Entrevista: Dudx Babaloo – Especial A Coisa Toda 1 Ano

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Essa semana a seção de entrevistas da coluna O Grande Close está especialíssima. Aproveitando as comemorações de um ano do nosso site A Coisa Toda, bati um papo com Dudx Araújo, também conhecido como a performer Dudx Babaloo (ou só Dudx), um dos fundadores do site e a mente criativa por trás de vários projetos artísticos e de militância (e que por acaso é uma pessoa gorda e sempre deu o maior apoio pra que a coluna O Grande Close se desenvolvesse por aqui <3).

Vamos pra essa entrevista maravilhosa e mais do que especial?

 

[O Grande Close]: Fala um pouco de você: nome, idade, o que faz da vida…

Nome e o que eu faço da vida são questões que tem múltiplas respostas. Meu nome é Eduardo (Dudu) Araújo, mas eu me assino apenas como Dudx atualmente, que é meu nome artístico. Eu tenho 26 anos e formação em Publicidade e Propaganda, mas hoje eu trabalho como performer e personalidade da noite. Sou também assessor de imprensa, e, além disso, faço juntamente com outras pessoas um portal de diversidade chamado A Coisa Toda, uma plataforma de cultura e diversidade que começou como um projeto de vários amigos há um tempo e hoje estamos levando pra frente. Eu faço muitas coisas legais! (risos)

 

 

[O Grande Close]: O legal é que você já respondeu várias das minhas perguntas só na primeira pergunta! Isso que é um bom entrevistado!

(Risos) Ah o que eu faço? Eu faço muita coisa, vamos falar sobre!

 

 

[O Grande Close]: Sobre essa questão de você ter passado a assinar Dudx, de onde veio? Foi uma reflexão que você teve sobre gênero, um repensar da sua persona…?

Dudx1 Toda ideia é uma conjunção de fatores. Dudx foi assim. Quando eu comecei a me montar eu assinava Duda Babaloo, porque eu buscava uma referência fresca pra mim, uma coisa muito relacionada ao universo feminino, eu ainda estava me encantando e queria uma coisa meiga, tinha muita ligação com a década de 80, então eram essas referências que estavam na minha cabeça. Duda Babaloo soava fofo e soava chiclete, e eu tinha essa brincadeira e foi isso quando comecei. Quando eu fui me montando, e montando, e montando, eu comecei a ter outras visões do universo da montação, sabe? Saindo um pouco dessa ideia de drag (que significa dressed as a girl, ou vestido como garota) e comecei a experimentar e vivenciar outros tipos de performance. Ser isso 24 horas por dia, não só encarnar um personagem. As pessoas me tomavam como um personagem, mas era eu, sempre fui eu. E aí eu pensei como que eu vou trazer a Duda pro Dudu, sabe? Antes de eu me montar, eu já trabalhava com a noite, com o nome que eu me divulgava, sabe? Então eu pensei: eu tenho que juntar as duas coisas numa coisa só, né? E aí eu aderi a esse negócio do X, que ao mesmo tempo soa cacofônico, me soa também chiclete, assim como Babaloo. Grudento, sabe? Dudx, dudx, dudx, dudx… E aí eu falei: cara, é Dudx! Dudx Babaloo eu vou continuar usando, mas o Dudx virou tipo um carimbo, sabe? Virou minha assinatura. E quando eu comecei a pichar, era uma coisa rápida de fazer, tipo um selo: Dudx.

 

 

[O Grande Close]: Então… vai além de drag porque vai além de um personagem. É você.

