Entrevista com Bee Reis: “Plus size não me representa!”

A coluna O Grande Close não é só textão. É um lugar pra falar de gente gorda que tem feito a diferença na militância e no mundo. E eu não podia começar a seção com uma pessoa mais especial. Bianca Reis, mais conhecida como Bee Reis, se define como “gorda terrorista”. Aos 21 anos, já é dona de uma marca de lingeries pra pessoas que usam tamanhos acima do 46 que tem feito a cabeça de pessoas gordas Brasil afora (até a deusa MC Carol já é da marca). Sem medo nenhum de falar tudo o que pensa, tem se colocado como uma das vozes fortes da militância gorda no Brasil. E como somos muito migas, batemos um papo sobre moda e militância, e o resultado você confere aqui.

Bee Reis sendo estilista, empresária e modelo. <3

Bee Reis sendo estilista, empresária e modelo. <3

 

[O Grande Close]: Então, fala um pouco de você primeiro.

Eu sou a Bianca, eu sou formada em Design de Moda, tenho uma marca chamada For All Types (F.A.T.) que vende, por enquanto, lingeries e biquínis para tamanhos acima do 46. E é isso que eu faço. Eu tenho 21 anos.

 

[O Grande Close]: Pois é, você é muito nova ainda, e sendo jovem você já tem um discurso muito sólido e muito maduro em relação à miltância e empoderamento. Como foi sua infância e adolescência, você era uma criança/adolescente gorda?

Eu cresci sendo gorda, sempre fui gorda, e pra mim isso nunca foi um problema. É uma parada meio… esquisita pra mim. Eu sempre passei a minha vida sendo gorda, mas era isso aí, sabe? Quando eu era criança, a primeira vez que eu fui na nutricionista, que foi quando eu comecei a ficar gorda, e ela falou… os médicos falavam absurdos pra criança! Falavam que eu ia tomar remédio pra diabetes com 16 anos, e assim… Desde criança eu sempre ficava “ah tá, ok, vamos ver”. E aí eu nunca me preocupei em emagrecer, só que tinha toda uma pressão de família pra emagrecer, e eu comecei a encarar isso como normal, sabe?

 

[O Grande Close]: E teve algum momento que você se deu conta de que isso era uma pressão social? E que não era algo “natural”?trecho1

Sim, porque assim, eu sempre encarava ser gorda como um defeito meu que eu não achava defeito, entendeu? Eu pensava: “eu não me acho errada, mas se médicos dizem que é errado, se a família acha que é errado, deve ser errado”. E um dia eu estava lendo um texto da Polly (Ana Paula Barbi), do Lugar de Mulher, e não era nada tipo nada falando de militância, era a Polly falando que dava pra viver normalmente sendo gorda e eu pensei “cara, deve dar mesmo!”. E eu pensava que uma hora eu teria que ceder a essa pressão da sociedade pra eu poder ser mais feliz e completa, mas eu não queria, eu nunca quis. Eu pensava “ah, se a mídia diz deve ser assim… Eu não estou doente mas eu devo ter alguma doença”. Porque eu nunca fui de me preocupar de pesquisar mais a fundo, e lia só o que a mídia dizia, me classificando como doente. Eu nunca tive doença nenhuma, eu nunca fui sedentária, então o que eu tenho de errado? Ser gorda não tem nada de errado. Ser gordo não é uma doença. Se fosse uma doença eu teria que estar doente, e eu não estou doente. Se existe uma pessoa gorda que não está doente não tem como falar que ser gordo é doença. Aí foi que eu comecei a falar sobre isso e em janeiro de 2015, e eu pensei em fazer um vídeo falando sobre isso.

 

[O Grande Close]: E foi aí que veio a ideia do vlog?

Sim, foi só pra ver se mais alguém concordava comigo, não tinha essa intenção de militância e de ter muitos seguidores. Eu fiz no meu computador antigo, à noite, com uma luz branca na minha cara, e eu falei só o que eu pensava. E eu vi que tinha um monte de respostas pra isso, as pessoas concordavam. E aí eu pensei: então deve ser por aí mesmo, e continuei. Só que eu não gosto de ficar parada, eu quero saber mais. A partir do momento que eu li o texto da Polly e comecei a procurar, eu nunca vi nada brasileiro que fosse algo que eu concordasse totalmente. E eu percebi que a militância é isso, é você ver as coisas, e se elas te incomodam de alguma forma, você tem que entender porque aquilo está te incomodando. E muito do que eu via era gente gorda falando pra pessoas magras, e não é com essas pessoas que eu quero falar, porque não vai ter identificação.

