Vale a pena assistir Gaycation?

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Em 2014, quando estava filmando ‘Freeheld’, Ellen Page marcou presença em conferência promovida para dar apoio a jovens gays, em Las Vegas e assumiu publicamente sua homossexualidade. Recentemente, em entrevista a revista ‘Out’, a canadense revelou que o enredo do longa fora seu maior incentivo. Na história, ela fora Staci Andree, par romântico de Julianne Moore, que interpretara Laurel Hester, uma detetive policial que é diagnosticada com câncer terminal e luta na justiça para que a companheira possa receber sua pensão.

Desde então, a atriz tem militado com frequência em prol das causas LGBT. Seu último projeto, a série documental ‘Gaycation’, acaba de estrear. Com produção assinada pela Viceland, a ideia consiste em retratar a cultura queer ao redor do mundo. O primeiro episódio foi focado no Japão, o segundo no Brasil. O próximo, que vai ao ar à semana que vem, destina-se à Jamaica.

Quem acompanha a atriz nessa imersão é seu melhor amigo, Ian Daniel, que também é homossexual. Assídua por programas de viagens, Ellen teve a ideia de produzir seu próprio documentário do gênero, voltado aos viajantes LGBT, justamente pensando na falta de atrações do gênero destinada a tal público.

Com pouco mais de 40 minutos de duração, cada episódio é publicado na rede às quartas-feiras, em inglês, disponível para streaming gratuito. O roteiro mescla dicas culturais com entrevistas de personas locais ligadas, de alguma maneira, à temática gay.

Ellen e Ian são extremamente respeitosos com aqueles que se dispõem a compartilhar seus depoimentos e estilos de vida, pouco intervêm – mesmo quando extremamente opostos àquilo que estão vivenciando. Ela, contudo, deixa transparecer demasiadamente suas emoções, soltando o choro em diversos momentos, em todas as locações. O que de certo modo traz um pouco de humanidade à série, que para dar conta de apresentar tanto conteúdo, acaba tendo uma edição um tanto quanto seca e rápida demais.

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No Japão, passearam por Ni-chōme, distrito gay de Tóquio e apresentam aos expectadores o Yo Chan Chi (menor bar gay do país), Cholesterol (um pub onde o proprietário vende réplicas de sua própria boca como vibrador masculino), Goldfinger (um point lésbico fervido) e Onna No Ko Café (um cantinho escondido e particular voltado aos cross-dressers).

Os amigos também visitaram a maior livraria de quadrinhos, que conta com uma vasta sessão de mangás homossexuais, consumidos em sua maioria por mulheres heterossexuais. A fim de compreender o interesse delas por tal conteúdo, a dupla bateu um papo com duas garotas que consomem áudio books de mangás gays – ouvindo-os escondido em karaokês pela cidade.

Depois conversam com um casal de advogados especializado nos direitos civis dos LGBTs. Por lá, casais homossexuais não têm direitos uma vez que são completamente ignorados pela sociedade. O tratamento tão ‘respeitoso’ dos orientais consiste basicamente em não fazer perguntas e nem comentários sobre a vida pessoal de ninguém.

Os gays existem, claro, mas encontram seus lugares escondidinhos no submundo, onde podem ser o que bem entenderem quando o sol se põe e a lua é que ilumina. Durante o dia, agem todos com ar de pouco interesse à vida pessoal alheia.

O duo esteve ainda em um Kyoto, em um templo budista no qual os homossexuais podem realizar cerimônias simbólicas de casamento – considerando que, perante a lei, a união homoafetiva é proibida.

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Kanako Otsuji, a primeira lésbica assumida eleita para um cargo político no Japão, também os recebeu e explicou que em um país onde a homofobia é invisível, a luta tem de ser em silêncio. O tradicionalismo e a cultura da vergonha são tão enraizados na sociedade japonesa, que dificulta a exposição homossexual de forma mais ativa.

O episódio é finalizado com um jovem que vive sozinho, tem um namorado, mas não revelou à família suas preferências sexuais. Então ele contrata o serviço da Family Romance – que consiste no aluguel de ‘amigos’ para momentos mais emotivos, como casamentos, funerais ou mesmo um ombro amigo (que custa US$33 a hora) para confortar na hora de revelar à mãe a homossexualidade.

Em choque com a revelação do filho, a senhorinha sai de cena, o amigo pago a segue, conversa um pouquinho e logo em seguida ela retorna à casa do filho para se desculpar e dizer que o importante é que ele fique bem com sua condição de vida, independente da opinião dela.

