Lu Port-aux: dicas e trajetória de uma burlesca brasileira

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Enquanto muita gente altera a própria identidade para ingressar a carreira artística, Lu Port-aux já nasceu com nome de artista. Aos 33 anos, ela é formada em Artes Cênicas e Jornalismo e trabalha como captadora de recursos, preparadora de atores e produtora cultural.

Aos 33 anos, multitalentosa que é, encarna ainda outras duas personas de destaque no cenário das artes alternativas: é pin up e performer burlesca.

O burlesco, inclusive, faz parte de sua vida muito antes de se sua imersão ao universo artístico. Desde pequena nutria paixão por vedetes e teatro de revista, sem sequer imaginar que um dia brilharia de tal maneira.

Foi na adolescência, quando estudava teatro amador, que passou a ter proximidade com o mundo grotesco; à época, um professor a chamava de Alla Nazimova, diva russa do cinema mudo.

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Curiosa, Lu foi pesquisar sobre atriz que virara seu apelido e assim iniciou uma busca mais expansiva sobre a história do burlesco e teatro vaudeville.

Passado um tempo, ganhou uma bolsa de estudos e rumou para a França, onde teve contato com a comédia dell’arte. Foram sete anos viajando entre outros países da Europa – com vindas esporádicas ao Brasil – estudando e performando.

Após aulas de canto, dança, interpretação e artes em geral, além de muitas buscas de referência e inspiração – como as clássicas Mabel Saintley e Sally Rand e a neoburlesca Dita von Teese – Lu foi definindo sua própria essência e identidade no burlesco.

Uma vez que na Europa e nos Estados Unidos essas performances têm maior aceitação de público, Lu retornou de vez a sua terra natal com a cabeça cheia de ideias e sonhos a serem por aqui concretizados.

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Assim que chegou, há quatro anos, montou um grupo teatral que apostava na vertente de freak show, então percebeu que, infelizmente, a arte grotesca ainda não era tão difundida em solo brasileiro.

Uma das principais confusões é o modo como os brasileiros enxergam o burlesco; associando essencialmente à performance sensual – muita gente por aqui nem sabe que se trata de uma apresentação teatral abrangente repleta de paródias e sátiras.

Sim, o strip-tease é uma técnica burlesca, que mescla dança, burla e teatro, mas vai muito além. E ainda que a dançarina burlesca fique semi-nua ou completamente sem roupa, seu trabalho é bem diferente de uma striper pelo modo como a nudez é apresentada ao público.

E se o teatro tradicional já é algo difícil de fazer no Brasil, imagine só o burlesco? É preciso muita determinação para bater de porta em porta apresentando seu trabalho, expondo projetos e negociando com empresários quanto à vantagem de servir de vitrine a uma arte que, mesmo secular, não é tão popular por aqui.

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Com quase uma década de profissão, Lu obtém reconhecimento por seu trabalho como dançarina. Hoje já não se inspira mais em ninguém e segue uma linha própria de se apresentar; mantendo os elementos burlescos e, sempre que possível, introduzindo referências brasileiras em suas performances.

Seus shows têm entre 8 e 10 minutos – tempo no qual usa e abusa do improviso e interação com o público enquanto dança para homens e mulheres. Uma vez que é extremamente profissional, Lu diz não ser desrespeitada enquanto trabalha.

Há, sim, quem inicialmente possa confundir seu strip-tease com uma lap dance, mas quem assiste aos seus shows é só elogio – tanto dos homens, quanto das mulheres.

A receptividade feminina, inclusive, lhe é gratificante. Não raro, após se apresentar, ouve das mulheres o quanto sua dança é inspiradora. E comentários positivos assim a inspiram a se aprimorar cada vez mais.

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Lu, inclusive, paralelamente as suas atividades, também ministra cursos e workshops de sedução e técnicas de strip-tease, voltados ao público feminino.

Ela acredita que o amplo conhecimento adquirido graças ao estudo de teatro é de extrema valia aos shows que realiza, pois lhe permite total autonomia para a criação e execução dos espetáculos.

Geralmente, o primeiro passo do processo criativo parte da escolha da música – quanto mais inovadora, melhor. E é a partir do som, então, que ela define o figurino e proposta da apresentação.

Uma vez que marcas voltadas à confecção de figurino burlesco não são tão populares no Brasil e comprar roupas importadas pesa no orçamento, Lu é quem faz seus próprios acessórios, recorre às costureiras de confiança para a execução de peças específicas e garimpa muito em brechós também.

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Atualmente, integrou a programação fixa do Dominatrix Augusta (bar voltado ao universo BDSM), apresenta-se em baladas e casas de show por todo o país, participa de festas empresariais fechadas e em breve realizará nova turnê pela Europa.

Abaixo, Lu compartilha algumas dicas e sugestões pessoais a quem pretende ingressar no ramo de dançarinx burlescx. Confira:

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1. O mercado é um tanto quanto restrito por aqui, então a arte precisa ser mais divulgada para que possamos ter espaço para nos apresentarmos. Por isso os festivais e as mostras são importantes, tanto para o conhecimento do público, de investidores e de empresários, como networking dos artistas.

2. Trata-se de uma arte que precisa ser propagada sem desvalorização. Um artista burlesco tem de ter conteúdo, cultura e levar a profissão a sério.

3. Antigamente, sem a difusão da internet, era mais fácil às pessoas apresentarem uma proposta ‘meia-boca’, porque não se tinha aonde buscar por mais referências e informação. Hoje temos uma infinidade de conteúdo à disposição, o público é bem exigente. Por isso é fundamental pesquisar sempre e se aprimorar constantemente.

4. É raro fazer fortuna com o burlesco. Em geral, não se trata de uma profissão com grande remuneração. Isso sem contar que as produções para os shows custam caro. É necessário amor e força de vontade para batalhar e seguir carreira.

5. A vida sentimental pode sofrer influências por conta da profissional. Nem todo mundo é compreensivo, existem preconceitos e tabus quanto à dança burlesca. E ao se expor seu trabalho, especialmente na internet, é comum receber comentários de pessoas desavisadas que confundem a história…

6. Segurança emocional e física são necessárias para uma boa performance. Tem de se entender e aceitar muito bem. Tanto para fazer um show quanto para ir atrás de lugares e possibilidades de se apresentar.

7. A internet facilita – e muito – nas buscas por referências, mas é preciso estudar, de verdade, além disso. Beba de várias fontes; cinema, exposição, bibliotecas, acervos e estude o quanto puder; dança, história da moda, interpretação…

>>> Para saber mais sobre o trabalho de Lu Port-aux, acesse sua fanpage e/ou siga seu IG: @lu.portaux <<<

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Adele Grandis: Taurina com ascendente em touro - isso explica muita coisa!