Andrógena, negra e favelada, Blackyva utiliza do teatro e do funk para mostrar sua realidade

Foto: Facebook

“Sempre fui calada, reservada, guardava tudo o que sofria dentro de mim. Eu precisava falar sobre o que vivi”, diz a atriz, cantora e performer Blackyva, que vocifera em versos delicados o preconceito que sofre por ser andrógena, negra, viver na favela e também sobre violência doméstica.

Ela nasceu Willilam Lopes e só aos 19 anos, após entrar na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna, que conseguiu encontrar voz para falar tudo o que queria dando vida à persona Blackyva.

Antes Blackyva era uma performance teatral, que só aparecia durante suas apresentações. Com a maturidade do trabalho, ela tomou tamanha proporção que hoje é a identidade adotada 24 horas por dia.

blackyva

Nascida e criada na Rocinha ela aprendeu cedo a conviver com a violência. E não foi só fora, mas também dentro de casa. A mãe, grande inspiração da cantora, apanhou do companheiro.

Por conta disso, hoje a cantora pinta um olho de roxo e em muitas músicas fala com propriedade sobre o tema. “Eu vi isso acontecer de muito perto”, argumenta.

Até entrar na faculdade, trabalhava como atendente em uma copiadora. Então largou o emprego e passou a só estudar. No início interpretou textos de grandes dramaturgos no palco, como Shakespeare e Nelson Rodrigues, mas sentia que este não era seu meio de se expressar.

“Eu precisava dizer o que eu queria do meu jeito, já não estava me identificando”, explica. Por carregar a maturidade de quem cresceu cercada de preconceito e violência ela sentia que devia encontrar um meio de se expressar. “Muitas vezes eu chegava em casa depois da aula por volta de 1h da manhã e estava tendo tiroteio lá. Eu não conseguia subir pra casa”, conta.

Foi então que construiu a persona. O nome surgiu da junção de Black e diva, “uma diva da favela”, ressalta. A principal influência é Beyoncé, mas leva muito de Brecht e de outros grandes autores do teatro para os palcos.

Sua primeira apresentação foi na Martins Penna. No texto utilizou principalmente do sarcasmo, comicidade e agressividade. “Saí feliz, senti uma receptividade, mas ainda não me senti no lugar que eu queria estar”, lembra.

Após algumas apresentações foi convidada para se apresentar no interior do Rio de Janeiro, mas depois da coordenadora do evento ver o teor de suas letras foi impedida de fazer o show dois dias antes do evento. “Ela disse que por ser funk e muito agressivo, minha música não passava mensagem nenhuma, não era cultura”, relata.

Então decidiu mudar o estilo de escrita. “Tirei os palavrões, mas passei a utilizar melhor a ironia e o sarcasmo. Percebi que posso machucar sem fazer sangrar, mostrar a realidade sem forçar a porta”, filosofa.

Mesmo com pouco tempo ela conseguiu realizar a apresentação e então começou a ganhar ainda mais força. Depois dessa viagem começaram sair muito mais composições, hoje já são cerca de 20 músicas e 12 vídeos no Youtube.

A batalha para mostrar sua arte já lhe rendeu frutos. No ano passado Blackyva se apresentou na 3ª Conferência Nacional da Juventude ao lado de Karol Conka e sendo vista pela então presidente Dilma Rousseff.

Blackyva pretende continuar mostrando a dura realidade de ser andrógena, negra e favelada. “Blackyva me ensinou a me ver e me sentir bonita, além de ter me dado voz. Eu me tornei ela, por isso irei continuar”, afirma. Neste ano ela se tornou a porta-voz das manifestações em favor de melhorias na Martins Penna, que passa por uma grave crise.

E para quem contesta sua arte, ela responde com o verso de uma de suas músicas “E quem me perguntar o que estou fazendo aqui/ Estou resistindo para não ter que te servir”. A artista está se preparando para a gravação de um EP e de videoclipes. Suas próximas apresentações são: 11/06 Festa no Espaço XV da UFRJ; e dia 12/06 participação no espetáculo sobre o sagrado feminino no Teatro de Afeto na Glória. Conheça mais do trabalho de Blcakyva por meio de sua página no Facebook  e em seu canal do YouTube

Blackyva performando durante uma das manifestações da Martins Penna. Foto: Fernando Lemos/Agência O Globo

Blackyva performando durante uma das manifestações da Martins Penna. Foto: Fernando Lemos/Agência O Globo

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