 

 

[O Grande Close]: Então a sua militância é meio que fruto da militância virtual, né?

Sim. Hoje em dia eu consigo falar, se eu conheço uma pessoa gorda que ainda tem umas ideias erradas eu ainda consigo dar uns toques, mas o espaço que eu tenho pra falar, pra discutir e aprofundar o debate é a internet.

 

[O Grande Close]: E que diferenças você vê entre a militância virtual e a militância “real”, corpo a corpo?

A real não existe. Agora tá começando uma organização de palestras em Universidade, de movimentos nos DCE’s e centros estudantis das faculdades… Só que o problema na minha opinião é que o discurso está muito torto na internet ainda, e se você pega um discurso torto e aplica na vida real, fica muito fácil alguém problematizar e te desconstruir inteira, entendeu? Na vida real não existem só as pessoas que te seguem e que vão concordar com as abobrinhas que você diz. Na vida real você tem que encarar o outro, não é só eu falando pras pessoas que concordam comigo. Na vida real vai vir alguém que vai questionar seu discurso, e se você não tiver argumento você vai perder.

 

[O Grande Close]: Até porque pelo que eu vejo, quando você vai pesquisar artigos acadêmicos, não há sequer conceitos estruturados na militância. Você tem essa militância de vivência, que é a maioria do que se tem na internet, mas ainda não há uma organização acadêmica disso, então fica difícil até uma discussão mais estruturada…

É isso mesmo. Porque tem que ter acadêmicos dispostos a desenvolver isso, a definir quais são os pilares da gordofobia. Porque cientificamente falando não tem nenhum artigo acadêmico fazendo isso. Pra mim o único pilar da gordofobia possível de construir academicamente é a patologização, e pra isso precisa de gente da área de Biológicas, pesquisador de medicina mesmo, uma pessoa que faça medicina, nutrição ou algo assim e que esteja disposta a pegar os estudos que tem na gringa e mostrar que realmente tem muitas coisas comprovando tanto dizendo que ser gordo propicia doença como coisas comprovando que não é bem assim. As pessoas geralmente usam só os estudos que convém a elas. Por exemplo, eu li uma vez um estudo que dizia que pessoas gordas tem predisposição genética a ter 30% a mais de chances de ter diabetes, mas que a porcentagem de mortes por diabetes é maior em pessoas magras. Então, se você for gordo e tiver diabetes é melhor do que você ser magro e ter diabetes. Menos chance de morrer, entendeu?

 

[O Grande Close]: É, eu vi um também esses dias que falava sobre como o emagrecimento não altera na expectativa de vida. Pessoas que emagreceram não tiveram uma expectativa de vida maior do que pessoas gordas.

trecho2Então! É uma coisa que você tem que pegar esses estudos e colocar junto com o que a mídia diz, entendeu? Comparar pra você ver que há uma discrepância entre o que realmente tem sido estudado, provado cientificamente e todo o terrorismo que a mídia faz que ser gordo é ser doente, que gordura é um atestado de morte, e que toda a indústria da “saúde” reforça isso, e que acaba meio que dando uma validação pras pessoas falarem: é doente. E tem outro pilar, até hoje são dois pilares que eu consegui encontrar pra pensar numa pesquisa real acadêmica que faça alguma coisa na vida real. O outro pilar é que ser gordo é uma doença EVITÁVEL, entendeu? Tipo: só é gordo quem quer. Porque não é assim que funciona. Não é doença e também não é uma coisa evitável. Não é como se você controlasse quem é gordo e quem não é. As pessoas acreditam não só que ser gordo é doença, acreditam que é uma doença EVITÁVEL.

 

[O Grande Close]: A culpabilização de quem está “doente”, né?

