Discurso biomédico: um pilar da gordofobia

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E essa é a parte 2 da trilogia “Os pilares da gordofobia”, aqui na Coluna O Grande Close no A Coisa Toda. Da última vez falamos sobre o papel da Mídia na construção do imaginário da pessoa gorda, e hoje entramos talvez na parte mais polêmica dessa série: vamos falar sobre o discurso biomédico. Falar sobre a saúde de pessoas gordas é sempre um terreno árido, porque há um saber sedimentado sobre a obesidade ser doença (sim, nós temos CID e tudo mais). O discurso biomédico é quem legitima o tratamento da pessoa gorda como doente, e classifica a obesidade como uma epidemia mundial. Juntamente com a mídia e o senso comum da sociedade de consumo, o discurso biomédico é o grande responsável pela gordofobia.

Existem muita gente boa falando sobre gordura e saúde, e até mesmo pessoas da área da saúde que pesquisam e desmistificam tabus tais como “gordura é sinal de doença, agora ou no futuro”. No final do texto postarei alguns links pra quem quiser saber mais sobre o assunto, inclusive. O objetivo desse texto, entretanto, não é apontar novas pesquisas da área médica que comprovam que ser gordo faz bem ou mal; nosso objetivo é entender porquê a gente dá tanta importância pra esse discurso. Quer dizer, por que o discurso biomédico é a primeira coisa levada em conta quando se discute a existência de pessoas gordas? Como se legitimou essa relação direta entre saúde e gordura?

Ser gordo é basicamente ter que andar com seus exames nas mãos o tempo todo, como se precisássemos provar que não estamos doentes. É fazer pelo menos dois check ups ao ano, e estejam os resultados dos exames bons ou ruins, geralmente vamos ouvir do profissional da Saúde: “hum, precisa perder peso pra melhorar isso, isso e aquilo”. Se você, pessoa gorda, vai ao médico pra tratar de algum sintoma que aparentemente não tem nada a ver com a forma do seu corpo, esse médico vai dar um jeito de te mandar emagrecer (às vezes até mesmo antes de ouvir seu problema ou te examinar, isso quando te examinam). E a mídia, como já dissemos anteriormente, sempre procura fazer matérias ~jornalísticas~ sobre a “epidemia da obesidade” no melhor estilo “salvem as nossas crianças desse destino horrível que é ser gorda/o”.

Tradução: "Diga muu.. [mugido de vaca]" Uma charge horrível e de humor questionável mas que ilustra bem muitos dos atendimentos médicos que pessoas gordas recebem.

Tradução: “Diga muu.. [mugido de vaca]”
Uma charge horrível e de humor questionável mas que ilustra bem muitos dos atendimentos médicos que pessoas gordas recebem.

O que geralmente calcula o quanto gordos somos é o tal cálculo do IMC (seu peso dividido pela sua altura [em metros] ao quadrado), e o que vale é o resultado, independente de qual forma tem seu corpo ou como o seu corpo funciona (a validade do IMC como parâmetro médico tem sido questionada, inclusive) . O “combate” à obesidade geralmente é receitado através de dietas balanceadas e prática regular de exercícios (supondo que toda pessoa gorda passa o dia no sofá comendo uma tigela de bacon), e medidas mais drásticas como intervenções medicamentosas e cirurgias (como a cirurgia bariátrica) são cada vez mais comuns.

 

Pesquisa http://www.nytimes.com/interactive/projects/cp/summer-of-science-2015/latest/bmi escaneou 6 pessoas com 1,75 de altura e 78 kg. Todas têm o mesmo IMC, mas seus corpos são completamente diferentes.

Pesquisa escaneou 6 pessoas com 1,75 de altura e 78 kg. Todas têm o mesmo IMC, mas seus corpos são completamente diferentes.

