Rainha da Virada 2: um show de Gordofobia

rainha da virada 2

Esse não era o assunto da Coluna O Grande Close dessa semana. Mas tem coisas que acontecem e urgem serem discutidas. E julgo ser uma discussão relevante, então o texto programado previamente vai ficar pra próxima semana, ok?

A Virada Cultural da cidade de São Paulo já se consolidou como um evento marcante da cultura da cidade. Durante 24 horas, diversos espaços são montados com um sem-número de atrações para diferentes tipos de gostos e pessoas. Nos dias 20, 21 e 22 de maio (hoje), aconteceu a 12ª edição do evento. Dentro do evento Virada Cultural, pelo segundo ano consecutivo acontece o Rainha da Virada, que nada mais é do que um concurso de dublagem entre performers, sejam drags, trans, travestis, transformistas… As 16 concorrentes previamente inscritas recebem uma lista de músicas nacionais e se enfrentam no esquema “mata-mata” até que uma delas sai com a coroa e um prêmio em dinheiro.

Pra mim, que estive na primeira edição do evento, foi notória a melhora na estrutura de palco, de som, na qualidade do espetáculo como um todo. Teve até a presença da Yara Sofia, participante de RuPaul’s Drag Race, que além de performar e interagir com o público, entregou a coroa à vencedora. Na descrição do evento, está escrito que “Buscamos um mix de veteranas e novatas, todo mundo tem chance!“. De fato, dentre as 16 concorrentes tivemos representantes de vários estilos e vertentes de arte drag e *spoiler* a vencedora foi Pyetrah Haas, uma travesti que por muito pouco não desistiu de ir ao concurso.

Portanto, é imperativo deixar claro que não estou questionando:

1. A qualidade do concurso;

2. O mérito da vencedora.

Montagem das candidatas do concurso "Rainha da Virada 2", retirada diretamente da página do evento.

Montagem das candidatas do concurso “Rainha da Virada 2”, retirada diretamente da página do evento.

 

Mas houveram acontecimentos que ofuscaram até o brilho dos paetês e sombras cintilantes: episódios de gordofobia vindos da apresentadora e dos jurados. E o alvo direto desses ataques (muitos disfarçados de ~humor~) foram as duas concorrentes gordas da disputa: as lindas e maravilhosas Gina YamamotoNina Fur. Eu entendo que as drags e pessoas que estão envolvidas diretamente com a produção do evento não vão se pronunciar a respeito de nada disso por n motivos compreensíveis e válidos, mesmo que algumas pessoas indignadas tenham deixado seus comentários revoltados na página do evento e nas redes sociais. Mas como eu não tenho envolvimento nenhum com a organização, posso usar esse espaço pra me manifestar (inclusive, nem o A Coisa Toda nem ninguém mais tem alguma a coisa a ver com minhas opiniões nesse texto. Eu assumo total e completa responsabilidade pelas minhas palavras).

Como foi um evento público com milhares de pessoas presentes, não há problemas em citar nomes, já que todo mundo viu o que foi dito e feito. Então vamos lá. Primeiramente, a apresentadora Leonora Áquila, que parecia mais preocupada em divulgar seu casamento e em “passar um pano” nos protestos da plateia e participantes do concurso sobre a situação política brasileira do que em apresentar a premiação. Foi da boca dela que ouvimos, em tom de surpresa, que “a platéia tá preferindo as gordinhas ao invés das magrinhas!”, e que “noooossa, a gordinha tombou a magrinha” (como se fosse algo improvável uma gorda ter melhor desempenho que uma magra). A jurada e drag queen Fátima Fastfood, no melhor estilo “humor que mantém todos os padrões de opressão”, falou que a drag gorda ao lado da magra era “uma ótima campanha da OI (sim, 2016 e piadas com gordo e magro. Pode soltar o apocalipse).

E – pra mim, a pior de todas – Penélope Nova, que inclusive já foi uma pessoa fora do padrão antes de virar a musa fitness que é hoje, também se assustou com a plateia preferindo as candidatas gordas. E num momento de completa falta de noção, disse que a Gina devia se preocupar mais com figurino (Gina tinha trocado de roupa e peruca de uma performance pra outra, estava linda, e a sua adversária usava uma camisa simples, uma saia e a mesma peruca da performance anterior. Pergunte se a magra recebeu alguma crítica de figurino). A única que se manteve coerente durante o evento (pelo menos eu não percebi falas problemáticas dela, se alguém viu pode me dar um toque) foi Luisa Marilac. Inclusive, ela tomou a dianteira pra puxar um coro de “Fora, Temer!” com a plateia do evento.

