Seria a pílula anticoncepcional a amiga da onça?

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Quando a pílula anticoncepcional surgiu, na década de 60, as mulheres tiveram a oportunidade, pela primeira vez, de terem autonomia sobre sua sexualidade. Em tempos nos quais as doenças sexualmente transmissíveis não eram pauta, o fato de poder escolher quando e se queriam engravidar se tornou um marco.

Acontece que, de lá pra cá, muita coisa mudou. Em 2016, comemorando 56 anos de existência, a até então ‘melhor amiga’ da mulherada tem revelado seus ares de vilã – tudo por conta dos efeitos colaterais pouco comentados pelas empresas farmacêuticas, mídias e profissionais da medicina.

A proposta e funcionamento da pílula são simples: ingerindo-a diariamente no mesmo horário, ela bloqueia o processo de ovulação feminina. Ou seja, por mais que haja a ejaculação e que o espermatozoide chegue às trompas, não haverá óvulo disponível para uma fecundação.

Porém, cada comprimido tem doses de hormônios sintéticos, que dependem da marca e dos compostos. Alguns combinam derivados da progesterona e do estrógeno. Enquanto outros contêm apenas hormônios advindos da progesterona (progestogênicos).

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As pílulas precursoras eram feiras com os primeiros hormônios sintéticos, os ‘velhos progestogênicos’. As atuais fazem parte da terceira e da quarta geração do hormônio, os ‘novos progestogênicos’.

Essas reformulações ao longo do tempo se deram a fim, justamente, de minimizar os efeitos colaterais da medicação. Contudo, as novas fórmulas são associadas ao risco maior de problemas como a trombose e acidente vascular cerebral (AVC).

De acordo com um estudo realizado pela Universidade de Nottingham, no Reino Unido, em 2015, aquelas que têm em sua composição a progesterona aumentam em até 4 vezes o risco de trombose.

A quem não sabe, a trombose é uma das consequências da formação de trombos; coagulação do sangue que impede a circulação. Quando este trombo se dá nos vasos das pernas, os danos não são tão graves, gerando inchaço e profundo incômodo.

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Todavia, quando a formação acontece nos pulmões e/ou vasos do coração, causa infarto e se for no cérebro gera o AVC. Nesses casos, os danos podem ser irreversíveis, além de poder ocasionar a morte da pessoa.

Quanto menor a dosagem de hormônio da pílula, menor o risco. E outros fatores pessoais podem agravar os riscos de trombose, como o tabagismo, a obesidade, o diabetes, a pressão alta, o histórico familiar de trombose e o déficit de vitaminas do Complexo B (especialmente das vitaminas B6, B9 e B12).

De todas as pesquisas e estudos já realizados sobre os efeitos colaterais da pílula anticoncepcional, o que associa a medicação à trombose é o único, de fato, conclusivo. Outras análises foram feitas para certificar se o comprimido engorda ou diminui a libido, por exemplo. Os resultados se mostraram bastante variáveis e tais informações não possuem sustentação científica.

No que diz respeito à trombose, porém, não há como negar seu risco. Mas a indústria farmacêutica mascara tais possíveis efeitos com a disseminação de informações dúbias. A média de casos de trombose por uso de pílula é de 10 casos para cada 10.000 mulheres contra 5 casos para cada 10.000 que não usam contraceptivos orais. Entretanto, aumenta para 30 a cada 10.000 em gestantes. Ou seja, engravidar acarreta em um risco 3 vezes maior de trombose do que o uso da pílula. É nisso que os fabricantes apostam!

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‘Esquecem’ de informar que uma grávida passa por acompanhamento pré-natal, coisa que não acontece com quem opta por tomar pílula. Primeiramente, o medicamento é comercializado em qualquer farmácia sem necessidade de apresentação de receita médica. Sem contar que muitos ginecologistas desconhecem a necessidade de pedir exames para a identificação da homocisteína.

De um modo geral, a pílula é abordada como uma medicação extremamente benéfica, com ofertas que vão além do planejamento familiar. Neste caso, é um anticoncepcional confiável, com uma taxa de sucesso ao redor dos 99%. E pode ser usada ainda para o tratamento do hiperandrogenismo (excesso de hormônio masculino), da dismenorreia (cólica menstrual), da menorragia (excesso de menstruação) e da tensão pré-menstrual.