 

Michel Foucault, filósofo e historiador francês, pode nos ajudar na reflexão sobre o poder da medicina no reforço de uma sociedade gordofóbica. Já falamos um pouco do conceito de biopoder de Foucault nesse texto da coluna, mas hoje vamos focar somente na área médica e como ela exerce seu poder na sociedade. Foucault, em sua obra “Microfísica do Poder”, analisou como o surgimento do hospital como “lugar de cura” na Europa aconteceu como parte de um plano de ação complexo do sistema capitalista. Durante muitos séculos o domínio ideológico foi da Igreja Católica; os hospitais eram lugares que o doente iria somente pra morrer, sendo cuidado por freiras e membros da Igreja. O cristianismo detinha o poder moral, tanto que a gordura não era considerada uma doença; a glutonaria poderia até ser pecado (como qualquer outro excesso), mas ser gordo não era problema algum (pelo contrário, era até sinal de saúde e riqueza). A palavra dos clérigos tinha um valor social simbólico muito superior ao da área médica.

 

Gordura sob o olhar da Igreja era apenas uma consequência da gula, considerada pecado capital juntamente com vaidade, avareza, ira, inveja, luxúria e preguiça. (eu só queria uma justificativa pra usar a ilustração desse ensaio maravilhoso sobre os sete pecados capitais feito em America's Next Top Model? Talvez. Sdds ANTM)

Gordura sob o olhar da Igreja era apenas uma consequência da gula, considerada pecado capital juntamente com vaidade, avareza, ira, inveja, luxúria e preguiça. (Eu só queria uma justificativa pra usar como ilustração esse ensaio maravilhoso sobre os sete pecados capitais feito em America’s Next Top Model? Talvez. Sdds ANTM <3 )

 

Mas a partir do século XVIII, se estabelece uma tecnologia do corpo social. Já que o corpo é uma realidade bio-política, busca-se formas de se obter o controle desse corpo, justamente pra que ele seja mais eficaz e útil para o trabalho. A partir do momento em que começou a organização das cidades, começou a preocupação com a capacidade de mobilização das populações (principalmente dos proletários, que começaram a lutar por melhores condições de vida). Pois então começou a ser desenvolvida uma cultura do medo: medo da violência, medos das epidemias, das pestes. As famílias foram organizadas cada uma na sua casa, e as casas dispostas em bairros vigiados e medicalizados através de medidas de desinfecção. Se a filosofia cristã sempre foi a de exilar o doente do convívio social (por exemplo, mandar os leprosos pra fora da cidade), agora buscava-se, através da da inspeção militar e médica, a purificação dos espaços para evitar epidemias.

Começou uma preocupação maior com a forma que água e ar circulavam nas cidades, pois acreditava-se que eram as maiores formas de transmissão de doenças. Logo a medicina começou também a ser uma medicina das condições da vida e dos meios de existência. O medo da cólera fez com que começassem a pensar em espaços para ricos e para pobres na cidade. Começa também um controle médico do pobre; esse controle médico servia tanto pra satisfazer a necessidade de saúde das pessoas (no sentido de torná-las mais aptas ao trabalho), como pra proteger as classes mais abastadas das “doenças dos pobres”. O Brasil também viveu a era eugênica na medicina (e falamos um pouco disso nesse texto). O hospital passa então a ser a “máquina de curar”; era uma forma de gerir os homens, controlá-los, aumentar sua utilidade para o trabalho. Como ressalta Foucault, as grandes “invenções” do século XVIII foram a vigilância/ação do exército, da escola e do hospital.

 

Propaganda de clínica de emagrecimento que traz os seguintes dizeres: "Esqueça o gordo X magro e se lembre de saudável X doente"

Propaganda de clínica de emagrecimento que traz os seguintes dizeres: “Esqueça o gordo versus magro e se lembre de saudável versus doente”.