Eu acabei com essa ideia de personagem. Pra mim essa ideia de personagem não existe na minha concepção como artista hoje. Eu consegui desenvolver alguns trabalhos esse ano que me propuseram a me mostrar como uma persona completa. A ideia de drag mesmo se encaixa em muitos locais ainda, e as pessoas te recebem dessa maneira já, sabe? Você passa perto do tipo de arte, de alguma coisa dali. Também tem muito do palco, do stage, o showtime. E eu estava indo muito mais pro lado da performance experimental. E eu comecei a ter outras ideias de performance, e… isso nem sempre é aceito em todos os espaços. Eu nunca consigo me encaixar. Nem na escola, nem em lugar nenhum. E com drag é a mesma coisa: quando eu comecei a me montar eu não conseguia me encaixar. Mas essa bagunça toda que eu boto no meu personagem, é a minha vida isso. Sempre foi, sempre foi assim meio louco, sabe? E aí eu canalizei isso num personagem só que daí começou a transbordar. Eu não me monto, eu vou assim ao mercado, entendeu? E aí as pessoas não entenderam no começo, mas agora eu acho que tá mais visível isso: minha vida pessoal e a minha Arte são a mesma coisa.

 

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Ok, então eu vou aproveitar esse gancho do momento que você falou sempre se sentir uma pessoa estranha e perguntar: como foi sua infância e adolescência? Você foi um menininho e um adolescente gordo?

Eu sempre fui gordinho, gente. Depois eu fiquei mais gordo, e agora to emagrecendo, minha vida anda uma loucura que eu perdi uns quilos essas semanas e falei: o que é isso? Eu não quero ser magro! (risos). Essa é minha graça, sou eu. Infância… (suspiro). Foi muito complicado, muito complicado.

 

 

[O Grande Close]: Você sempre foi a criança artista, incompreendida, diferentona?

Dudx2 É, eu era a criança viada da escola, e a viada nerdzinha, sabe? Que queria ser certinha, que andava bem arrumadinha, eu era muito perfeitinha, sabe? Conversava com as professoras de Arte, trocava uma ideia, sempre fui aquela coisa “quero ser uma boneca de porcelaninha”. Minha mãe me criou numa pira meio sistemática, sabe? E eu queria ser perfeito pra vida, tudo arrumado, eu era assim, uma criança assim. Adolescente… eu me revoltei contra isso, ÓBVIO! E foi uma revolta que me machucou porque eu atacava a mim apenas, sabe? Eu tinha uma sensibilidade muito grande em relação às pessoas que estavam à minha volta e quando eu me sentia mal eu me culpava, enfim… uma coisa meio auto cortante minha adolescência. Eu passei minha infância e adolescência numa cidade com menos de um milhão de habitantes chamada Campo GrandeMato Grosso do Sul, então eu era a criança gorda bicha que gostava de Arte e modernetezinha numa cidade pequena no Mato Grosso do Sul, sabe?

 

 

[O Grande Close]: Eram várias opressões pra uma pessoa só (risos).

Sim, você não tem noção, era bizarro! Eu era muito bizarro. Então foi confuso, mas ao mesmo tempo quando eu cheguei aos meus 17, 18 anos eu conheci a galera do Rock em Campo Grande. Tinha umas gays do rock, assim, um rock moderno, sabe? Tinha umas bandinhas alternativas estourando, Rock Rocket, Sonic Youth… E foram pessoas maravilhosas na minha vida, vários amigos que eu trouxe pra vida e nesse momento que eu comecei a sair do ensino médio e ir pros meus rolês, eu me abri muito e foi muito bom, sabe? Algo mais próximo do que eu sou hoje, eu consegui me entender naquela fase até os últimos anos em São Paulo. Mas eu passei uma infância e uma adolescência em que eu era fechado, com as minhas verdades, e muito querendo ser perfeito. Eu era aquela bicha que queria ser aceita, sabe? Por todo mundo? Aquela bicha amiga que fica do lado de todo mundo, não fala da vida pessoal dela pra ninguém e todo mundo gosta dela porque ela é fofa e perfeitinha? Eu era esse tipo de bicha, mas olha, agora virei outro tipo de bicha. A evolução Pokémon a gente não escolhe.

 

 

[O Grande Close]: Então você acha que um grande ponto de ruptura na sua vida foi você ter vindo pra São Paulo?

