Não é o coelhinho quem traz seu chocolate, sabia?

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Domingo de Páscoa é a comemoração da ressurreição de Jesus Cristo, mas tem gente que só pensa mesmo é em receber um ovo de chocolate – independente de os preços estarem superfaturados.

Enfim, chocolate é bom e todo mundo gosta, mas nem todo mundo sabe que, bem provavelmente, aquele docinho tão bem vindo, seja qual for à ocasião, é proveniente de trabalho escravo infantil.

O ingrediente essencial de qualquer chocolate é o grão de cacau, que cresce favoravelmente em ambientes de clima tropical, como a África, a Ásia e a América Latina. Os países da África Ocidental, como Costa do Marfim e Gana, são responsáveis por mais de 70% da distribuição mundial do cacau. E os maiores compradores são as principais fabricantes de doces.

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Por trás dessa transação é que se encontra o trabalho infantil, em muitos casos escravo, nas fazendas ocidentais africanas. E você, querendo ou não, está contribuindo para isso. Tudo porque, uma vez que maior demanda faz com que as companhias fabriquem ainda mais chocolates.

Obviamente que essa escravidão não é exposta publicamente – ou, pelo menos, não era! Em 2004, o jornalista franco-canadense Guy-André Kieffer decidiu investigar tais suposições e acabou sendo sequestrado no estacionamento de um shopping em Abidjan. Desde então, nunca mais foi visto.

Seu desaparecimento chamou a atenção da mídia internacional para a investigação da ilegalidade da indústria do cacau na África. Em 2010, as autoridades do governo da Costa do Marfim detiveram outros três jornalistas após a publicação de matérias que expunham a corrupção do setor de cacau.

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E foi então que veio ao público a informação de que fabricantes mundialmente conhecidas, como Hershey’s, Mars e Nestlé, estavam diretamente envolvidas com trabalho infantil, tráfico humano e escravidão.

Para atender seus consumidores chocólatras, as empresas demandam por cacau mais barato. Isso faz com que fazendeiros de cacau recebam menos de US$2 por dia pelo fornecimento – valor muito abaixo da linha de pobreza. Para manter a competitividade e realizar o fornecimento da matéria prima, a alternativa é recorrer ao trabalho escravo.

Algumas crianças se submetem às condições para poderem se alimentar, enquanto outras sequer têm a opção de escolha; são vendidas aos traficantes ou fazendeiros pela própria família – especialmente em Burkina Faso e Mali, dois dos países mais pobres do mundo.

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A idade média dessas crianças é entre 12 e 16 anos, mas jornalistas já chegaram a encontrar menores de cinco anos trabalhando ativamente na produção de cacau. Algumas delas aguentam o serviço por apenas alguns meses, enquanto as que foram comercializadas são sujeitas à escravidão por toda a vida.

A rotina puxada começa às 6h e segue até o entardecer. Os pequenos usam enxadas para limpar as florestas e escalam as árvores de cacau para cortar os grãos com machete. Então carregam sacos de mais de 45kg de colheita de volta à fazenda.

Aly Diabate, uma ex-escrava do cacau, declarou em depoimento à organização Food is Power: ‘Alguns desses sacos eram maiores que eu. Precisava que duas pessoas os levantassem para coloca-los em minha cabeça. E quando não conseguíamos carregar, éramos espancados’.

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Não à toa que cicatrizes nas mãos, braços, pernas e ombros sejam recorrentes (e permanentes) nas crianças escravas. Algumas sofrem ainda de problemas respiratórios, decorrentes da exposição aos agrotóxicos utilizados nos cultivos da África Ocidental.

Costa do Marfim e Gana, por exemplo, têm proliferação constante de insetos, fazendo com que os fazendeiros recorram às constantes borrifadas de spray químico para deter as pragas.

Os pequenos escravos não têm acesso à água limpa ou sanitários. 10% das crianças trabalhadoras de Gana e 40% das da Costa do Marfim não vão à escola. Privadas da educação, essas crianças têm pouquíssimas oportunidades de se livrarem do círculo de pobreza.

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‘Espancamentos fizeram parte da minha vida. Vi muita gente que tentava fugir, mas acabava sendo pega. Quando detidos, apanhavam severamente’, relembrou Aly.

Outro ex-escravo liberto, Drissa, que apesar de ter passado anos colhendo cacau jamais provou um chocolate, declarou: ‘Quando as pessoas comem chocolate, elas estão, na verdade, comendo minha carne’.

Faturando cerca de US$60 bilhões anuais, essas companhias têm poder para extinguir a escravidão e o trabalho infantil de modo geral pagando valores justos aos fazendeiros pelos produtos adquiridos.

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Com a revelação da precariedade e abuso vindo ao público, autoridades passaram a cobrar o desenvolvimento e suporte financeiro de programas para recuperar e reabilitar crianças vendidas aos fazendeiros de cacau.

Através da fiscalização, as marcas têm de disponibilizar a proveniência do cacau utilizado na fabricação de seus chocolates para, assim, obterem selos de reconhecimento (como o Rainforest Alliance Certification). Tal informação tem de ser concedida também aos consumidores – não necessariamente na embalagem, mas pelo menos via central de atendimento ao cliente.

Contudo, são centenas de empresas com nome na lista de não recomendadas pela Food is Power. Dentre elas, além das já citadas anteriormente, estão também a Dr. Oetker, Lindt e Starbucks.

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Por mais que as medidas preventivas sejam tomadas por organizações não governamentais engajadas na causa, nem mesmo a certificação garante com propriedade que as companhias realmente utilizem cacau não proveniente de trabalho infantil e/ou escravo.

Em 2011, um jornalista dinamarquês se infiltrou nas fazendas da África Ocidental e registrou inúmeros casos de trabalho ilegal infantil, inclusive de localidades que fornecem produto a algumas empresas certificadas pela Rainforest.

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Você pode fazer sua parte nessa luta contra a escravidão do cacau e não precisa abdicar do chocolate. O primeiro passo é listar as marcas que mais consome e contatá-las para saber a origem dos grãos utilizados em suas produções. Caso a empresa não tenha ou se recuse a fornecer tais informações, cabe a você decidir se vale a pena continuar a investir seu dinheiro nela.

Outra opção é recorrer aos fabricantes que utilizam cacau orgânico e certificado na confecção dos doces. No mais, lembre-se que o chocolate é considerado um ‘artigo de luxo’. É gostoso, sim, mas não essencial feito às frutas e os vegetais. Pese suas escolhas, consuma conscientemente!

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Adele Grandis: Taurina com ascendente em touro - isso explica muita coisa!