Romantização de abuso e objetificação feminina: As coisas desnecessárias de ‘Esquadrão Suicida’

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A coluna La Película retorna a este maravilhoso site chegando já com um tópico ~polêmico~: o flop “social” e cinematográfico do filme “Esquadrão Suicida”. Digo que é um “flop social” porque nas bilheterias o filme está indo relativamente bem. Deveria? Para justificar o alto investimento no filme, talvez. Mas vamos lá. Spoilers moderados, fique atento se ainda não viu o filme.

“Esquadrão Suicida” talvez seja o filme de heróis da DC Comics mais esperado de 2016. Há cerca de um ano, o filme lançou um trailer extremamente maravilhoso na Comic Con San Diego 2015, e a internet veio abaixo. Ao som de uma versão sombria de “I Started a Joke” do Bee Gees, os vilões obrigados a serem heróis para o Governo norte-americano mostravam que, aquele seria um filme muito forte. Só que alguma coisa aconteceu (na verdade “Batman VS. Superman” aconteceu) e o filme que nos foi entregue é outro completamente diferente.

Mas o que quero pontuar neste artigo não é que o filme é realmente muito ruim em termos de roteiro, montagem, história e muitos outros tópicos – como uma vilã esquecível e um Coringa altamente #chatiado. Quero falar sobre o quão as mulheres foram, literalmente, escrotizadas nesse filme.

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As meninas do Minas Nerds desenharam pra galera o que tem de errado no figurino do filme / Créditos da foto: Minas Nerds

Não adianta vir o fandom masculino chorar mais: muitas mulheres são fãs e consumidoras de quadrinhos, de jogos, e elas cansaram de ver a personagem feminina ser um objeto frágil de roupa apertada. A gente quer ver personagens como Riri Williams – que será o novo “Homem de Ferro” nos gibis – negra, com uma cabeleira maravilhosa e um diploma do MIT. E muitas mulheres, senão todas, esperavam uma Arlequina que pudesse, ao mesmo tempo que mantinha sua essência dos quadrinhos, trazer uma nova força.

Para quem não sabe, a personagem Arlequina apareceu primeiro na série animada do Batman, e logo ganhou sua própria história por ser uma vilã muito carismática. Mas desde o começo, os autores da DC Comics sabiam que o Coringa – aquele vilão que é tão perverso que chega a ser insuportável – não é capaz de amar. Tanto é que, nas séries animadas e em várias HQs, Arlequina sofre nada mais, nada menos, que um relacionamento abusivo – se é que podemos chamar isso de relacionamento. Coringa objetifica, machuca, explora, corrói, destrói e agride Arlequina em todas as instâncias possíveis.

E não é porque a personagem continua amando seu abusador que isso é “ok”. Já ouviu falar em Síndrome de Estocolmo? Pois é.

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Trecho da HQ “Os Novos 52”

Série clássica

Existe um episódio muito clássico da série animada onde Arlequina vai lá e captura o Batman, porque é tudo que seu “amado” Puddin deseja. Ela consegue o impossível, aquilo que o próprio vilão jamais conseguiu: deixar o homem-morcego em uma situação de vulnerabilidade, pronto para ser finalizado. E entrega o herói de bandeja para Coringa, que faz o que? Atira ela de um prédio. E emenda: “Don’t call me Puddin” (“não me chame de pudim”). Arlequina destroçada 20 andares abaixo (em uma cena muito forte em termos de violência), murmura: “I didn’t get the joke” (“eu que não entendi a piada”). Ou seja, ela é quem sofre a violência, e ela que se culpa. Vamos dar nome aos bois? A-B-U-S-O. Chorem agora.

Mas o filme, em prol de um medo absurdo de não faturar, e visando explorar mais ainda a imagem da atriz Margot Robbie, colocou a relação entre Arlequina e Coringa como sendo quase que um romance de Jane Austen. O Coringa sem graça de Jared Leto (e digo sem graça porque a construção do roteiro é tão ruim, que não dá nem tempo de entender direito o que Jared fez com o personagem tão icônico), fica o tempo todo tentando salvar Arlequina.

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De vez em quando eles tentam mostrar que é, realmente Coringa é louco, não ama Arlequina. Uma dessas cenas é quando mostra a prisão de Harley Quinzel. Eles estavam em um “date night”, quando o Batman tenta capturar os dois e Coringa atira o carro no mar (ou num rio, não fica claro), mesmo Harley pedindo que ele pare pois ela não sabe nadar. Quando Batman chega até o carro afundado na água, o vilão sumiu e ele captura Harley. Ele largou ela pra morrer no fundo do oceano. E mesmo assim ela sonha com o dia em que ele virá tirá-la da prisão.

A cena plástica mais visual do filme é quando Harley Quinzel se atira em uma piscina de ácido, em prol de seu amado, por vontade própria. Mas até isso é romantizado demais no filme. E dá muita pena de ver pessoas falando “nossa, que crush maravilhoso Coringa e Arlequina”. Parem, pessoal. Não é crush. É abuso.

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Arlequina não se presta a falar sobre isso no filme. Ela não se liberta. Ela é só mais uma heroína gostosa que vai pra ação de calcinha e meia arrastão, quando todos os homens estão vestidos para a guerra. Ela está de salto alto quando seu abusador a salva, mesmo depois de ter jogado-a dentro de um tanque de ácido. Mesmo tendo deixado ela presa nas ferragens de um carro nas profundezas do mar em Gotham.

Nós deveríamos saber que cenas mostrando a bunda de Margot Robbie antecipavam nosso desgosto com toda essa situação. Será que eles nunca vão aprender? A gente aguarda que eles entendam em “Wonder Woman”, o próximo filme, que – de uma vez por todas – nós não somos objetos. Somos heroínas. Com ou sem relacionamento abusivo pra jogar a gente dentro de um tanque de ácido.

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Daiane “Lyra” Libero é jornalista de cultura e cinema em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.