Bianca Del Rio e Rede Globo: Closes e reações.

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Dois episódios agitaram a internet  nesta semana (pelo menos, nos meus contatos):  Bianca Del Rio, em seu show “Rolodex of Hate”, faz a seguinte piada: “Se um homem negro te convida para a casa dele para tomar um capuchino e isso não é o codinome para o seu pau ressecado, você mereceu ser estuprada” (eu uma tradução livre). Close errado. Em outro momento, a Rede Globo exibe uma cena de sexo entre dois personagens masculinos em sua novela “Liberdade, Liberdade”, na cara da sociedade. Close certo. Entre acusações, diversas reações, muita gente dando close em cima dos closes e discursos sendo produzidos, senti um ímpeto de comentar os dois casos. Vamos lá!

Antes de mais nada, eu vou deixar registrado o que acho da Bianca e da Globo: acho as duas meio pombo. Entretanto, é inegável que muita gente ama, ou odeia veementemente uma, a outra, ou as duas. E esses sentimentos prévios acabaram afetando as críticas e comentários da galera na Rede, o que é até legal, porque os acontecimentos não podem ser vistos de forma isolada da história tanto da emissora, quanto da Drag Queen. Então entre a onda de defesas e ataques, quais estão corretas? Bom, vamos contextualizar:

Primeiro, Bianca. Bianca tem inúmeras afirmações problemáticas. Como uma “comediante de insultos”, conforme ela se declara, é fácil ouvir e ler comentários bem ofensivos vindos da sua boca. Só que tem alguns poréns aqui: em muitos deles, ela não está se apresentando. As ofensas que Bianca distribui no Twitter, por exemplo, não estão protegidas por esse “acordo mútuo” que existe nos seus shows, porque são disparados contra pessoas reais, que não pagaram para tomar patada só porque fizeram críticas, ou discordam do posicionamento dela.

Além disso, convenhamos que Bianca é inteligente. E sagaz. Ela poderia fazer piadas que ofendessem aqueles em posição de opressores, não fazer coro a tantos discursos de ódio que circulam por aí, principalmente se pensarmos o quanto a comunidade LGBT é historicamente vítima de mecanismos humilhantes muito próximos aos que ela usa em seus comentários. Não só poderia, como faz. Quando está na TV, Bianca muda de alvo e discursos e parece apostar numa comédia mais vendável. A minha conclusão, que pode estar equivocada, é que Bianca opta por esse tipo de comédia porque quer, porque impacta, ou porque se acha melhor comediante dessa forma. Não deixa de ser, portanto, uma escolha política.

E daí que os fãs dela, que não são poucos, tentam argumentar em sua defesa. Dizem que é comum nos EUA esse tipo de humor. Que comédia não tem limite. Ainda que ela “é assim mesmo”. Bom, como se norte-americano fosse parâmetro de close correto, não é não? E não podemos retirar o limite do humor quanto ele reforça tantos discursos reais que não são nada engraçados fora daquele contexto. Beira e inconsequência dizer que tudo vale a pena se é engraçado, quando o riso de uns provoca tantas reações sociais pra cima de outros. Aceitar que uma pessoa ofenda grupos socialmente enfraquecidos apenas por hábito, também.

Agora, sobre a Cena da Globo com Caio Blat e Ricardo Pereira. Mesmo indo ao ar num horário bem avançado na grade, a cena vai sim entrar pra história da nossa TV aberta. É a primeira vez que dois personagens masculinos têm a sua sexualidade escancarada em libido. A cena teve um foco grande no carinho e amor, sim. Mas teve nudez, toque, beijos abaixo do pescoço, encaixe de corpos. Não era apenas um beijo de amor, era um desejo sexual. E isso, amiguinhas, é potente.

Reprodução: www.brasilpost.com,br

Querendo ou não, ontem a Rede Globo esfregou nossa existência na cara dos conservadores – que não veem problema nenhum nas inúmeras outras cenas de sexo mais pesadas dessa novela, ou de programas como “Quinto do Infernos”, por exemplo. Ontem, ou desligaram a TV, ou viraram a cara, ou engoliram frame a frame, dois galãs de novela se esfregando. As reações, inclusive de repulsa, foram instantâneas. Não dá pra voltar atrás, e a partir desse impacto teremos desdobramentos.

Agora, a Rede Globo É golpista. E controladora da massa. Aliena a população. Faz jornalismo tendencioso. Romantiza estupro e pedofilia em novelas. Faz tudo isso, e sabemos. Como a mesma emissora pode dar um passo tão fora do caminho padrão? A resposta, arrisco, é que uma emissora é uma Rede, como o nome diz. E redes têm diferentes núcleos com diferentes posicionamentos. As suas batalhas e militâncias internas não podem ser negadas, ou pasteurizadas junto com todo o resto, como se uma só liga fossem. Não são.

Então, como proceder? É possível vibrar com a Rede Globo e criticar a sua Drag Queen favorita?

Bom, eu vou te dizer que sim, e que não há nada mais construtivo que isso. Televisão, arte, humor, celebridades, pessoas, são multilaterais. O que significa que podemos estar felizes com a decisão corajosa de um núcleo da Globo, enquanto em nosso intimo queremos que sua concessão pública para funcionamento seja cassada. Podemos combater seu jornalismo, e homenagear sua dramaturgia. Assumir um passo pra frente, no meio de uma corrente puxando pra trás. Nos privar disso é acreditar que só um discurso existe num mar de enunciadores, e assim apagamos as conquistas de quem resiste dentre eles.

Bianca

Reprodução: Facebook

 

Sobre Bianca…Olha, eu não vou dizer pra que as pessoas detestem alguém. Mas também não quero que vocês façam a Kátia Cega e passem pano para comportamentos problemáticos, apenas porque há uma ligação emocional entre vocês e a artista. Gostar da Bianca Del Rio pelas sensações que ela te trouxe, pela sua trajetória artística, por sua beleza, pela representatividade, ok. Isso não isenta nem ela, e muito menos você, de ser sim bastante criticada. Porque depois vai vir algum palmito defender apresentadores da Rede Bandeirantes dizendo que é apenas humor, e vocês vão ter que engolir. No caso, eu detesto palmito e não engulo mesmo.

E por que isso tudo interessa a militância? Porque precisamos aprender a refinar nossas críticas. Críticas são melhores quando não ficam no raso, quando aprofundam os significados dos discursos e das verdades que são produzidos a partir delas. É bem difícil ignorar nosso emocional quando alguém acusa uma pessoa ou instituição que amamos/odiamos, e na verdade não é pra ignorar. É para usar a nossa favor, permitir auto-crítica e repensar relações. Se na nossa luta conseguimos avaliar o mesmo objeto por diferentes ângulos, ainda que num desses ângulos existam imperfeições que nos incomodem, ganhamos todas. E, na boa, estamos precisando ganhar mesmo.

 

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Melissa L'Orange é drag queen, nerd, professora, escritora amadora, jogadora de LoL sofredora. Toda natural, bonita pra caramba, peito duro sem estria e carro zero.