Senso comum: um pilar da gordofobia

cabecalho

E chegamos enfim à parte 3 (e última) da série “Os pilares da Gordofobia”, aqui na coluna O Grande Close no A Coisa Toda. Já falamos sobre o papel da Mídia e do discurso biomédico no estabelecimento da sociedade gordofóbica em que vivemos. Mas falta um elemento dessa equação: o senso comum. Um dos sentidos de senso comum pode ser descrito como a adaptação dos seres humanos às circunstâncias da vida, no sentido de uma intuição primária que todos temos que nos mantém vivos (por exemplo, identificar um alimento estragado ou o instinto de fuga/preservação frente a uma situação de perigo). Mas não é desse instinto que trataremos nesse texto. Senso comum pode ser também o equivalente a uma “opinião comum”, ou seja, um conjunto de saberes que são sedimentados socialmente, e nesse conhecimento entram em jogo diversas esferas de formação: religião, política, meio familiar, contexto social, momento histórico…

Discutimos no texto anterior sobre o pensamento científico ser produto não só de um processo de pesquisa, mas também uma construção social, e que varia não somente quando o conhecimento científico avança, mas quando os valores sociais se alteram. Só pra dar um exemplo bem prático, a escravidão dos negros e a terapia de “conversão sexual” pra pessoas gays já foram embasadas com “pesquisas e dados científicos”, mas na verdade eram mais reflexo da época social em que foram propostos do que o fruto de uma pesquisa científica legítima. Por isso é importante, ao pensar as estruturas da gordofobia, levar em conta não somente a visão científica – que atribui um CID a pessoas obesas – mas também o senso comum do tempo em que vivemos, ou seja, os conhecimentos e valores que a sociedade tem como um todo a respeito de pessoas gordas. É por isso que todas as ilustrações desse texto são obras do artista Keith Haring; são obras que, de uma forma ou de outra, retratam a interação entre as pessoas e tem um forte apelo social. Vão servir lindamente pra ilustrarmos nossa discussão sobre como a sociedade produz conhecimentos diversos por si só, por via das relações humanas.

obra 2

Voltando à História, as ciências clássicas sofreram uma revolução nos séculos XVII e XVIII, e começou de maneira mais contundente o questionamento de ideias geradas por preconceitos, tradições místicas e imaginação. Viu-se que o senso comum precisava ser apurado, submetido à dúvida e à crítica, pra que a racionalidade seja ampliada. Nos séculos XIX e XX a noção filosófica de verdade absoluta foi cada vez mais posta em xeque, e os conhecimentos que nasciam do senso comum eram apropriados pelo conhecimento científico de forma a romperem com essa origem. A produção e disseminação de conhecimentos na área da saúde também passou por esse processo, e atualmente se busca, ou pelo menos se deveria buscar, uma concepção ampla do processo saúde-doença, incorporando saberes populares, técnicos e sociais, já que as realidades humanas são complexas. Para saber mais sobre as semelhanças e diferenças do senso comum e saber científico, recomendo esse e esse artigo, e sobre a produção de conhecimento na área da saúde, esse artigo pode ser útil.

obra 3

Mas Marco, o que tudo isso tem a ver com gordofobia? Bastante coisa. Pessoas gordas não são oprimidas somente quando vão ao médico e recebem um diagnóstico de doença em virtude do seu biotipo. As palavras e ações de todas as pessoas numa sociedade são carregadas de valor social, tenham elas respaldo “científico” ou não. E o valor social dessas palavras e atitudes também constrói conhecimentos, e pode levar a uma existência mais acolhedora ou mais excludente para pessoas gordas. Em outras palavras, o sentido de obesidade está também no cotidiano. Quando sua mãe te manda comer menos porque você é/está uma criança gorda (ou ela acha que você está gorda), quando um colega de escola caçoa de você por ser “o gordo da turma”, quando as pessoas riem no ônibus quando uma pessoa gorda entala na catraca, quando você não cabe em nenhuma cadeira de um determinado recinto, quando supõem que você é sedentário somente de olhar e perceber que você é uma pessoa gorda, quando um crush te encontra pela primeira vez e se mostra decepcionado por você ser gordo demais ou de menos, quando julgam que você come demais ou tem uma dieta pobre em nutrientes só pelo fato de você ser uma pessoa gorda… Eu poderia escrever um livro só de situações como essas, mas o que elas tem em comum é: todas são fruto de um conhecimento do senso comum a respeito de pessoas gordas.

obra 4

Eu listei alguns exemplos, mas em linhas gerais, como o senso comum afeta a vida de pessoas gordas? Atualmente vivemos na era fitness. Musas das dietas e exercícios montam e exibem suas vidas em redes sociais como o Instagram e faturam alto com publicidade, e chegam a extremos somente para manterem essa imagem. Cada um sabe o que faz de si, e todo mundo tem liberdade pra seguir e tomar como “modelo de vida” quem bem entender, mas o fato é que a cultura fitness é sintomática de algo muito maior que o whey, leggings e rotinas de exercício na academia mais hypada: ela é uma das bases da sociedade de consumo em que vivemos. Beleza física (padronizada no corpo malhado) e consumo são apresentados como um fim em si mesmos. Há muitas indústrias ganhando muito dinheiro com isso, com a venda de não apenas produtos, mas de um estilo de vida “saudável” (e notem como mídia, ciência médica e senso comum se unem nessa empreitada, cada um a sua maneira). Sendo assim, o corpo gordo, que desvia desse padrão de consumo, pode servir a essa engrenagem capitalista ao comprar suplementos alimentares, drogas de emagrecimento, os alimentos “certos”, o personal/academia “certos”… A sociedade de consumo lucra com o que você consome, e você “lucra” com a aprovação social conseguida através da sua adequação ao sistema.