Num país no qual as pessoas sentem que seus corpos pertencem à sociedade e que questões religiosas não têm influência na política, aceitar e compreender a homossexualidade já é um grande passo.

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Partindo do Japão, Ellen e Ian chegam ao Brasil, mais precisamente em Ipanema, no Rio de Janeiro, em pleno Carnaval. O episódio começa enfatizando a quantidade de turistas que recebemos anualmente, justamente perlo farto mercado LGBT, a associação que temos em sermos mais abertos e tolerantes e o contraposto de sermos o país que mais mata homossexuais no mundo!

Na Sapucaí, durante a festividade, mulheres seminuas, exaltando sensualidade e sexualidade. Nas celebrações de rua, homens vestidos de mulher com cerveja em mãos e samba no pé. Os desavisados podem até pensar que o povo brasileiro é o mais gay friendly do mundo – só que não.

Então Ellen recorre à amiga Ana Rezende, do grupo Cansei de Ser Sexy – lésbica e brasileira, para saber como as coisas rolam por aqui a parte as festas. A música lhe explica sobre a influência da bancada evangélica x a luta constante dos homossexuais por seus direitos civis.

Jean Willys segue o mesmo discurso, enfatizando que o fundamentalismo cristão associa a homossexualidade ao pecado e isso contribui – e muito! – para que nossa sociedade se identifique mais com discursos similares ao de Jair Bolsonaro do que com os pedidos da comunidade LGBT por igualdade.

Conversando com os cariocas, a dupla compila diversos depoimentos sobre nossa visão no que diz respeito aos gays. E assim chegam às redlights da Lapa para retratar o universo das transexuais profissionais do sexo. Conhecem Luana Muniz, travesti que abriu uma organização para abrigar e dar suporte a essas meninas – uma cafetina à moda antiga.

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Eis que Jair Bolsonaro entra em cena, com seu sorriso largo, discordando da associação à homofobia, justificando que apenas discorda da distribuição do material escolar de educação sexual para crianças a partir de seis anos de idade.

Ellen pouco fala, limitando-se a questionar seu posicionamento. Quando pergunta se ele realmente pensa que é melhor que um filho morra a ser homossexual, Bolsonaro a canta e enfatiza que a seu ver a homossexualidade foge da normalidade, uma vez que casais gays não geram filhos.

A atriz repete a pergunta. Faltou ai um jogo de cintura para abordá-lo de outra maneira. E casais que, por alguma razão fisiológica, mesmo sendo heterossexuais, não podem ter filhos, também são aberrações? Uma pergunta que seria bastante conveniente. Ela, no entanto, encerrou a conversa explicando que sua intenção não é transformar as pessoas em gays, apenas informa-las para que não hajam mais mortes desnecessárias relacionadas às preferências e identidades sexuais de cada um.

Por fim, os amigos se encontram com El Grande, um policial aposentado que passou a assassinar gays após pegar seu filho com outro homem. O rapaz mudou de cidade e eles não se falam mais, mas sua homossexualidade despertou no pai tal fúria, que mesmo retirado ele segue matando gays com o intuito de ‘limpar o que está sujo e é pior que lixo’.

Perplexos, Ellen e Ian revelam ser homossexuais e perguntam se o mundo seria melhor sem eles. A resposta? ‘Não gosto. Não aceito. E não entra na minha cabeça. Agora estamos cada um no seu canto, mas se cruzam meu caminho… […] Estou falando coisas que não se fala publicamente para que saibam que existe muita gente como eu, matando vocês’.

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São Paulo poderia ser melhor explorada. O único retrato feito na cidade é uma entrevista com a atriz e modelo Carol Marra, protagonista do primeiro beijo trans da televisão brasileira.

De um modo geral, a conclusão é que trivialidades como homens se vestindo de mulher no Carnaval é mais questão de tradição que sinônimo de tolerância. Somos intolerantes e agressivos por questões culturais e educacionais, além da influência cristã, que faz uso do exorcismo para livrar as pessoas da ‘aberração’.

O próximo destino da dupla é a Jamaica, onde os amigos irão mostrar como é a realidade dos jovens homossexuais sem teto e a discrepância dos gays ricos que podem criar uma vida de privilégios graças ao dinheiro que têm.

Ainda para a ‘Out’, Ellen revelou que a principal diferença é basicamente como a homofobia se manifesta em cada país, mas espera que a sociedade, como um todo, adapte-se à aceitação do óbvio: gays existem e não escolheram ser homossexuais, apenas o são.

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Adele Grandis: Taurina com ascendente em touro - isso explica muita coisa!