Mídia: um pilar da gordofobia

cabeçalhomidia

 

O texto de hoje da Coluna O Grande Close será a primeira parte de uma trilogia que vai tratar sobre o que eu considero os três pilares da gordofobia: a mídia, a área biomédica e o senso comum da sociedade de consumo. Já publicamos aqui na Coluna um texto que definia o que era gordofobia, mas agora seremos mais abrangentes. Os três fatores serão separados para fins didáticos, já que na realidade eles agem de maneira conjunta. Começaremos falando sobre Mídia, ou sobre como o corpo gordo é retratado através dos meios de comunicação e como essa imagem afeta a existência das pessoas gordas em sociedade.
E quem esteve na internet por esses dias acabou sendo impactado com a repercussão de dois ocorridos; o primeiro deles é a apresentação da cantora Anitta no Criança Esperança, que contou com a apresentação de um balé composto exclusivamente por dançarinas gordas. A maneira como a apresentação foi concebida (a música não falava especificamente de pessoas gordas) e noticiada (a chamada foi “Anitta se apresenta com ballet sensual” ao invés de “Anitta se apresenta com dançarinas gordas”) merecem destaque, porque as pessoas gordas foram tratadas como qualquer outra pessoa, e isso é praticamente inédito na televisão aberta (ainda mais na Globo, emissora que produz o Medida Certa e o Bem Estar). A Amanda do Blog LindaGG fez uma análise da apresentação aqui.

O segundo ocorrido infelizmente não é positivo. Foi a tal música Gordinha, da dupla sertaneja Cesar Menotti e Fabiano. A música recebeu críticas super pertinentes das meninas gordas da militância, como por exemplo esse texto da Não Sou Exposição e esse do Blog Donna. Deixei a crítica pras minas porque é algo que as afeta diretamente, mas não posso deixar de ressaltar que os dois integrantes da dupla são gordos, e isso não os impediu de fazer uma canção cheia de estereótipos e objetificações. Pra mim, o acontecimento é a prova de que não basta sofrer gordofobia pra ter empatia, há outros privilégios que se não colocados em pauta vão atrapalhar o processo (no caso dos cantores, o privilégio masculino hétero cis).

Acima, cena da apresentação de Anitta e balé sensual no Criança Esperança 2016. Abaixo, cena do lyric video de "Gordinha", de Cesar Menotti e Fabiano.

Acima, cena da apresentação de Anitta e balé sensual no Criança Esperança 2016.
Abaixo, cena do lyric video de “Gordinha”, de Cesar Menotti e Fabiano.

 

E por que eu comecei citando esses casos? Pra demonstrar como as diferentes mídias e meios de comunicação influenciam na visão social que se constrói da pessoa gorda. O corpo gordo vem ganhando espaço em artigos científicos, em mídias diversas, em reality shows específicos, filmes, séries, etc. A imagem que se tem desse corpo é carregada de estigmas e preconceitos, sendo produto da cultura em que esse corpo está inserido.

Se na Idade Média o foco era o cuidado com a vida da alma, com o desenvolvimento da moral e das virtudes, na Era Moderna é o corpo quem vira protagonista. O corpo é mercadoria, o corpo é representação de valores morais, o corpo consome, o corpo expressa saúde ou doença. Assim, o corpo gordo é tratado de maneira pejorativa, se tornando o corpo sem saúde, o corpo fracassado. Quando inserimos os meios de comunicação nessa equação, nossos corpos passam a ser um evento, uma socialização de fatos, um exemplo do que não deve ser seguido, do que é doente e imoral. Corpo de excessos, que não conhece comedimento. E já que o homem ideal para a biomedicina é o homem equilibrado e sem doenças, o corpo gordo precisa ser padronizado, medicado, exposto à vergonha pública para uma possível “redenção”.

E isso não afeta apenas a identidade de pessoas gordas, que passam a fazer coro com esse sistema e colocarem suas expectativas de felicidade no emagrecimento. Esses dispositivos agem também formatando os olhares sociais sobre o sujeito gordo, construindo juízos de valor a seu respeito. Um segmento que cresceu muito nos últimos anos tanto na TV aberta quanto na TV a cabo são os reality shows de emagrecimento. Pessoas gordas são submetidas a extenuantes cargas de exercício, dietas altamente restritivas e pesagens públicas. Quem perde mais peso é o vencedor. Quem se torna magro é o vencedor. Quem não atinge as metas (que num futuro próximo farão uma reviravolta no seu metabolismo), é eliminado. Perdedor. Sem foco e sem força de vontade. Sem determinação. Culpabilizado. Doente.

Exemplos de reality shows de emagrecimento. Diferentes emissoras, mesmo formato.

Exemplos de reality shows de emagrecimento. Diferentes emissoras, mesmo formato.

