O que você tem a ver com o #DesafioDaMaternidade?

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Ao mesmo tempo em que as redes sociais são de extrema valia e utilidade no que diz respeito à comunicação e disseminação de informações, vez ou outra pipocam questionários e desafios que nos remetem à época na qual a gente respondia ao caderninho de perguntas dos coleguinhas da escola.

As pessoas aderem às tendências numa urgência de compartilharem suas respostas, como se fosse uma exteriorização de suas carências em busca por likes consoladores. Qualquer bobagem viraliza, todos querem participar.

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O problema nisso é que cada vez tem mais gente falando e menos escutando, é difícil encontrarmos democracia virtual; quem escreve qualquer coisa nem sempre está aberto às opiniões divergentes das suas e quem lê algo que discorda se mune do falso anonimato e distanciamento online para fazer julgamentos sem filtros. Tudo isso acontece num piscar de olhos, sem tempo para uma revisão de leitura de qualquer conteúdo.

O #DesafioDaMaternidade é a última tendência no Facebook. Iniciada nos Estados Unidos, a novidade ganhou versão brasileira na segunda semana de fevereiro. A proposta é a seguinte: mães desafiam suas amigas que também têm filhos a publicarem três fotos que ilustrem as maravilhas da maternidade. