Rainha da Virada 2016: o gosto amargo ficou

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O Marco publicou domingo aqui no portal o seu texto sobre o show de gordofobia que aconteceu no palco do concurso Rainha da Virada 2016 e eu, Cairo, venho aqui hoje pra falar sobre os outros problemas que me revoltaram e me decepcionaram durante o evento. Independente da ordem em que você quiser ler os textos, os considere como complementares.

No evento do concurso no Facebook eu fiz a minha sugestão crítica mais direta e suscinta para que a organização não repita a apresentadora e as juradas ano que vem (com exceção de Luísa Marilac, que não deu nenhum close errado). Esse texto é pra explicitar em mais detalhes os motivos que tenho para pedir isso com tanta paixão, mais especificamente falando de Leonora Áquila e Penélope Nova.

Penélope, mulher cis e branca, que já foi uma presença midiática considerada aliada dos LGBTQ e com posicionamentos sensatos e coerentes (ainda nos idos tempos da MTV Brasil), foi pela segunda vez uma das juradas do concurso. O problema é que as mudanças que ocorreram em sua vida a transformaram numa presença bizarra num evento que tem como princípio divulgar e celebrar o talento e a diversidade dentro da arte das drag queens. Agora uma “musa fitness” e alinhada com idéias inclinadas à direita, Penélope fez comentários gordofóbicos e fez julgamentos e votos que feriram o próprio regulamento oficial do concurso, desqualificando candidatas por questões de “roupas e visual” ao invés de focar em suas performances. Ela também teve a coragem de falar, na presença de uma travesti, que era “um viado que já nasceu operado”. Além disso, pessoalmente, qual é a qualificação que ela tem pra ser jurada de um concurso de dublagem protagonizado por drag queens? Não a tragam de volta, por favor.

Leonora, a grande protagonista do close errado da noite, acabou indo mais longe, provocando momentos constrangedores pra cacete. Além da gordofobia que lhe foi tão presente no discurso ao longo da noite, Léo Áquila dedicou aproximadamente 10min de presença de palco para declarar que muito em breve ia passar por um marco na sua vida que também seria um marco para “toda a comunidade LGBT do Brasil”. Ela estava falando do seu próprio casamento. Ela chegou a trazer seu marido ao palco para exibi-lo (e ele aproveitou para levantar a camiseta e mostrar seu “tanquinho”) e explicar que, apesar de inicialmente querer uma cerimônia pequena para amigos e família, ela resolveu transformar a cerimônia numa grande festa para celebrar o amor e orgulho em poder formar uma família a partir desse contrato. Eu desejo tudo de melhor ao casal, compartilho do desejo de celebração das coisas que nos fazem felizes e fico feliz de que o noivo tenha sobrevivido ao grave problema de saúde que o acometeu e o deixou em coma. Mas considerar que um fato da sua vida pessoal, que compactua com valores da “família tradicional” e da heteronormatividade, vai ser “um marco na comunidade LGBT de todo o Brasil” é muito egocentrismo. Além disso, é um grande desserviço que uma mulher trans com a visibilidade que ela tem molde um discurso que procura mostrar que seguir o modelão hétero de ideais de vida é o “melhor caminho” para os LGBTQ. Quando lembramos que ela fez isso no meio de um concurso de drag queens, para um Largo do Arouche lotado de gente, fica ainda pior. Léo, a grande conquista da comunidade LGBT com relação a casamento e formação de famílias foi a vigência nacional do casamento civil homofetivo seguida de uma política de adoção de crianças que não exclui tais casais do processo, não o seu futuro casamento heterossexual, branco e no valor de centenas de milhares de reais.

Outro momento constrangedor de Leonora foi no o que seguiu a performance excelente e extremamente política da drag Dafny Delano, que dublou “Brasil, mostra a tua cara…” vestida como se fosse a presidenta eleita Dilma Rousseff. A performance foi tão poderosa e reverberou com tanta força no ambiente que Luísa Marilac puxou o “Fora, Temer!” que foi repetido pela platéia por algum tempo. Enquanto isso, Penélope Nova dava um sorriso debochado e Leonora fazia cara de paisagem, já cortando e “passando um pano” no protesto sob o pretexto de não atrasar o resto do concurso. Ao longo da noite Léo permeou várias falas com um proselitismo religioso quase evangélico e tentou “apaziguar” e “neutralizar” falas políticas das várias artistas que passaram pelo palco. Ao mesmo tempo em que pregava “respeito, igualdade e união” para a comunidade LGBT do Brasil.

Léo Áquila já me incomodou ano passado, mas a novidade do evento e seu imenso sucesso ofuscaram os problemas da presença dela ali. Esse ano, com um crescimento do concurso dentro da programação da Virada Cultural simultâneo à situação sócio-política do Brasil, não deu pra ignorar o quão desagradáveis foram as presenças de Penélope Nova e Léo Áquila e saí de lá com um gosto bem amargo, apesar de ter assistido a uma seqüência de performances incríveis de artistas que eu admiro.

O histórico de Léo Áquila não também não pode ser ignorado. Apesar de anos de estrada como performer e drag queen, quando ainda era um homem cis ela promoveu um stunt midiático comparecendo em alguns programas de auditório (principalmente o Superpop) e se declarando ex-gay, evangélico e hétero somente para causar grande polêmica. Ao mesmo tempo, ela continuou a cumprir sua agenda de shows normalmente e eventualmente esse “momento” da sua carreira se dissipou. Hoje, uma mulher trans hétero, ela ainda carrega traços de alguém que luta pra ser o cúmplice do opressor em troca de assimilação e aceitação ao mesmo tempo que se coloca como frente de um movimento que ela não representa há anos. O Rainha da Virada merece pessoas melhores para apresentar e julgar as participantes em 2017.

Em tempo: o casamento de Leonora será transmitido ao vivo pelo Superpop. Façam o que quiserem com essa informação.

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Cairo Braga é artista, intuitive, autodidata, musicista, comunicadore, queer. a pista de dança é a minha igreja e os meus sonhos são meu lar.