 

M28100-1 003

Além da perspectiva estética e do consumo, outro ponto a ser ressaltado é: o senso comum fortalece a culpabilização e responsabilização individual da pessoa gorda. Você não é apenas gordo porque seu corpo é gordo, você passa a ser gordo numa experiência psicológica:

“Veja como é preguiçosa e sedentária essa gorda!”

“Veja esse gordo comendo esse hambúrguer no shopping, por isso é tão gordo, come mal!” “

“É gordo porque não tem foco, não tem objetivos na vida!”

“Não vai conseguir emprego, não vai conseguir namorar.”

Essas declarações não tem absolutamente nenhum fundo científico, mas são ditas todos os dias a pessoas gordas por diferentes tipos de pessoas. E isso é senso comum (ajudado mais uma vez pela mídia que estereotipa pessoas gordas e pelo discurso biomédico que nos classifica como uma epidemia). A exclusão e o preconceito não geram só desconforto psíquico pra quem os sofre, gera também sentimentos de culpa, já que seu corpo não é somente “errado”, ele é “errado porque você não se cuida”. Senso comum. Uma cena famosa da série My Mad Fat Diary (disponível na Netflix), traz a protagonista Rae numa consulta com seu terapeuta. O relato da personagem é um bom exemplo do efeito pessoal que uma vida sob a influência da mídia, da medicina e do senso comum podem fazer com uma pessoa, que acaba por internalizar tudo de ruim que acham dela e tomar isso como verdade:

 

 

E por mais que possamos nos empoderar individualmente, fazermos terapia e nos engajarmos na militância, quais as consequências macro dessa exclusão? Quer dizer, como somos afetados coletivamente? Nisso podemos discutir o território simbólico que pessoas gordas são colocadas socialmente. Há uma trama de poderes e saberes que impedem a acessibilidade de pessoas gordas a espaços e experiências sociais “comuns”. As ideias de que:

“Tudo bem fazermos assentos estreitos e com materiais frágeis que não aguentam peso, pessoas gordas que emagreçam se quiserem utilizar esse mobiliário”

“Vamos fazer as catracas pequenas, os corredores de ônibus estreitos, as portas e corredores com medidas menores; se a pessoa não puder passar com seu corpo por aqui, que fique em casa e tenha seu acesso negado a esse espaço” (e aí a pessoa não sai de casa e é culpabilizada novamente por ser sedentária e não se esforçar).

“Roupas bonitas e com informação de moda em tamanhos grandes? Pra quê? Se essas pessoas não se importam que seu corpo seja assim, também não devem ser vaidosas, não precisam de roupa bonita. E pode cobrar mais caro pela roupa feia, ninguém mandou ser gorda, que pague mais!”

“Vamos dar dicas de dieta sem sermos solicitados, vamos abordar essas pessoas em qualquer lugar pra vender Herbalife, eles são gordos e devem mesmo estar desesperados pra emagrecer!”

SENSO COMUM como definidor de territórios simbólicos de exclusão.

 

obra 6

 

E quais as conclusões a serem tiradas depois dessa trilogia de textos?

O que fazer?

Como minar os pilares da gordofobia?

As respostas não são simples, mas o ponto de partida com certeza é: buscando conhecimento. E não é qualquer conhecimento. É uma nova revolução dos saberes, pois questiona tanto o senso comum como o conhecimento científico descolado da realidade social.  E eu acredito que isso não virá de outro lugar senão a militância. A união das minorias que nunca foram ouvidas no processo de produção de conhecimento. E é por isso que essa Coluna existe, se propondo inclusive a fazer textos que são “incômodos” de maneiras diversas a muitas pessoas (correndo o risco de serem impopulares, inclusive). E é por isso que tem gente gorda fazendo pesquisa acadêmica sob novos olhares, e gente gorda lutando pra tomar lugar na mídia, produzindo novas narrativas visuais e novos conteúdos. Gente gorda produzindo produtos voltados pras necessidades específicas de gente gorda, com funcionalidade e apelo visual. Eventos de reunião de gente gorda, onde o close esteja aliado com discussão e formação de bases políticas de luta.

Que levemos em conta que “pessoas gordas” não são uma classe homogênea, e existe gente que além de gordofobia sofre exclusão social por conta da classe social, racismo, lgbtfobia, machismo, às vezes tudo junto, e cada opressão deve ser levada em conta e não ignorada/silenciada. Não dá só pra ficar confortavelmente celebrando como nossos corpos gordos são lindos (são mesmo). Se nós não buscarmos as raízes dos movimentos de exclusão, seremos para sempre marginalizados e silenciados.

Se as bases da gordofobia são a mídia, o discurso biomédico e o senso comum, as bases da nossa luta precisam ser o close (no sentido de aparecer mesmo, ocupar novos espaços de visibilidade), a pesquisa acadêmica e a consciência política e de luta.

obra 1

Comentários

Comentários

Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.