Ah, total. Eu sabia que eu iria vir pra São Paulo uma hora ou outra. Quando eu vi um seriado chamado Alice, da HBO, que fala sobre a história do personagem da Andreia Horta, que vem lá de Palmas – TO pra enterrar o pai dela aqui. E quando eu vi essa série eu tinha uns 16 anos e falei “eu preciso ir pra lá”. No ano seguinte, eu vim pro Festival Planeta Terra, fui no [Clube] Glória, me joguei, conheci o mundo da montação e foi algo “meu Deus do céu, eu preciso vir pra cá agora!”. Deu seis meses e eu estava morando em São Paulo. Encontrei meu lugar, sabe?

 

 

[O Grande Close]: E esse mundo da montação, você acha que ajudou você a lidar com questões sobre você mesmo e sobre seu corpo?

Dudx3 Ah, claro, né? Tipo, “I am fucking cool”, sabe? As pessoas te param a noite toda pra falar que você tá o máximo, e isso faz muito bem pra auto estima. É como se você desse o troco, sabe? É oprimido a vida toda, chamado de gordo, zoado, não acha roupa interessante pra você, só acha um jeans cagado na Riachuelo, e assim, você passa por cada perrengue pra se vestir… E aí você chega linda, aos 20 e poucos anos, com looks bapho e dando o nome. As pessoas te pagam pra ir numa festa, param você na balada, é muito divertido. É tipo o troco, você fala: “dei certo” (risos).

 

 

[O Grande Close]: Vou aproveitar então que você tocou nesse assunto e era mesmo um assunto que eu queria tocar: seu figurino. As suas montações, além de incríveis, elas são muito diferentes, você não é alguém que se monta com um vestidinho básico da Forever 21. Então eu queria saber de onde vêm essas inspirações e como são os processos de produção desses figurinos.

Ótimo você perguntar isso porque eu fui ao brechó hoje! Gastei 40 reais e comprei várias peças! É um brechó de igreja, lá na Vila Mariana, chamado Samburá.

 

 

[O Grande Close]: Então esse processo é uma colcha de retalhos, você vai pegando aqui e ali…

Dudx4Brechó! Basicamente eu me monto com roupa de brechó, e eu tenho 4 ou 5 amigos que me ajudam com acessórios. Tem o Fabio Kawallys que faz jaquetas incríveis, inclusive as jaquetas que eu usei recentemente com muitos acessórios. Os tricôs são do Léo Gomes, ele trabalha por encomenda e a gente é super amigo. O chapéu é do Eduardo Laurino. E além deles… Uma coisa que você tem que ser é simpático com as pessoas, e aí você vai fazendo amigos. A noite é basicamente feita por amigos. Pessoas que estão se relacionando em momentos de prazer e diversão, e se você é uma pessoa legal e comunicativa e consegue chamar as pessoas pra perto de você, você soma com elas e elas somam com você. E é isso. Eu faço compra também numa feira que tem no Brás, de sábado pra domingo tem a Feira do Escambo, e ali tem muita roupa a 2 reais… Tem uma bolsa que eu comprei que eu paguei tipo 5 reais, sabe? Custa no mínimo 200 reais em qualquer lugar e eu paguei 5 reais nela. E eu já produzi muita coisa. Eu moro com uma pessoa que é stylist, outras que se montam, enfim, o meu universo é meio que de pessoas que são da moda de certa maneira, sabe? E eu não era assim, eu já trabalhei com moda antes, trabalhei pra Forum, Tufi Duek, Triton, outras marcas também de fast fashion e eu era uma pessoa super simples, de só usar camisa preta longa e calça. Era super básico.

 

 

[O Grande Close]: Sério? Eu não consigo imaginar.

Sim, porque eu tive que me adequar durante uma época, na época que eu trabalhei em agência [de publicidade] aqui em São Paulo, sabe? Foi uma época que eu me afastei de muita coisa de mim mesmo. Eu tentei durante dois anos em São Paulo me encaixar num outro rolê pra ganhar dinheiro, sabe? E foi uó. Foi péssimo, e quando eu percebi eu falei “eu vou voltar a ser eu mesmo”, vou ser louca e aí comecei o meu guarda roupa com brechó.

 

 

[O Grande Close]: O que já me conduz ao que era minha próxima pergunta: eu percebo que não só suas montações, mas tudo o que você produz: as festas, os sets, as instalações, sempre flertam com o que é incomum, com o que é estranho, fora do padrão. Nisso há uma identificação pessoal ou é só uma estética artística?