UPDATE EM 23/05: Recebi um inbox de uma pessoa da plateia que disse que a fala de Leonora foi “a magrinha tombou a gordinha”, e não “a gordinha tombou a magrinha”, conforme eu dissera anteriormente. A expressão indicaria a surpresa pela “gordinha” (que recebera inclusive o voto do público naquele momento) ter perdido pra “magrinha”. De qualquer forma fica aqui a retratação, porque não quero ser injusto com ninguém, mas com a ressalva que o comentário não se torna menos problemático por isso.

E o que isso tem a dizer sobre a militância LGBTTQ+? Que é muito bonito pregar diversidade, e de fato ela foi praticada em vários níveis no espetáculo. Tinha trans, tinha travesti, tinha preta, tinha bicha periférica, andrógina, e… gorda. Mas às gordas, além da presença garantida, restou a chacota, o olhar torto, a surpresa pela aceitação do público… E isso diz muito a nosso respeito. E eu já estou ouvindo até pessoas perguntando: “Ah, mas então era dar o título/voto pras drags gordas só porque eram gordas? Isso não é preconceito também?”. Não, não é pra dar o título só porque são gordas (sim, G-O-R-D-A-S, não “gordinhas”, como insistiam em dizer). Mas também não é pra criticar certos aspectos da apresentação da artista só porque ela é gorda, e tampouco se surpreender que as pessoas prefiram a performance da pessoa gorda. E foi isso que aconteceu.

Pessoas gordas não precisam ser só aceitas pela sociedade, porque ali todas foram aceitas pra performar. Pessoas gordas tem que ser respeitadas e tratadas em pé de igualdade. Nosso senso estético foi bombardeado por décadas de imagens que associam magreza à beleza e eficiência, e a gordura à preguiça, desleixo e feiura. Então quando uma gorda se apresenta artisticamente – ainda mais numa competição com outros artistas não-gordos – é mais fácil usar humor e deboche pra disfarçar que achamos aquilo feio e inadequado.

E isso é um comportamento recorrente quando artistas gordos se apresentam. Quem não se lembra de quando a artista Melati Suryodarmo fez uma performance dançando em blocos de manteiga (justamente pra questionar como é existir enquanto pessoa gorda nessa sociedade) no Lilith Performance Studio em Junho/2010 e seu vídeo viralizou das formas mais erradas possíveis, se tornando chacota em vários blogs ~de humor~?

 

 

E quando Miro Spinelli fez uma performance chamada Gordura Trans, onde cobria seu corpo nu com azeite de dendê, e foi transformadx em meme da internet brasileira com várias montagens (e se apropriou lindamente disso criando o tumblr Gordura Trans)?

performance de Miro Spinelli Material: azeite de dendê Realizado no Seminário Internacional Desfazendo Gênero / Setembro de 2015. Registro fotográfico de Andréa Magnoni

Performance de Miro Spinelli com azeite de dendê, realizado no Seminário Internacional Desfazendo Gênero / Setembro de 2015. Registro fotográfico de Andréa Magnoni

Num texto maravilhoso feito em parceria com Ricardo Nolasco, Miro escreve que:

“O corpo gordo é, para todos os efeitos, um corpo indesejável. Está categoricamente instituído que desejar um corpo gordo para si ou desejar eroticamente o corpo gordo de outro é uma espécie de fetiche patológico. A não ser que uma mulher esteja gorda porque está grávida, ou que as tetas caídas estejam produzindo o doce e gorduroso leite para o filho do rei. Os reis aqui são todos os pais que esperam um prêmio por desejar as esposas gordas diante do místico dever da procriação. Todos os outros gordos estão proibidos e condenados como tudo o que é excessivo, protuberante e irregular ou o que ultrapassa os limites do útil e do necessário. Assim, o corpo esta submetido a uma funcionalidade e eficiência onde qualquer desvio desses paradigmas deve ao menos se cubrir para não ferir os olhos do cidadão de bem comendo suas saladas de alface. (…) Os espaços seguirão em disputa e nós os ocuparemos para depois transbordá-los. Seguiremos grandes e gordos, excessivos e expostos na constante atividade de desprogramar as subjetividades que nos aprisionam.”

Representatividade não é apenas o primeiro passo na aceitação pessoal e empoderamento de pessoas gordas; é também pessoas ocupando espaços que outrora não ocupavam e desafiando os limites estéticos e pré-concepções sociais. O público do Rainha da Virada 2 pareceu entender isso (a julgar pelos aplausos à Gina e Nina), mas as juradas e a apresentadora… Aos que pensam como elas, vocês ainda não estão preparados pra ver gente gorda fazendo Arte. Mas a gente vai continuar. E vai arrasar.