Aquela coisa que ser gordo é porque você é um preguiçoso e você é um comilão. É por isso que vem todas essas representações de que gordo come muito, que gordo é preguiçoso, que gordo é sujo, porque tem essa ideia de “é evitável”, é uma “epidemia a ser controlada e combatida”. Nós somos pessoas-epidemia pra sociedade. São esses os únicos pilares que eu acho que dá pra debater.

 

[O Grande Close]: E na questão da própria militância virtual, você acha que tem como melhorar? trecho3

Essa é a parte mais chata, porque as pessoas não entenderam que esses pilares são a solução. O que as pessoas falam ainda é muito papinho, entendeu? A pessoa parece que ela quer chorar sobre ela não gostar dela mesma e quer gostar. É válido, mas não é a gordofobia em si. Esse negócio da patologização é muito importante e é ignorado em 90% das coisas. Se fala muito do bullying que eu sofri”. Discutir o bullying é importante? É, é muito importante debater o bullying. E com a gordofobia o bullying fica agravado? Fica. Só que o bullying é uma coisa separada que muita gente sofre por mil razões possíveis. Parece que a militância gorda virtual quer falar que “ah, gordo sofre mais”, e com isso a discussão avança muito devagar. Agora faz uns dois meses que eu comecei a ver coisas falando a diferença sobre pressão estética e gordofobia. Coisa assim básica do básico. As pessoas estão ainda muito querendo debater o campo pessoal, porque essa militância de vivência é muito isso, e estão deixando de pensar no coletivo, entendeu? De pensar no que afeta todos os gordos. Daí ainda entra esse povo que não é gordo falando que sofreu um bullying porque mamãe diz que ela é gorda, e a pessoa fica: “não, eu sou gorda porque minha mãe diz que eu sou gorda. Obesona. A senhora que sofre gordofobia”. Não sofre porque não é gorda! Não sabe o que é a patologização, não sabe o que é problema de acessibilidade, não sabe o que é entalar. Todo gordo é patologizado, se você não é patologizado, você não é gordo.

 

[O Grande Close]: E como foi a sua entrada no mundo da moda? Você sempre foi alguém que gostava de moda?

Eu gostava de moda antes de pensar em qualquer coisa de militância. Eu estava cursando Relações Internacionais, e a moda é uma indústria chata de entrar. Só que eu nunca tinha parado pra pensar em algo pra todas as pessoas. Quando eu entrei nesse negócio de militância virtual eu vi que na verdade tinha muita gente querendo se vestir e que sabia que tem o direito de se vestir. Porque até então eu achava que era um desejo só meu.

 

[O Grande Close]: E eu acho que uma das coisas positivas da militância virtual, né? As pessoas veem que não são só elas, que tem um monte de gente pensando a mesma coisa e querendo a mesma coisa, né?

Exatamente!  É a maior vantagem. Claro que você vai ver muito chorume, mas aí vem algumas pessoas que pensam como você. E é nessas pessoas que você pode se apoiar pra fazer alguma coisa legal que realmente preste, sabe? Que seja pra vida real mesmo, não seja só papo. E a F.A.T. foi isso, eu vi que as meninas estavam reclamando pra caramba e eu também penso isso, e eu posso fazer alguma coisa. Eu tenho conhecimento técnico pra tal.

Bee Reis posando pra campanha da F.A.T.

Bee Reis posando pra campanha da F.A.T.

 

E justamente era a minha próxima pergunta. Como foram os passos pra ir de uma pessoa que se percebeu militante e que gostava de moda pra uma empreendedora (embora eu deteste essa palavra)?

Empreendedora. Empresária. A empresária Bianca Reis (risos). É que foi basicamente isso: eu desde criança gostava de costura. Eu sei modelagem, eu tenho noção básica de corpo de gorda porque eu sempre fui gorda e sempre fiz roupa pra mim, então a minha experiência é com o corpo gordo. Eu cresci fazendo minhas roupas e sabendo as especificidades do meu corpo, então eu aprendi que as pessoas que “tem que se virar na Renner não tinham como, porque não cabiam na Renner. Ninguém pensa no corpo gordo. E é coisa básica! Quando você é gorda, e isso é BÁSICO, é óbvio que você vai ter uma banha ali, então você vai ter que fazer alguma que seja confortável. É MUITO óbvio, mas parece que o óbvio pra mim não era óbvio pra ninguém. Não sou eu quem costura na F.A.T., mas eu tenho a costureira e eu que dou todas as orientações pra ela, entendeu? Porque eu sou a gorda. E ela também dá umas dicas legais sobre o que ela tem experiência com lingerie, só que eu faço o projeto e eu falo: “tem que ter a lateral larga”, e ela entende. E é assim que acontece, eu conheço o corpo gordo, sei fazer e tem gente querendo, então por que não?