Dudx5 Ah, claro que é pessoal. A Marina Abramovic fala que pessoas com boas infâncias geralmente não são boas artistas. E isso é latente. Você pode ler, estudar, e isso vai te agregar, mas sempre o seu processo de trabalho vai ter alguma referência da sua infância, sabe? É inevitável, são as suas primeiras visualizações e imagens do mundo que você tem nessa encarnação, nessa vida. E isso tudo vai fazer parte da minha vida pra sempre. Eu tenho muita ligação com a minha infância e é claro isso, sabe? Eu brinco muito com os símbolos infantis, com o mundo do palhaço, com figuras que são bem da infância. E assim, eu levo o lance do clubkid ao pé da letra, sabe? Eu gosto porque eu sempre fui infantilzão, eu sempre fui a bicha grande, meio bobona, meio infantilóide, sabe? Então eu peguei isso e fatorei à minha máxima potência. Se for pra ser criança então eu vou ser muito criança.

 

 

[O Grande Close]: E você enquanto uma pessoa gorda, ou pelo menos uma pessoa fora do padrão magro, como você percebe essa realidade… você acha que tem alguma diferença de tratamento tanto no meio drag, de montação e na noite em geral? Você percebe particularidades nisso, em ser um artista que foge dos padrões inclusive de corpo?

Dudx6 Olha, vou te falar um lance: quando eu estava no meio das drags eu me sentia muito mais incomodado em ser gordo do que eu me sinto hoje. Tem algumas drags que forçam a barra com umas piadas muito idiotas e gordofóbicas que elas acham que não incomodam, mas incomodam. E elas levam esse lance do shade [gongar, jogar deboche] pra um lugar ruim, sabe? E eu não gosto disso. E eu me envolvi em muitas brigas por causa disso, só que daí eu me descolei desse meio. Preguiça, não vou mais me envolver com esse tipo de gente. Agora eu estou num outro meio de pessoas, sabe? Eu me envolvi com a galera do Techno, da música eletrônica, tem um circuito muito foda em São Paulo de música eletrônica, e que levam consigo as artes visuais. Então eu sou residente numa das maiores festas desse circuito, a Odd, e eu sou artista visual deles. Você se acaba se envolvendo com outras pessoas porque é outro circuito. E de outras festas também. São pessoas muito mais legais de se conversar, e parece até surreal dizer que não existe gordofobia nesses meios, e não é que não exista, mas até agora as pessoas que se relacionaram comigo foram incríveis, entendeu? E é muito mais legal do que ficar nesse meio venenoso, de fofocas, de gente falando mal e diminuindo o outro. Eu vejo que algumas drags acabam fazendo bullying por insegurança, sabe? Diminuir o trabalho da outra pessoa pra se colocar como a melhor pessoa, melhor artista, enfim… isso pra mim é péssimo.

 

Dudx fotogradada por @andremmo

Dudx fotogradada por @andremmo

 

 

[O Grande Close]: Aproveitando que você tocou no assunto gordofobia, uma pergunta que eu faço em todas as entrevistas: qual a sua definição pessoal de gordofobia?