 

E é assim que funciona a disciplina: controlar as ações e o desenvolvimento dos homens. O poder disciplinar cria modelos de pessoas “normais”, e por normalidade entende-se mais úteis para o trabalho. O desejo por populações “saudáveis”, perfeitas, normais, tem como pano de fundo um modelo mercantil de produção. E o que isso tem a ver com gordofobia? Tudo. É essencial entender que antes de tudo A CIÊNCIA É UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL. O que isso quer dizer? A ciência não estuda necessariamente um objeto em todas as suas facetas e riqueza, ela trabalha com objetos construídos socialmente, com base numa estrutura de poder. As pesquisas sobre obesidade aumentaram exponencialmente nos últimos anos, e 90% dessa produção de conhecimento ainda é realizada pela área da saúde. Na maioria dos artigos, a obesidade é tratada atrelada ao conceito de doença, e a grande maioria relaciona obesidade com falta de atividade física e dieta inadequada.

 

Gordura e sedentarismo se relacionam? E que tal essas duas capas da edição Body Issue da ESPN? Em 2014, o jogador de baseball Prince Fielder, e em 2016, Vince Wilfork, jogador de futebol americano.

Gordura e sedentarismo se relacionam? E que tal essas duas capas da edição Body Issue da ESPN? Em 2014, o jogador de baseball Prince Fielder, e em 2016, Vince Wilfork, jogador de futebol americano.

 

O que é o “normal”? Um cálculo de IMC que resulte de 18 a 25? Não! A norma apenas desvaloriza inúmeras formas de existência como forma de corrigir essa mesma existência. E é por isso que um médico tem o poder de barrar uma professora concursada de lecionar, só porque a considera “obesa” segundo cálculos de IMC, sem nenhuma consideração aprofundada sobre a realidade de seu corpo e saúde. Isso é biopoder médico; o corpo gordo se desvia da normalidade estética (corpo magro e musculoso) e carrega o estigma de corpo doente, já que é fato concreto para a medicina que obesidade é uma influência negativa na qualidade de vida. Quando uma pessoa é reduzida a um número de IMC, se perde toda a sua subjetividade, ou seja, como se dá sua relação com seu corpo e sua relação com o mundo. O discurso biomédico reduz os sujeitos a números e os fragmenta, determinando um sofrimento presente ou futuro que independe da forma como cada corpo funciona.

Podemos ficar debatendo eternamente sobre “novas pesquisas que indicam que ser gordo é bom ou ruim”, mas se não questionarmos a origem de dependermos tanto de verdades médicas científicas não vamos avançar no debate. Se a pesquisa e produção de conhecimento científico continuar a obedecer uma lógica determinista, segmentada e mercantilista, sempre haverá gordofobia no discurso biomédico, e esse conhecimento sempre será usado para estigmatizar pessoas gordas. É preciso também que diferentes áreas de conhecimento passem a produzir conhecimento sobre a obesidade, já que é uma questão complexa que durante décadas têm sido analisada somente pelo viés da saúde.

E em relação à área médica, bem, a ciência é feita de pessoas, então é necessário que se tenha uma nova geração de profissionais com uma formação mais plural, que entendam que o corpo é bio-político, não somente um número ou um fragmento. E que esses profissionais não só produzam conhecimento, mas também ofereçam um atendimento humanizado à pessoas gordas (que também ficam doentes por motivos que nada se relacionam com a forma de seus corpos). Enquanto isso não acontece, que ao menos as pessoas gordas tenham a consciência de que saúde (e doença) é possível em qualquer tipo de corpo, pra que não fiquem tão vulneráveis quando receberem um discurso gordofóbico de um profissional da saúde (o que é uma questão séria, porque muitas pessoas gordas nem vão ao médico quando apresentam algum sintoma de algo errado com medo do que vão ouvir do profissional).

Se quiser ler mais sobre o assunto, ficam os links de Microfísica do Poder, de Foucault, essa dissertação já indicada no texto anterior da série, e textos de pessoas que já falaram sobre a relação entre gordura e saúde, como o blog Gordativismo, e a maravilhosa Rachel Patrício nesse texto e nessas duas entrevistas juntamente com outras minas maravilhosas da militância.

E aguarde porque nos encontramos novamente nesse Grande Close para a parte 3 dessa série de textos, onde vamos debater o senso comum da sociedade de consumo.

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.