 

[O Grande Close]: E aí, eu até participei desse processo, mas pra explicar, você fez a pesquisa do que era mais necessário no momento? E o que era mais factível pra você fazer. trecho4

É, porque assim, eu sou o meu público alvo, sabe? Só que não dá pra fazer roupa só pra mim. Não dá pra fazer só o que eu gostaria. Então eu tinha que saber, e aí eu aproveitei que eu tava com algum contato com outras pessoas gordas, e eu tinha que saber. E foi muito bom, porque são dados que eu estou usando até hoje. Porque tem que ouvir os outros, a pessoa gorda precisa ser ouvida, e as marcas plus size não fazem isso. E eu odeio, peguei ranço do termo. Plus size pra mim é o inferno. Porque você acha que é pra gorda e não é. É só a semigorda dizendo que aquilo é o aceitável da sociedade. Isso é o plus size. Minha marca não é plus size e não tem nada a ver com plus size. A  marca plus size não me serve, não tem coisa pra mim.

 

[O Grande Close]: E era a minha próxima pergunta “polêmica”: Gente magra fazendo roupa pra gente gorda, o que você acha?

Aiaiai (risos). Eu falo que não presta gente magra fazendo roupa pra gente gorda. Gente magra em geral não tem a mínima empatia com gente gorda, e eu tenho vários relatos de várias marcas e lojas famosas sobre como essas pessoas são abusivas com gente gorda. Magro só entra em negócio de gordo pra ganhar dinheiro. Porque quer ganhar dinheiro em cima de pessoas gordas. Porque acha que é algo simples. Acha que é algo “ah, vou fazer umas roupas maiores e vou ganhar dinheiro”.

 

[O Grande Close]: E nem pesquisa, né? Simplesmente aumenta o tamanho de uma roupa pequena e… trecho outro

Porque antigamente isso funcionava! Com qualquer pessoa gorda que você converse com mais de trinta anos, essa pessoa vai ser muito mais maleável que uma pessoa de vinte anos. A gorda de trinta e tantos anos tá acostumada, passou uma adolescência que não tinha roupa, e hoje em dia tem aquelas roupinhas mequetrefes e é algo, entendeu?  Só que tem que ver que tem uma geração que chegou e não quer saber dessas roupinhas mequetrefes. Eu tenho amigas, conhecidas, empreendedoras, e que começam a querer dizer que elas fazem coisa pra gordo, mas depois elas percebem que elas não conhecem o corpo gordo, e assim, elas tem uma escolha a fazer, entendeu? Ou elas aproveitam muito o tempo delas na pesquisa, pra pesquisar e descobrir que gente gorda tem especificidades que precisa ter pra coisa ficar confortável, ou elas desistem e vão fazer roupa pra magra, que é coisa que elas sabem. Ninguém usa só uma marca de roupa, e é ridículo você querer usar uma marca só. Eu só uso as minhas lingeries por motivos de: ninguém faz lingerie pra mim. Pode escrever: toda vez que você vê uma marca de lingerie falando que faz pra todos os tamanhos, no Brasil, é mentira. Eu já testei todas e é mentira. Eu ofereço minha ajuda até, eu falo “cara, você quer dicas?”. Porque eu quero que cresça, eu quero que tenha. Só que as pessoas quando se fala nesse negócio de “fazer de todos os tamanhos” elas não tem o tempo da pesquisa, não tem vinte minutos pra conversar com uma pessoa gorda, e aí a gorda que compra, não compra mais. Ou pior ainda: gordas que compram e acham que o errado são elas, entendeu? Elas pensam que o corpo delas é todo errado, porque nem a marca que atende todo mundo consegue me atende-las, sabe? Eu já ouvi vários relatos disso, e é de cortar o coração porque essas pessoas não estão erradas, quem tá errada é a marca.