Obras de Fernanda Magalhães, na Série A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia, 1995: Gorda 09, Gorda 12 e Gorda 13.

Obras de Fernanda Magalhães, na Série A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia, 1995: Gorda 09, Gorda 12 e Gorda 13.

Esse texto é dedicado especialmente à Gina Yamamoto e à Nina Fur. Vocês já são Rainhas, e tenho certeza de que inspiraram muitas pessoas [além de mim mesmo] com suas apresentações. A resistência de vocês em estar no palco só prova que drag não só é uma arte necessária e quebradora de paradigmas, é um instrumento político de transformação.

UPDATE 2 em 23/05: Leonora Áquila respondeu nas redes sociais que fora mal interpretada, diz que não tem nenhum preconceito e amou o show das drags, que “tombaram”.

UPDATE 3 em 24/05: A organização do evento publicou uma nota oficial na página do Rainha da Virada 2, inclusive citando esse texto. Eis a resposta copiada e colada abaixo:

A produção do Rainha da Virada vem acompanhando as manifestações que se deram em sites e postagens / comentários no Facebook, criticando certos pontos do evento, principalmente na questão de “gordofobia” (se você está totalmente por fora, segue o texto que mais teve destaque a esse respeito: http://acoisatoda.com/…/rainha-da-virada-um-show-de-gordof…/ ). Não é algo a ser tratado de maneira leviana, por isso tomamos um tempo para dialogar internamente e chegar a um consenso e oferecer um parecer público da nossa parte.

As problematizações são válidas? Sim. Tivemos ao longo da noite comentários infelizes, em maior ou menor grau, principalmente (mas não exclusivamente) sobre o porte físico (peso) de algumas participantes. Utilizamos o termo “infeliz” pois acreditamos que nenhuma pessoa presente, seja apresentadora, jurados ou staff, estava ali com intuito de ofender outras pessoas.

Buscamos conselho da Festa Priscilla, que foi nossa parceira nesse evento, uma vez que sua equipe tem bastante experiência em lidar com esse tipo de situação. A análise deles fez sentido para nós: vem acontecendo um choque de gerações nesse tipo de evento. De um lado, uma geração mais antiga LGBT (ou aliada aos LGBT), não tão acostumada com o cenário de problematizações atual e naturalmente mais “conservadora”, e a geração mais nova, totalmente antenada nesses conceitos e que considera certos posicionamentos ultrapassados. Se por um lado a velha-guarda pode ter problemas pra se adaptar à nova cena, o que gera conflito e deve ser problematizado, a nova cena nem sempre tem paciência ou mesmo vontade para dialogar de maneira equilibrada. Se isso acontece, os dois lados ficam chateados, nada é resolvido e a barreira entre gerações continua crescendo.

O artista Criolo, há pouco tempo, alterou algumas letras de suas músicas com base em um diálogo bacana que exemplifica a postura que sugerimos. Vale a reflexão: http://agenciapatriciagalvao.org.br/…/criolo-relanca-album…/

Criolo: “Vi o quanto era contundente ‘as vadias quer mas nunca vão subir’ quando uma jovem que estava em um show me perguntou muito educadamente ‘Criolo, tem como você mudar isso?’. Ela foi de uma humildade. Não me agrediu, me educou. Nisso, conversei com amigas que são líderes de movimento feministas e elas me ajudaram a trocar pela palavra ‘vazia’, as pessoas vazias, as que não tem algo positivo em seu coração. Me deu uma luz. Não custa nada educar, estamos aqui pra aprender também.”

Voltando ao nosso evento: vamos tomar atitudes, sim, para o ano que vem. Acreditamos que dá pra manter tudo que foi incrível no Rainha da Virada 2016 e alinhar com as discussões e avanços que têm rolado em questões LGBT, minorias, discussão de gênero, respeito e responsabilidade, etc.

Alguns envolvidos nessa polêmica toda, em suas páginas pessoais, já se desculparam ou publicaram textos de consideração a respeito do evento. Se for do interesse deles, cederemos espaço na nossa página para que tenham um canal direto de expressão com aqueles que reclamaram e problematizaram, incentivando o diálogo que esperamos ser produtivo.

Por fim, vale lembrar que o evento é principalmente sobre Drag Queens nacionais, e elas deram um show de versatilidade e talento. Nesse quesito, o Rainha da Virada esteve muito bem representado esse ano. Obrigado a todas que participaram!

Equipe ~Rainha da Virada~

 

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.