costumamos prezar pela expectativa positiva e opinião daqueles que nos cuidam (ou pelo menos deveriam cuidar). E isso não se resume apenas ao período da infância, embora a infância seja um período bem crítico do nosso desenvolvimento emocional e físico; mesmo depois de adultos, continuamos estabelecendo inúmeras ligações e dependências com nossas famílias, e esses laços nos afetam de maneiras positivas ou negativas.
Se tem uma coisa que o desenho da Vaca e o Frango nos ensinou é que famílias existem nas mais variadas formas.

Se tem uma coisa que o desenho AVaca e o Frango nos ensinou é que famílias existem nas mais variadas formas.

É chover no molhado dizer que vivemos numa sociedade gordofóbica: desde muito cedo convivemos com chacotas, com falta de acessibilidade, com patologizações. Mas e quando a família, teoricamente um organismo de apoio e amor, reproduz as ideias gordofóbicas da sociedade em que está inserida? Que efeito isso tem nas nossas vidas?
Um estudo (que, diga-se de passagem, é bem problemático e já parte de uma visão estereotipada e patologizante, mas é um dos poucos que trazem pesquisa de campo) com famílias de crianças gordas notou que as famílias se mostravam ansiosas e em situação de sofrimento em virtude da forma física das crianças. E apesar de apresentarem quadros de ansiedade acima da média, os pais conversavam menos com seus filhos gordos. E demonstravam menos afeto aos seus filhos gordos, como uma forma – muitas vezes inconsciente – de culpabilização da criança por seu corpo.

Muitas das crianças, por sua vez, respondiam a essa falta de afeto desenvolvendo compulsões alimentares, comendo escondidas e mentindo. Percebe o Efeito Pigmalião? As expectativas dos pais e responsáveis em relação aos filhos gordos é muito menor, e a ideia que fazem dessas crianças é a mais negativa possível: de pessoas fracas, sem auto controle, incapazes de se amarem, de cuidarem de si, de serem bem sucedidas (porque numa sociedade gordofóbica o corpo magro e sarado é sinônimo de sucesso).

Família (1925), de Tarsila do Amaral.

Família (1925), de Tarsila do Amaral.

As crianças, por outro lado, acabam por internalizar esse estereótipo ruim e isso afeta diretamente no seu auto-conceito: se as pessoas que eu amo pensam isso de mim, devo ser assim mesmo, muito ruim. Boa parte de um auto-conceito negativo que uma pessoa gorda pode vir a desenvolver é apenas um espelho das expectativas e conceitos lançados sobre ela ao longo de sua vida. E na maioria dos casos a pessoa nem se dá conta disso. Ah, mas a culpa agora é toda da família? Primeiro que não há culpa nenhuma em ser gordo. Segundo que claro que não, não é “culpa” só da família se alguém desenvolve uma visão distorcida sobre si próprio. Dentro de uma sociedade gordofóbica, ninguém está imune a reproduzir preconceitos e estereótipos, inclusive fazendo parecer que essas ideias são amor e preocupação com a saúde do familiar gordo.

E os malefícios do Efeito Pigmalião não se dão somente no campo da formação das identidades pessoais, eles também colaboram para a formação de um imaginário social da pessoa gorda. Por exemplo, se é esperado que pessoas gordas sejam sedentárias e comilonas, muitas pessoas vão corresponder a essa expectativa e acreditar nessa “verdade” lançada. Vão evitar academias e locais públicos de realização de atividades físicas, vão desenvolver distúrbios e compulsões alimentares, seguir dietas malucas, vão passar a crer que seu corpo está errado, que são doentes, que não merecem amor. Essas posturas acabam por alimentar o estereótipo existente de pessoa gorda, e o ciclo vicioso da gordofobia se mantém vivo. Evidente que nenhum indivíduo é SOMENTE o resultado da ação do meio onde vive, mas não podemos ignorar totalmente a ação que nosso meio social tem na nossa formação pessoal e na formação do imaginário coletivo.

Una familia (1989), de Fernando Bottero.

Una familia (1989), de Fernando Bottero.

Mas sempre é possível quebrar ciclos destrutivos. E a chave pra fazer isso é o conhecimento. Pais, avós, tios, primos, irmãos, responsáveis, vocês tem responsabilidade formativa sobre as crianças de sua família e convívio. Suas palavras, atitudes, julgamentos e preconceitos terão impacto na vida dessas crianças, e cabe a cada um decidir se vai fazer esse impacto ser positivo ou negativo. Pode-se incentivar as crianças a se amarem, conhecerem seus limites, se desafiarem e acreditarem em si mesmas ou pode-se investir numa nova geração que não se ama, não acredita em seu potencial, e acredita ser fadada ao fracasso.

E isso não é só sobre as crianças; NUNCA é aceitável caçoar, diminuir, rejeitar e culpabilizar um parente gordo. Por mais preocupado que você possa estar com a saúde da pessoa (e não custa lembrar que pessoas gordas não são necessariamente doentes), uma conversa sobre sentimentos pode ser muito mais produtiva do que uma reprimenda em forma de ataque. Perguntar a uma pessoa gorda como ela se sente e demonstrar real empatia pelo que ela tem a dizer é muito mais eficaz do que dizer “vai morrer de tanto comer, assim ninguém vai te querer mesmo!”. Percebe a diferença?

E pessoas gordas: nunca é fácil superar as expectativas negativas e as atitudes tóxicas que nossos entes queridos têm a nosso respeito. Ainda mais se nosso momento de vida nos obriga a conviver com essas pessoas. Mas parafraseando mama RuPaul: “o que as pessoas pensam a nosso respeito não é problema nosso”. Se o diálogo aberto com esses familiares não funciona, se eles insistem na relação gordo/doença, gordo/feiúra e gordo/culpado mesmo com todos os argumentos possíveis provando o contrário, a solução é simplesmente ignorar essas atitudes (quando afastar-se da pessoa não for possível). Há uma rede de apoio fora da família, acredite nisso e busque pessoas que pensam o melhor possível a seu respeito.

Escolha sua família.

Tradução: Sonhe e sonhe grande. Não importa de onde você veio, qual sua cor, qual a forma do seu corpo. Seja o melhor que você pode ser. Se deusa Latrice falou, tá falado.

Tradução: Sonhe e sonhe grande. Não importa de onde você veio, qual sua cor, qual a forma do seu corpo. Seja o melhor que você pode ser.
Se deusa Latrice falou, tá falado.

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.