 

[O Grande Close]: E desde a fundação da F.A.T. você já mudou alguma coisa na sua modelagem ou só o trabalho de pesquisa deu conta?

Assim, eu mudo algumas coisas que é de acordo com o que estão falando. Eu demorei bastante pra acertar certinho os negócios de taça, sabe? Foi muito bom, e eu tive que perceber que o negócio era a diferença do tórax e tal, porque é uma coisa que não tem por aí. E eu fui aprender esses negócios. É a experiência que eu não tinha e que foi melhorando, porque conforto nunca foi o problema. Mas por exemplo, o corpo maior que o meu eu tive que perguntar pras minhas amigas, eu mandava lingerie de graça pras meninas que vestiam mais de 60, pra elas verem se o que eu tava fazendo era o correspondente, sabe? Se não fizer isso não dá certo. Porque a lateral tem que ser bem maior, quanto mais gorda a pessoa maior tem que ser a lateral. Não é nem questão de estética, é questão de machucar a pessoa mesmo. E você tem que ir atrás dessa cliente, e perguntar se deu certo mesmo, e garantir que se algo deu errado ela pode falar que eu mando fazer outra coisa. Tem que se esforçar ao máximo.

 

[O Grande Close]: Mas ninguém faz isso. Ninguém costuma ouvir o cliente.

A primeira coisa que você em qualquer faculdade de carreiras em que você vá trabalhar com público tem umas quinhentas aulas sobre público alvo, sobre como ouvir o cliente. E as pessoas mesmo assim não fazem.

 

[O Grande Close]: E o que você acha que a indústria da moda ainda tem de muita carência pra gente gorda?

Tudo. Estamos em 2016 e o povo ainda tá querendo visual pin up pra gorda. Parem! Chega! Eu não aguento mais! As marcas pra gorda caem ou num clichê escroto ou só atendem até tamanho 50, e falta tudo. Falta peça moderna, falta gente pra trabalhar com jeans, com tudo… Eu posso falar do alto dos meus 128 kg que: não acho que tem nada. Não me serve! As peças de roupa que eu tenho eu comprei fora do país uma vez e são coisas que eu tenho e uso até hoje, pois: não tem outras roupas. As outras ou eu fiz ou eu uso porque não vou jogar meu dinheiro fora, mas não era o que eu pensava que seria. Tem um mercado inteiro a ser explorado. Eu não vou falar que porque uma vez que eu consegui achar uma coisinha que é “nossa que mercado maravilhoso!”. Não é assim. Porque a única vez que eu achei coisas pra mim de verdade foi quando eu fui viajar pra fora, lá em Nova Jersey, porque nem em Nova York… que tem uma Forever 21 a cada esquina, eu achei os plus size em duas lojas. E é uma loja de cinco andares com uma saleta do tamanho da minha sala de casa com umas seis araras de roupas que esgotam rapidão porque a galera vai tudo se matando pra pegar uma roupinha massa. E é isso, até nos Estados Unidos, país com maior quantidade de gordos do mundo! Aqui no Brasil é uma palhaçada, o que estamos fazendo aqui, entendeu? O que estamos debatendo aqui? Eu ainda não tenho capital pra fazer uma C&A pra gordos, entende?

 

[O Grande Close]: Era o que eu ia te perguntar. Você acha que um caminho interessante, caso houvesse recurso, seria a moda pra gordos entrar nessa engrenagem de tendência de moda e se adequar ao que é visto em desfiles e tal, ou você acha que seria mais interessante uma base de produtos “básicos”, que não necessariamente refletissem tendência de moda?