E é muito comum que a haja a adoção de um discurso “científico” no escopo de programas que retratam a obesidade (tanto em reality shows como em programas de “jornalismo utilitário“, como o Bem Estar, da Rede Globo). A ciência não só constrói conceitos com a ajuda da mídia, mas os difunde a amplas parcelas da população. A mídia age como uma espécie de intelectual coletivo, capaz de construir sentidos e difundir discursos. Não raro se usa a palavra de médicos e outros profissionais da área da saúde nesses programas pra falar sobre pessoas gordas e obesidade, porque é importante que o saber biomédico seja reforçado como “verdade”, quando na realidade o saber biomédico é apenas uma das dimensões da questão da obesidade e da identidade de pessoas gordas. Se formos analisar, as únicas vezes em que se permite a fala de pessoas gordas nesses programas é se for pra dizer como são infelizes, doentes e frustradas.

E se a mídia tem relações com o saber científico – especialmente o saber biomédico – ela também tem autonomia pra agir de maneira independente na criação do imaginário de pessoas gordas. O entretenimento é fonte de transmissão de inúmeros valores morais sobre pessoas gordas, mesmo em programações aparentemente “inocentes”. Um exemplo disso são as comédias. Muitos filmes “de sessão da tarde” são construídos a partir de ideias extremamente gordofóbicas. Muitos deles trazem atores magros usando fatsuits (enchimentos para parecerem gordos). A explicação pro uso desses trajes poderia estar na capacidade de exagerar e carregar nos estereótipos ao máximo com o intuito de ~fazer rir~. Esses personagens gordos são caricatas e exagerados, e geralmente comem demais, são preguiçosos, sedentários, com hábitos ruins de higiene e com senso estético duvidoso. Muitos desses personagens ainda carregam estereótipos machistas e racistas. A ideia de que “gordo é engraçado porque só faz gordice” vem, em parte, desse tipo de comédia pastelão que a maioria das pessoas acaba assistindo em algum momento da vida.

Cartazes de divulgação dos filmes de Nutty Professor II: The Klumps (2000), dirigido por Peter Segal, Norbit (2007), de Brian Robbins e cena de Big Momma's House (2000), de Raja Gosnell: Personagens gordos construídos com estereótipos gordofóbicos (e extremamente racistas), além do uso de fatsuit.

Cartazes de divulgação dos filmes de Nutty Professor II: The Klumps (2000), dirigido por Peter Segal, Norbit (2007), de Brian Robbins e cena de Big Momma’s House (2000), de Raja Gosnell: Personagens gordos construídos com estereótipos gordofóbicos (e extremamente racistas), além do uso de fatsuit.

 

Animações infantis e adultas também são carregadas de discursos “embutidos” na construção dos personagens. No longa de animação ganhador do Oscar 2016, Inside Out (ou Divertidamente), os personagens principais são representações de sentimentos. A alegria é uma moça jovem e esbelta, radiante e contente. A tristeza é uma moça gorda, apática, preguiçosa, atrapalhada. Esse tipo de construção visual dos personagens não acontece ao acaso. Ele é fruto (e ao mesmo tempo, produtor) de uma ideia difundida socialmente de que pessoas gordas são infelizes e imprestáveis, e que magreza é sinônimo de alegria.

A premiada animação Wall-E, de 2008, faz uma crítica à sociedade de consumo e aos males que a modernidade traz. E como são as “pessoas do futuro”? Gordas, sedentárias, comilonas, viciadas em games e tecnologia e apáticas. Novamente a ideia de gordura como retrocesso e degradação humana. Outro estereótipo muito comum é o do personagem Comic Book Guy, da série animada Os Simpsons, uma das mais longevas da TV mundial. Um personagem gordo, sem habilidades sociais, viciado em games e quadrinhos, solteiro, comilão e amargurado. Exatamente como TODAS as pessoas gordas são, não é mesmo?

Em sentido horário: Personagens Joy (Alegria) e Sadness (Tristeza) do filme Inside Out (2015), da Pixar; Comic Book Guy, da série animada Os Simpsons, da Fox, e cena da animação Wall-E (2008), da Pixar.

Em sentido horário: Personagens Joy (Alegria) e Sadness (Tristeza) do filme Inside Out (2015), da Pixar; Comic Book Guy, da série animada Os Simpsons, da Fox, e cena da animação Wall-E (2008), da Pixar.