Dudx7 (Pausa) Difícil, né? Ah, vou falar uma frase: “Medo da massa”. A gordofobia pra mim é isso, sabe? E vou mais longe: as pessoas vivem numa sociedade onde a gente cria regras de convívio, bom senso e bons costumes. A gente não vive uma sociedade de prazer, a gente vive numa sociedade que nos pressiona a estar dentro de uma regra, de um padrão, e você não pode ter uma vida prazerosa, não pode ter uma vida de excessos. Só que a gente esquece que a gente está numa vida passageira e que a gente precisa curtir essa vida. O gordo no imaginário popular representa a ideia do excesso, essa ideia do “fiz pelo prazer”. Quando se vê o gordo se pensa: “ah, essa pessoa come demais, ultrapassou, está vivendo um excesso”. E qual o problema do excesso? Por que você tá incomodado com o excesso? A sociedade capitalista faz com que a gente tenha limites e aja conforme as regras da sociedade capitalista, pra se utilizar disso como viés pra venda. Se eu estou dizendo que não vou me comportar dessa maneira, vou fazer o que eu quiser independente do que o mundo está dizendo: “ah é saúde”, “ah, é estética”, quando eu tô dizendo não pra tudo isso, eu tô dizendo não pro capitalismo. É como o sexo: a gente tem um tabu se todo mundo transar com todo mundo. E qual é o problema? Mas a sociedade colocou a gente numa caixa e quer que a gente siga o padrão. E eles querem vender alguma coisa embutida nesse estilo de vida. Então gordofobia pra mim é isso, é o medo da liberdade, a pessoa não consegue aceitar que tem uma pessoa fazendo o que ela quer da vida dela sem medo de julgamentos. E a gente levantar todo dia podendo fazer uma bariátrica ou sei lá o quê, e mesmo assim a gente continua sendo gordo, é uma resistência diária.

 

 

[O Grande Close]: E eu tenho percebido ultimamente que as suas montações tem extrapolado o corpo e avançado pros espaços, virando instalações e tal. Como você acha que essas duas coisas se relacionam, como evoluir a performance pra tomar conta do espaço também, além da apresentação do corpo apenas?

Eu comecei a pensar o que era o corpo, por que o meu corpo não é aceito no espaço? Ou por que o corpo é assim e as pessoas querem o corpo assado? A gente fala, a gente escuta, a gente enxerga, sei lá, faz tantas coisas que vão muito além… O que é uma imagem? Uma projeção num prédio, você não pode tocar aquela imagem, você sente aquilo. Então tem muitas maneiras de deixar uma ideia num espaço, e as ideias vão vir e não vou filtrar mais. Não cabe nesse espaço, mas cabe nesse. E um dia uma galeria me chamou pra fazer uma ocupação, tipo uma performance-ocupação durante uma hora. E eu pensei: “mas uma hora… vou fazer uma instalação minha! Vou levar umas coisas aqui de casa que eu fiz e é isso”. E aí levei manequim, capacete, fiz toda uma roupa, um monte de boneca e brinquedo velho que eu compro no Brás por 2 reais, tirei tudo do meu quarto, juntei e é isso, vamos lá. Fui, fiz, deu certo, e aí a Tenda me chamou pra fazer uma maior e eu fiz. E as pessoas começaram a gostar das minhas ideias, elas não são caras, eu tenho conseguido ter um fluxo de trabalho legal pra investir tempo nisso e aí tá acontecendo tudo meio que naturalmente, sabe? E é uma necessidade, porque eu não sou performer de dublar, eu acho até engraçado, um dia quero fazer um drag bem feminina, chegar e performar I will always love you só pra pensarem “como assim, o que a Dudx tá fazendo?”. Mas… eu não me vejo fazendo isso, então eu preciso de outros caminhos e aí eu comecei a estudar outros formatos de Arte. E até pra estudar você começa a mudar, antigamente eu olhava muita dublagem, performance, palco, e agora meu campo de estudo está muito em estilos de escolas, estou vendo Bauhaus agora numa pesquisa que eu estou fazendo. Então tudo se ampliou, foi uma expansão performática.

 

Dudx em diferentes espaços e performances: como DJ na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, como pichador e num espaço/instalação.

Dudx em diferentes espaços e performances: como DJ na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, como pichador e num espaço/instalação.

 

 

[O Grande Close]: Então agora partindo pras comemorações, como surgiu a ideia do site A Coisa Toda?