Tem que ter os dois. Magro tem tanto a opção de ter a roupa básica, bem feita, com caimento massa, e dos tamanhos deles, tanto como a tendencinha de moda, até no fast fashion mesmo, uma roupa que vai durar uma semana mas que é barata. O gordo tem que ter essas duas opções. Tinha que ter opções com um corte bonito, alfaiataria com caimento bom, pensado e adaptado para o corpo gordo. Ficar confortável e ficar bom, bonito. BONITO. E a fast fashion também, porque até pra pensar a fast fashion pro gordo tem que entrar na modelagem específica também, não adianta. Não é graduação, de só aumentar os tamanhos, porque os corpos são complexos. Eu até desenvolvi um sistema de modelagem diferente, e as grandes empresas não tem desculpa. Porque é muito simples se você pensa sobre isso. Sério, até se você tem um raciocínio mais lento, uma semana que você dedique a pensar sobre o assunto você descobre como é que se faz uma modelagem industrial pra gordo. E as roupas tem que ter um preço normal também.

 

[O Grande Close]: Exatamente. Vamos falar sobre essa questão do “ter que custar mais porque vai gastar mais pano…”. Eu já ouvi muito isso.

trecho5Uma produtora pequena, que faz tudo ela mesma, que costura ela mesma, e que compra uns tecidos, ela cobrar um pouquinho a mais, uma porcentagem sei lá, de 3% a mais, beleza. Agora se você vem me falar que C&A, que compra tecido na China, que compra fio na China, que compra em quantidades massivas, falar que um metro de pano vai dar alguma diferença no preço final deles, que vai justificar o vestidinho de malha custar 180 reais na C&A, na Renner, na Ashua… Eu vi blogueira grande de moda plus size defendendo e falando que gastava muito mais em linha. LINHA! É ridículo! E se você acha que aumentar, sei lá, quarenta centímetros que seja numa roupa você tenha que usar o dobro do tecido, você não sabe cortar roupas. Na verdade, isso se chama desonestidade, e significa que porque eles querem enfiar a faca nas pessoas gordas e só. Muitas marcas nem fazem roupas pra gordos porque não querem nem conversar com pessoas gordas e nem associar suas imagens a pessoas gordas.

 

[O Grande Close]: Sim, porque gordo não é bonito.

Exatamente, porque gordo não é bonito e porque gordo é doente. Eu acredito que esse é o REAL MOTIVO pras grandes marcas não fazerem. Eles justificam como pano e linha, mas é que eles vão ter que enfrentar duras críticas da sociedade por apoiarem a obesidade. Se você permite que uma pessoa tamanho 60 seja tratada como ser humano normal, você está dizendo que aquilo é aceitável. E se você está dizendo que aquilo é aceitável, você está fazendo apologia a uma doença. E é isso que é o pilar master da gordofobia: não pode ter roupa, não pode ter banco, não pode ter nada porque é uma doença. A moda, tá tudo interligado. Só que está começando uma geração nova que tem que falar “ta bom, se é apologia to fazendo apologia mesmo”. Só que essa geração não incomoda marca grande ainda, essa geração não tem capital ainda, essa geração tá começando só. Isso aí de marcas fazerem ainda é um futuro muito distante ainda.

 

[O Grande Close]: E o pior é que essas marcas continuam faturando com pessoas gordas em acessórios, em perfume, em cosmético, então não tá gerando grande perda em termos monetários não fazer roupa, e não vão fazer justamente por causa dessa questão de imagem, né?

Sim, eles não estão nem aí. Não tá fazendo diferença pra eles. Só que as pessoas gordas poderiam boicotar, sabe? Pra pelo menos não serem idiotas nas marcas plus size. Assim, se é pra comprar alguma coisa na Renner, compre perfume mesmo. Não tem nada na marca nova da Renner (Ashua), a marca nova da Renner nem me serve, então vamos começar por aí.

 

[O Grande Close]: E eu vi muita blogueira elogiando a marca, que inclusive mandou presentes pra todas…

Pois é, “ai gente me mandaram um mimo aqui” (risos). Mas vamos conversar sobre essas blogueiras grandes, porque não tem. Tem blogueiras como a Kalli, do Beleza sem Tamanho, que é minha amiga, mas que nasceu ali desse underground de falar realmente pra pessoas mais gordas e mais velhas, e é aquele papo de pessoa que não se identifica nas marcas mas também não protesta contra, sabe? Mas assim, blogueiras de moda, blogueiras plus size: O que são essas blogueiras? São meninas que na verdade estão na pauta plus size, que é uma coisa muito diferente da pauta gorda. Porque assim, se for pensar elas representam alguém gordo? Se elas fazendo textão defendendo Ashua e essas marcas escrotas, elas estão representando uma pessoa gorda ou elas estão representando uma pessoa que está ganhando jabá pra isso? Ou elas estão representando as gordas que usam 48?