Outros estudos revelam que cânceres de cólon, reto, ovário e útero (câncer de endométrio) parecem ser menos comuns em mulheres que usam pílula anticoncepcional. Por outro lado, os cânceres de colo de útero e do sistema nervoso central parecem mais comuns às usuárias do comprimido.

A bula não esconde os possíveis efeitos colaterais, mas também não alerta com a devida clareza. As informações são apresentadas de modo que uma mulher jovem e aparentemente saudável se sinta segura em fazer uso da medicação.

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E é assim que vemos mais casos a cada dia de mulheres com menos de 30 anos vítimas dos efeitos da sobrecarga de hormônios. A fanpage Um Veneno Chamado Anticoncepcional reúne mais de 62 mil membros e compila centenas de relatos de mulheres vítimas da pílula.

As mais antigas, que combinam etinilestradiol a levonorgestrel, noretisterona ou norgestimato, aumentavam o risco de trombose em 150%, enquanto as mais modernas, que combinam etinilestradiol a desogestrel, gestodeno, drospirenona ou ciproterona, aumentam o risco em 300%.

Recentemente, a Anvisa obrigou as fabricantes que apostam na formulação com drospirenona a informarem com clareza as possíveis reações adversas da utilização do medicamento. Duas das pílulas mais vendidas pela Bayer (YAZ e Yasmin) possuem tal hormônio em sua composição. Em 2013, a Diane 35 recebeu o mesmo alerta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Por exemplo, dentro os sintomas tidos como ‘comuns’ a quem faz uso da pílula está a dor de cabeça e alterações visuais. Acontece que a dor de cabeça é um dos sintomas primários de algumas complicações e as alterações visuais, como a diplopia (visão dupla), ou a perda da visão lateral, pode significar justamente algum problema vascular causado pela pílula.

Third-generation contraceptive pills are displayed on January 2, 2013 in Lille, in northern France. France's national drug agency ANSM started consultations with prescribers of third-generation contraception pills on January 2 to try to limit the use of such pills which are subject to complaints, after a French woman attributed her stroke to her contraception pill in mid-December 2012. Some 13,500 complaints were also lodged in the US against Bayer's four-generation Yaz contraceptive pill.  AFP PHOTO PHILIPPE HUGUEN        (Photo credit should read PHILIPPE HUGUEN/AFP/Getty Images)
Estima-se que 9% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo usam contraceptivos orais. Casos de trombose são maiores nos primeiros meses de uso da pílula. Nem toda mulher que recorre ao medicamento será vitimada pela doença, porém, o risco não é tão pequeno quanto parece ser.

Trata-se de uma escolha pessoal e intransferível, mas que necessita de informações claras. A força da indústria farmacêutica acaba sendo maior que voz do povo e por isso é de extrema importância dar espaço e visibilidade para o debate sobre a pílula anticoncepcional.

É essencial ressaltar a importância de uma conversa aberta com seu ginecologista. Não tenha receio em questioná-lo e só saia da consulta com suas dúvidas esclarecidas. Caso não se identifique e/ou não se sinta confortável com o profissional, procure por outro médico.

Não escolha e nem compre sua pílula por indicação de terceiros. Cada pessoa tem organismo diferente da outra. O que funciona para sua amiga ou irmã não necessariamente será o melhor medicamento para você também.

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A pílula pode ser o método contraceptivo de maior eficácia, mas não previne contra nenhuma doença sexualmente transmissível. Apenas o preservativo (feminino ou masculino) é que cumpre esta função.

Outros anticoncepcionais também indicados indiscriminadamente por ginecologistas oferecem riscos à saúde de tabagistas. Por isso é fundamental se informar com seu ginecologista sobre os efeitos colaterais de cada um deles.

Vale ressaltar que, atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece oito opções de métodos contraceptivos: injetável mensal, injetável trimestral, minipílula, pílula combinada, diafragma, pílula anticoncepcional de emergência (ou pílula do dia seguinte), Dispositivo Intrauterino (DIU), além dos preservativos – todos distribuídos gratuitamente.

Por último, mas não menos importante, a pílula do dia seguinte deve ser utilizada apenas em caso emergencial – jamais contínuo. O comprimido tem altas doses de levonorgestrel, que corresponde à ingestão de dez pílulas anticoncepcionais em uma única dosagem.

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Adele Grandis: Taurina com ascendente em touro - isso explica muita coisa!