A esquerda nunca vence.

Sexta, dia 4, foi um daqueles dias que a enxurrada de absurdos que o país te presenteia faz com que a gente se sinta meio que na obrigação de repensar a macropolítica. E eu vou aqui experimentar um pouco da antiga dicotomia esquerdaXdireita, mesmo que no Brasil essa coisa seja um pouco complicada. Ah, como o título já diz: a esquerda nunca, em nenhuma hipótese, vai vencer. Vitoriosa, não é bem como a esquerda se mantém.

Primeiro, deixa eu dizer como eu entendo a esquerda. A esquerda é popular, no caráter de estar preocupada com o povo. E povo é toda a gente, que tem o interesse comum de ir e vir, se alimentar, se apaixonar (ou não) sem medo, manter a integridade física, ter possibilidade de trabalhar e de se educar (não apenas instruir), acessar cultura e arte da forma que assim desejar, ter (ou não) filhotes. E dormir sabendo que não existem pelo menos 50 instituições públicas e privadas perdendo o sono pra descobrir como te tirar um ou todos esses interesses, para ter acesso ao dinheiro do povo que – pasmem – é determinante para que tudo isso se concretize. A direita são essas pessoas que não dormem para comer seu dinheiro e ter, para si, todos esses interesses do povo, fazendo com que se tornem luxos e mimos.

Ah, a esquerda também é feminista, a esquerda tem pautas de direitos humanos, é contra o racismo e a homo-lesbo-bi-transfobia, porque entende que mulheres, diferentes etnias, LGBTs são parte do povo com os interesses ali de cima, e não que podem ser compradores em potencial – portanto cidadãos – e por isso precisam ser mantidas vivas. Há uma diferença gritante aí. A direita não é o povo, a direita são instituições compostas por algumas pessoas que se beneficiam de não permitir que a esquerda se concretize como fato, mas apenas desejo. E, portanto, o povo não é de direita. O povo é massa de manobra da direita, engrenagens de um mecanismo que lhes faz apenas mal, mas para o qual são treinados e convencidos a girar e girar, trabalhando corretamente contra si. Mais ou menos como um sabonete que não vê problema em ficar gasto até ser largado junto com os outros cotocos de sabonete na pia do banheiro. A esquerda é gente. A direita, é coisa.

Laerte Coutinho – Folha de São Paulo 10 de março de 2015

A esquerda não comemora que seus inimigos – ou até pessoas com quem não vão muito com a cara – são presos, destratados ou coagidos fora dos caracteres da lei, porque sabem perfeitamente como é ser presa, destratada e coagida fora dos caracteres da lei diariamente em cidades feitas para não-povo. A esquerda também sabe que a lei, como criada por instituições, é um artifício interessante para tentar fazer com que as instituições se mordam, porém sem ter certeza de que vai funcionar do jeito que deveria. Os motivos sabemos, são vários. Por exemplo: as instituições são donas da lei e não gostam lá muito de se morder. Mas precisam de vez em quando, ou a esquerda ganha. Ganha, mas não vence.

Por que então eu estou aqui afirmando que a esquerda não vence? Porque ela só “ganha”. Ganha pequenas batalhas, faz com que as instituições se mordam um pouquinho, consegue fazer com que parte do povo tenha acesso àqueles interesses de forma módica, por algum tempo (até a direita lembrar que, se tirar o dinheiro, tira do povo a condição de pessoa). A esquerda não vence, porque quando ela se torna instituição – leia aqui, Estado – deixa de ser esquerda e passa a ser mais um mecanismo da direita. Pode ser um mecanismo teimoso, que faz jogo duro, que permite mais “mau-funcionamentos” das outras instituições da direita. Só que ainda é coisa e não gente. E coisa não é, nunca, de esquerda. De esquerda é gente. E gente, nunca vence. Gente sobrevive. Gente batalha. Gente sangra. Gente resiste. Gente atrapalha. Gente transforma. Gente transtorna. Gente perdoa. Gente ama. Gente põe a cara no sol. Gente ajuda.

Reprodução: http://1964-dictature-bresilienne.ehess.fr/2014/05/28/

Você pode achar esse texto pessimista. Ok, talvez seja. Eu prefiro ver assim: há sempre uma esperança no meio dos massacres diários. Enquanto tivermos gente, vamos ter respiros de esquerda. Não precisa ser “o partido da esquerda” falando, mas nas nossas práticas, nos nossos movimentos e nos nossos desejos. Os “partidos de esquerda” vão sempre tentar distorcer as instituições de direita, e dar ao povo aquilo que a direita pegou pra si, mas sempre com pouco sucesso. O que é uma afronta para a direita e, pasmem, para os mecanismos pobres da direita, que se matam de trabalhar por ela. Nós, gente, vamos seguir incomodando e dificultando a direita-coisa, e há muita diversão nesse processo. E muita dor, claro. Quem sabe é uma escolha: A comodidade de ser mecanismo passivo-pacífico, ou uma pedrinha que entorna engrenagens? Ganhar no meio de derrotas diárias, ou fingir que é um vencedor porque está de carro?

Deixa eu te contar uma coisa na conclusão desses pensamentos: A esquerda nunca vence, mas tem uma vantagem enorme sobre a direita: a direita não sabe perder.

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Melissa L'Orange é drag queen, nerd, professora, escritora amadora, jogadora de LoL sofredora. Toda natural, bonita pra caramba, peito duro sem estria e carro zero.