Safira Bengell: a trajetória de luta e ascensão de uma bandeirante nordestina

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Em um país sem memória feito o nosso, grandes precursores representantes do movimento LGBT, infelizmente, caem no esquecimento coletivo. No que diz respeito aos transexuais, por exemplo, a mídia popular acaba recorrendo sempre aos mesmos nomes já conhecidos quando a pauta foca a abordagem de temáticas queer. A sede de audiência em nada favorece recuperar a história daquelas que têm muito a dizer. Indo na contramão, perfilamos uma personalidade pouco conhecida pelas gerações atuais e que batalhou e segue em luta pela igualdade de direito de suas semelhantes. É com enorme prazer que (re)apresentamos a vocês Safira Bengell.

Com 57 anos de vida e 37 de ativismo artístico e cultural, a piauiense fora filha única e adotiva que sentiu na pele os preconceitos sociais desde a infância e dentro da própria família. O pai, ressentido por não ter filhos biológicos, ficou ainda mais descontente ao perceber em seu menino uma feminilidade exacerbada. Sem saber lidar com as cobranças familiares ao respeito da identidade do garoto, encaminhou-o para o sanatório e, ao completar 18 anos, uma passagem apenas de ida para o Rio de Janeiro, para viver com uma prima.

Não bastasse o sofrimento psicológico enfrentado quando criança e o exílio familiar, a recepção na nova cidade não foi nada calorosa. Mal se deu sua estadia, a prima lhe expulsou de casa por ser afeminada demais. E nas ruas é que surgiu Safira, nome de pedra preciosa, diferentão à época. Uma exteriorização das fantasias recolhidas ao peito, um reflexo da urgência pela atenção que jamais recebera.

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O destino a levou à Lapa e o Cabaret Casanova foi o palco de sua estreia. Safira, que se achava feia – o que não é de se surpreender uma vez que sua estima fora tão danificada ao longo dos poucos anos de vida – iniciou na carreira de transformista como cover de Maria Alcina. Em plena década de 70, quando performistas eram ícones de glamour, ela conquistou seu espaço e finalmente encontrou o caminho que merecia trilhar.

Antes disso, porém, foi copeira, faxineira e garoto de mandados do baixo meretrício Estácio, o que lhe garantia um lugar no chão para dormir na casa da cafetina; uma professora aposentada.

Performando, viajou pelos quatro cantos do país acompanhada de uma trupe de artistas em uma época de ouro das casas noturnas brasileiras. Seu reconhecimento à época era tamanho que quando a Nova Constituição Brasileira foi oficializada, em 1988, Safira foi convidada para dar seu parecer sobre o que os artistas esperavam dela, diretamente de Brasília.

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O Brasil ficou pequeno para seu talento, veio então um tour de espetáculos pela Europa. Estabeleceu-se na Itália, onde inaugurou a American Disaster, primeira casa italiana de shows de travestis. Ativista, artista e empreendedora de renome por lá, foi uma das primeiras transexuais brasileiras a ter passaporte italiano.

No país, conseguiu toda a atenção dos holofotes. Fez cinema, teatro e televisão. Apresentou a Parada Gay de Roma, foi convidada para o Tele Gato (o Oscar da TV italiana), desfilou para Chiara Boni e D&G, foi musa do renomado fotógrafo Sergio Caminata…

Safira brilhava no entretenimento, mas sentia falta de um ‘cobertor de orelha’ e quando estava colocando um anúncio no jornal à procura de um marido, acabou pegando carona com um marechal do exército da Europa, o italiano Gian Luigi, e nunca mais se largaram. São 23 anos de união.

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Juraram amor eterno na casa de Romeu & Julieta, em Verona, casaram legalmente por lá e em fevereiro oficializaram a relação também no Brasil – com direito a troca de aliança e tudo. Apaixonados por animais e natureza, os dois não têm filhos até o momento (pretendem adotar em breve), enquanto isso, vivem com cachorros, gatos e um papagaio.

Após anos na Itália, Safira retornou ao Brasil para cuidar da mãe que ficou viúva. O choque de saber ainda criança que era adotava e a recusa na aceitação de sua identidade não fez dela uma pessoa rancorosa, muito pelo contrário. Sempre admirou os pais pela coragem que tiveram e se fez presente quando possível.

Por aqui, voltou-se ainda mais ao engajamento nas causas em prol dos LGBTs, especialmente dos transexuais. Formada em Cinema, TV e Teatro na Europa, adicionou mais um curso ao currículo, graduando-se em Recursos Humanos.

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A primeira artista transformista brasileira a mudar o nome no registro civil hoje quer pressionar o governo e conscientizar a população sobre a necessidade real de visibilidade aos transexuais. Sua luta, inclusive, tem foco especial na discriminação regional, através da bandeira do bem estar da população como um todo.

Sem papas na língua – e inclusive graças ao fato de se expor sem receios, conquistou o cargo de supervisora das Casas de Cultura (FUNDAC) durante a última gestão do governo do Piauí. Durante uma sessão solene na Assembleia Legislativa, questionou a ausência de travestis e transexuais dentro do poder público, em outros órgãos e no mercado de trabalho e recebeu o convite para supervisionar o FUNDAC.

Seu ativismo, aliás, é o que mais se orgulha. Foi seu pensamento no coletivo que lhe rendeu inúmeros prêmios e a honra em ser a primeira atriz transformista brasileira a receber uma comenda de um Governo de Estado.

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Em 2015, foi premiada como Personalidade Nacional pelo Movimento Nacional Direitos Humanos em reconhecimento aos 37 anos de luta. Em Teresina, sua cidade natal, articulou à criação do Conselho Municipal LGBT e comanda trabalho pioneiro no combate, prevenção e tratamento de Aids e outras DSTs.

No que diz respeito à nova geração de transformitas, Safira considera a famigerada RuPaul boa fonte de inspiração. As duas se conheceram durante uma edição do Festival de San Remo, na Itália e a brasileira é só elogios à carreira e profissionalismo da americana.

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No entanto, acredita que aos jovens ainda falta maior engajamento político na luta pelo movimento LGBT, especialmente no que diz respeito a nossa Parada Gay – foi uma das homenageadas da edição 2012 de SP: ‘Poucas pessoas são politizadas, nem sabem por que estão nas paradas. Penso que parada deve ser feita sem musica, somente caminhando com faixas, sem fantasias. A sociedade pensa que vivemos em um mundo mágico, de plumas, paetês e que nossa vida é um paraíso. As paradas viraram um carnaval fora de época. O cunho politico está pouco presente. Cada uma quer brilhar mais que a outra e competir quem vai apresentar a parada e satisfazer seu ego. Com isso, as empresas ganham dinheiro e os LGBTs não ganham nada. Não sou contra a parada, mas como vem sendo proposta. Falta muita identidade politica’.

Fica a dica de quem muito batalhou até conseguir o respeito, identidade e espaço que merecia sempre ter tido. Eis Safira Bangell, àquela que você talvez não conhecesse, mas que agora certamente servirá de referência e inspiração. Somos só aplausos!

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Adele Grandis: Taurina com ascendente em touro - isso explica muita coisa!