Dudx8 O nome surgiu como uma ideia minha e do Cesar Munhoz. A gente era casado na época e ele tinha uma tatuagem no braço que dizia “Eu quero a coisa toda”, era um slogan dele já e tudo mais. E no começo a ideia era uma empresa de design e soluções, não tinha nada a ver. A gente foi matutando e guardando a ideia durante meses, já tinha uma fanpage criada com alguns likes… E eu sou assessor de imprensa e comecei a ver que não tinha muito espaço de pauta legal pra uma entrevista bapho, ou um conteúdo que fosse sobre cultura, que tivesse diversidade de pauta.  E aí eu dei a ideia e juntou eu, o Ernesto Diniz, a Carol Miag, a Bea Rodrigues e o Cesar nesse núcleo central e as pessoas vieram, se afastaram, mas a ideia inicial era minha e do Cesar então a gente comprou o domínio e fez toda a parte burocrática da coisa. E sempre foi uma ideia de ser um coletivo, e não um site fechado com alguém tocando. Está fazendo um ano no ar e muita coisa mudou, muita gente saiu, muita gente entrou, muita gente permaneceu, porque é pra ser esse processo mesmo, um processo solto e sem muita verticalidade. Agora eu estou tentando dar um novo norte pra algumas questões, mas é uma experiência muito única.

 

 

[O Grande Close]: E qual a avaliação que você faz depois de um ano no ar?

Dudx9 Eu achei que seria mais fácil, sempre uma ideia no projeto ela parece mais fácil de fazer, e quando você coloca a mão na massa você vê que é outro processo. Eu fico feliz demais porque ele se manteve vivo sem muitas deixas longas de atualizações durante um ano, e completar um ano já é uma coisa ótima pra um projeto pequeno. E eu acho que a gente pode muito mais com o site, essa é minha avaliação. Dá pra transformar o site em outros tipos de ambientes, outros tipos de coisas, experiências, sabe? Mas falta a gente conseguir viabilizar isso com mão de obra e difundir mais essa ideia, entende? Eu acho que precisa de mais pessoas que acreditem junto.

 

 

[O Grande Close]: E eu percebo que desde a fundação o site tem uma abordagem militante bem plural. As militâncias se inter-relacionam. Você acha que é um caminho a percorrer essa conversa entre diferentes ativismos, onde todo mundo se relaciona de alguma maneira?

Dudx10Hoje eu vi um vídeo da Laerte falando sobre minorias, que falava que quando se pisa no direito das minorias você está pisando no direito de todo mundo. O problema da militância hoje, principalmente a de esquerda (embora eu ache que definir as forças só como esquerda e direita é muito bruto), é que as militâncias que defendem direitos das minorias precisam dialogar mais pra haver uma força conjunta. É preciso se organizar pra educar as pessoas pra conviverem numa sociedade com menos ódio. É basicamente essa a nossa missão, certo? Então eu acho que a gente precisa dialogar mais, mas eu acho que isso não vai acontecer por pelo menos uns cinco ou dez anos, porque a gente está num momento da militância em que ainda estamos entendendo quais são os nossos tópicos. Por exemplo, a militância negra está muito mais desenvolvida porque tem questões muito mais latentes. E a gente precisa olhar pra militância negra e se unir com ela, e com a militância feminista principalmente, pra conseguir entender as pautas de todo mundo e não ser uma coisa que agrida o outro. E acho que é isso que A Coisa Toda propõe, essa ponte de conversa pra o outro que não tem noção do que o outro passa. Por exemplo, uma mulher feminista [magra] pode não tem noção de questões de gordofobia como a gente [que é gordo] tem, porque não vivencia. E aí ela não vai acessar um blog sobre gordofobia porque não é uma coisa que a interessa. Mas se ela vir um título sobre gordofobia num site que ela acessa sobre militância no geral, ela vai clicar nessa matéria e vai entender um pouco do que o outro tá passando. É isso que A Coisa Toda propõe, o olhar pro outro também, pra gente conseguir dialogar junto porque só através do diálogo que a gente vai conseguir mudar as coisas.

 

 

[O Grande Close]: E agora falando especificamente de militância gorda, que é o assunto da coluna O Grande Close, você é o primeiro homem que eu entrevisto, e olhando pra militância gorda no geral, principalmente no Brasil, a gente ainda tem uma grande carência de homens que militem publicamente sobre gordofobia. Se a gente for comparar com o ativismo feminino, a gente vê que elas estão anos-luz à frente na questão de pautas e de demandas de direitos. Enquanto homem, você tem alguma opinião do porquê as mina estarem tão a frente nesse sentido do que a gente, homens gordos?