 

E saindo do mundo televisivo e tomando exemplos das publicações de moda, a gordura é ainda mais vilanizada. Recentemente a Revista Vogue ganhou mais uma vez os holofotes negativamente por pregar dietas que envolvem a prática de jejuns, e não é de hoje que a revista prega a magreza a qualquer custo, né? A indústria da moda, como um todo, se pauta na magreza como sinal de beleza e elegância. Isso vai desde a escolha para capas de revistas à diminuição cada vez mais visível das numerações de manequins (aquela história de que o tamanho 30 é o novo 32, e o 28 é o novo 30, até que a gente consiga vestir uma meia e chamar de vestido tubinho).
E não pense que o aumento e reconhecimento de um “mercado plus size” torna a indústria da moda menos gordofóbica. Modelos plus size na realidade chegam a usar até 44, e capas com pessoas que não tem a cintura da largura de um pulso geralmente são close ups de rosto, e não de corpo, ou no máximo poses que escondam qualquer sinal de gordura abdominal. A nudez/exibição do corpo nas capas ainda é reservada às modelos magérrimas, como você pode notar na montagem abaixo:

Em sentido horário: Vogue Espanha - Novembro/2011 / Vogue Brasil - Maio/2016 / Vogue Paris - Abril/2016 Vogue UK - Outubro/2011 / Vogue USA - Fevereiro/2014 / Vogue Itália - Junho/2011.

Em sentido horário: Vogue Espanha – Novembro/2011 / Vogue Brasil – Maio/2016 / Vogue Paris – Abril/2016
Vogue UK – Outubro/2011 / Vogue USA – Fevereiro/2014 / Vogue Itália (com modelos plus size) – Junho/2011.

 

E há maneiras de mudar essa realidade? Sempre há. A melhor maneira de combater uma hegemonia, uma visão negativa da pessoa gorda por parte da mídia dominante, é reforçando movimentos de contra-hegemonia. A internet tem sido uma ferramenta maravilhosa pra isso. Pessoas gordas precisam tomar a frente e produzir conhecimento sobre seus corpos, seja ele escrito, Acadêmico, Arte, ilustrações, moda… Se na TV aberta só nos deixam falar se for pra chorar como somos infelizes, usemos mídias alternativas pra dizer o contrário. Se nos filmes e séries somos representados de maneira caricata, vamos começar a produzir Arte que mostre personagens gordos com profundidade e cores diversas. Se a área da Moda ainda somos preteridos, então urge que tenhamos gente gorda produzindo roupas, fotografando, ilustrando, dirigindo artisticamente editoriais… É um trabalho de mudança muito mais lento do que todo o alcance que a mídia hegemônica já possui, mas esperar que essa mesma mídia vá se importar um alterar um discurso que é feito há muitas décadas é apenas ingenuidade. Oprimidos só têm voz quando se empoderam e buscam meios alternativos de falar.

E é necessária uma reeducação do olhar: questionar “verdades”, valores absolutos difundidos pela Ciência através da mídia. Ao longo da História mulheres já foram ~cientificamente~ consideradas inferiores aos homens, pessoas negras eram inferiores às pessoas brancas, populações LGBT foram consideradas doentes, entre tantas coisas absurdas que acontecem porque a ciência também é ideologia e serve a um discurso dominante. Não aceitar ser patologizado e nem culpabilizado por nosso corpo gordo pelo discurso midiático é o primeiro passo.

Pra encerrar o texto, mais uma questão polêmica que surgiu na internet por esses tempos foi uma campanha da Avon, que trazia pessoas de diferentes orientações de gênero e sexualidade utilizando o mesmo produto de maquiagem. Parte da militância viu com bons olhos, pela questão da representatividade e por uma campanha que não usou só mulheres cis magras e brancas pra vender um conceito de beleza. Outra gama de pessoas acusou a empresa de capitalizar as questões da militância, ou seja, usar nosso empoderamento pra obter lucro.

Eu já escrevi sobre isso aqui no A Coisa Toda, mas não custa reforçar: nosso empoderamento nunca deve estar condicionado a campanhas publicitárias, porque nossa beleza não está atrelada ao consumo. Mas uma campanha como essas é importante sim, exatamente pelos motivos que descrevi nesse texto: muitas pessoas que viram a vida toda campanhas de beleza usando modelos com padrões de beleza muito parecidos começam aos poucos a ver que há outras alternativas pra se considerar belo. Muitas dessas pessoas ainda não acessam textos e produtos de Arte produzidos pela militância, e uma campanha de uma empresa grande como a Avon pode ser sim seu primeiro contato com uma outra realidade. É um passo ainda pequeno, considerando que a campanha foi veiculada somente na internet, mas assim como essa campanha da Skol, são exemplos de como a mídia pode ser um instrumento mais inclusivo mesmo dentro das pautas capitalistas de vender algum produto.

 

 

Quer ler mais sobre o assunto?
Eu indico esse texto, esse texto, esse texto e esse texto.

E aguarde porque nos encontramos novamente nesse Grande Close para as partes 2 e 3 dessa série de textos.

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.