 

[O Grande Close]: Pois é, pra mim pessoalmente eu acho importante a existência das blogueiras gordas pela questão da representatividade, que é um dos primeiros estágios do empoderamento, vamos dizer assim. Só que ao invés de usar essas plataformas que elas ganharam pra protestar e pra militar mesmo pela causa, elas foram pelo mesmo caminho das blogueiras de moda comuns e começaram a se vender por jabá, por permuta… Então desvirtua totalmente… trecho6

Que representatividade que tem? Quem que é gorda ali? Ju Romano não me representa. Não é nem por não gostar dela ou qualquer coisa do tipo, eu acho ela um doce de pessoa. Mas ela é 48, cara. O que ela me representa de corpo? Eu olho pro corpo dela e não me identifico, eu olho pras coisas que ela defende e não me identifico, no que ela me representa ali? Ela representa uma menina 46, 48 que tá nesse patamar de “sou gorda ou não sou?”. E entra nas roupas da Renner e paga uma fortuna. Só que elas não me representam, não tem uma blogueira que eu pense: “nossa, que legal!”. Tinha que ter umas blogueiras gordas mesmo, igual tem na gringa. Blogueira gorda, grande, com muitos seguidores. Pessoas que tenham visibilidade e sejam gordas. Só que não acontece, a galera… sei lá, a que tem sucesso é a menina que veste 50. E muitas delas ainda emagrecem, né? Muitas delas acabam entrando numa fase “no pain, no gain” e fazendo textão com “Antes e Depois” e isso é tóxico demais, meu!

 

[O Grande Close]: Pois é, e eu fiquei tão triste esses tempos com a própria Rebel Wilson que fez aparentemente um publipost de lugar de emagrecimento e falando que perdeu não sei quantos kilos… E poxa, eu gostava dela!ChJd7wYWYAAXkMB.jpg large

Eu já estou naquela fase que eu não gosto de ninguém! (risos) É sério isso. Não me inspira, não penso, não vejo como referência… Porque nesse negócio de militância você tem que ser a sua referência, não adianta. Porque você vai ver aquela pessoa que parece maravilhosa, que se ama… Você vai conhecer a pessoa e ela tá louca pra emagrecer, sabe? Está só esperando uma chancezinha divina de aparecer um shake emagrecedor que queira patrociná-la. O povo se vende por pouco, o povo se vende por nada, tem uma auto estima horrorosa e é uma coisa que eu fico sem esperança na humanidade. Deixa eles emagrecerem mesmo e eu vou ficar gorda aqui.

 

[O Grande Close]: Então vamos deixar a tristeza de lado e focar um pouco no amorzinho. Como é pra você a resposta das suas clientes?

trecho7Ah, é ótima. O máximo, eu acho que é a melhor parte de trabalhar com isso. E ainda é muito pequeno. Eu não aplaudo a minha marca e eu não gosto de gente que fica: “ah, parabéns pela sua marca”. Não é nada contra, mas é uma coisa que pra mim é tão pequena, precisa fazer tanta coisa ainda que fazer o que eu faço é só o básico do mínimo que uma pessoa de 22 anos pode fazer. Mas no campo pessoal pensar que algumas meninas podem ser atingidas e gostar da marca e ter uma lingerie massa e confortável, pra mim é legal, sabe? Eu que tenho planos de crescer, eu tenho muitos planos de crescimento. Mas as clientes são o máximo, são fofas e são um amor. E eu não misturo muito a marca com militância porque marca sempre vai atender também a menina que não está e nem vai estar ligada em militância, entende? Mas penso que alguma coisinha legal eu to fazendo por aí.

 

[O Grande Close]: E o que a gente pode esperar da F.A.T. nos próximos capítulos?