Porque a gente sofre menos do que elas. Elas sofrem duplamente, por serem mulheres e por serem gordas. O homem gordo ainda tem aquela coisa do “tiozão barrigudo que faz uma zueira no churrasco, mas ainda é o manda chuva da casa e paga as contas”. Então a gente está falando sobre um estereótipo masculino que prevalece. As mulheres feministas já estão mais organizadas porque lidam com questões femininas desde cedo e começam a se entender como gordas também. A gente teve esse “privilégio” de nascer homem, e digamos que passamos por menos coisas, embora nós bichas vivenciamos outra realidade. A gente é obrigado a estar em espaços machistas onde nossa teta é piada, nosso jeito é piada, tudo é piada no vestiário, na sala de aula, a gente é a bicha gorda peituda afeminada com traços femininos arredondados, e essa coisa toda. E aí eu acho que bicha não pode se encaixar como homem nesse caso, porque a gente não passa pelas mesmas coisas que os outros homens [héteros cis]. Eu me considero uma pessoa não binária, tem horas que eu sou feminina, tem horas que eu não me identifico com porra nenhuma, nem com homem nem com mulher, tem horas que me acho super boyzinho, e vou indo. Então eu acho que eu estou na militância por ser bicha, porque primeiro eu me entendi como bicha e depois eu me entendi como gordo. E por isso acabo não podendo me enquadrar nesse cenário de “nós homens”. Como as regras de binarismo de gênero são fortes, homens têm privilégios e é por isso que as meninas estão tão à frente na discussão. As bichas ainda tem que desenvolver um pouco mais.

 

 

[O Grande Close]: Agora falando especificamente de você: desde que eu te conheço, você nunca foi uma pessoa que fugiu de polêmicas, de embates, de expor suas opiniões. Você acha que ser militante está sempre ligado a ter sempre essa postura radical e combativa? Isso é um desgaste necessário ou é um revés da militância? Como você tem lidado com isso?

Dudx11Hoje em dia eu estou bem mais calmo. Eu acho que essas tretas e tudo mais que eu passei antes estavam muito ligados ao meu aprendizado em relação à militância. Eu estava num momento muito enérgico da minha militância e precisava ter uma relação mais apaixonada, e isso me lembra muito um amor visceral adolescente. Tudo é muito latente, e eu estava nesse momento. E aí eu tive um episódio de sobrecarga de stress de n coisas que estavam acontecendo ao meu redor, e foi quando eu tentei suicídio há uns dois meses. Depois desse episódio eu percebi que a gente precisa se amar mais. E eu fiquei uma semana analisando a situação, e chorando todos os dias, tentando entender o que estava acontecendo… E teve um momento que caiu a minha ficha que eu não ia conseguir as coisas dessa maneira forçada, raivosa, confrontosa. Eu tinha que conseguir as coisas de forma mais persuasiva, mais simpática, mais amorosa… E eu tive esse insight e consegui dissolver essa energia toda que estava concentrada na minha militância de uma maneira raivosa. E fui tentar outros caminhos, outras maneiras, e está me fazendo muito melhor. E me coloquei em primeiro lugar também, sabe? Porque a gente na militância começa a problematizar as coisas e entrar em questões que envolvem outras pessoas. E quando você para e se importa com você mesmo, se coloca em primeiro lugar, porque eu preciso estar bem pra poder ajudar outras pessoas, você se acalma.

 

 

[O Grande Close]: E essa é outra questão que eu sempre vou fazer em todas as entrevistas:

Eu queria que você desse um recado pras pessoas que estão lendo essa entrevista, são gordas e independente da idade estão repensando seu posicionamento no mundo.

Primeira coisa que me vem à mente: busquem conhecimento! E a gente tem que se apegar nessas ideias de felicidade mesmo, de buscar coisas boas pra gente em todos os aspectos. Curtir a vida, se amar, se apegar a momentos de felicidade. E vou deixar uma frase que eu postei no Facebook essa semana: não se apegue ao momento. Acho que é isso.

 

As mil faces de Dudx

As mil faces de Dudx

 

 

 

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.