A F.A.T. precisa levantar capital ainda, né? Precisa vender pra levantar capital porque pra fazer coleção de roupa é complicado. Mas estou fazendo uma grande pesquisa pra fazer roupa. Mas tem que começar aos pouquinhos, acho que ainda vai demorar alguns anos pra ter algo que eu ache ok, sabe? A F.A.T. não vai ser só lingerie, não pretendo ser só lingerie, quero ter campanha de roupa, porque roupa é o meu negócio. Tenho planos a curto, médio e longo prazo, quero muito fazer uma coisa um pouco diferente do que está rolando aí.

 

[O Grande Close]: E em relação a mercado, pensando a médio e a longo prazos, você acha que essa concentração em bazares e eventos específicos é bacana ou é só um primeiro passo e o ideal seria um sistema mais amplo de venda e que não fosse tão sazonal?

As pessoas gordas tinham que ter as opções de lojas físicas. Seria legal se as lojas que são virtuais hoje em dia tivessem condições de serem físicas. Porque experimentar é um lance muito importante pra pessoa gorda. Quem nunca comprou aquela roupa na internet e quando chegou era horrível? E se eu tivesse experimentado nada disso teria acontecido. Por enquanto esse negócio de bazares é bacana, só que tem vários problemas. Por exemplo, eu sou de Curitiba, eu vou pra São Paulo no Pop Plus (inclusive dias 18 e 19 de junho acontecerá de novo), vou pro Rio de Janeiro quando tem… Mas assim, quando você é uma marca pequena, não dá pra você fazer todos os bazares e ir pra todos os lugares porque tem todo um custo, sabe? Bazar é uma ideia legal (e bazar é um nome meio assim, né? Agora até mudou, não chama mais bazar). Mas é legal ter, mas seria mais legal se tivessem lojas físicas em todo o país. Mas isso ainda é utopia, porque se não tá dando pra abrir uma loja nem em São Paulo quanto mais no país todo. Tá complicado. Por que as marcas pequenas estão fazendo um trabalho muito mais legal que as grandes, né?

 

[O Grande Close]: Eu acho que pequenos produtores são o motivo da chacoalhada nesse mercado, ainda que pequena.

Sim, só que esse é o problema, eles serem pequenos. O mercado só vai se tocar quando alguma coisa grande acontecer. Porque os pequenos são pequenos. Até aconteceram uns problemas esses tempos que eu comprei numa pequena produtora que ela mesma fazia as roupas, e minha compra foi boa e eu indiquei. Só que ela é pequena produtora, é um ser humano, uma pessoa que vai ter problemas. E logo depois de eu indicar as meninas compraram e algumas tiveram problemas com ela. Ao mesmo tempo em que é legal a diferença, ter roupas legais até o tamanho x, y e z maiores que as marcas grandes, ainda dá muito problema, dá treta, só uma pessoa costurando ela desanima… essas coisas assim. Mercado gordo é um negócio que olha, coitadinho do mercado.

 

[O Grande Close]: Pois é, mas enfim… Na coluna eu tenho recebido muitas respostas inbox e comentários e tal, tanto de pessoas muito mais velhas dizendo “nossa, nunca tinha pensado nisso, e me fez refletir”, como de pessoas muito novinhas, que ainda estão como a gente há muitos anos que ainda achavam normal a patologização dos gordos, e aos poucos vão abrindo a cabeça. Então eu queria que você desse um recado pras pessoas que estão lendo essa entrevista, são gordas e independente da idade estão repensando seu posicionamento no mundo. trecho8

Olha, primeira coisa que eu quero falar é que VOCÊ NÃO É DOENTE. Segunda coisa que eu quero falar: sempre dá tempo. Sempre dá tempo de você ver que a sua vida não é um erro, que não é errado viver do jeito que você vive. É bom, continue lendo e indo atrás de informações. Peguem o que vocês acham de relevante e criem a militância de vocês, criem os seus próprios paradigmas, não fiquem se apoiando no discurso de alguém. Sempre vá atrás de mais, de construir seus próprios conceitos, porque isso é importante. E ajudem a fortalecer mais, né? Ajudem a fortalecer a militância porque tá fraco o negócio.

 

 

[O Grande Close]: Sim. Ai, que maravilhoso, Bee! Você foi a melhor primeira entrevistada da vida!

Ah, obrigada! A melhor primeira vez do mundo (risos).

bee final

 

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.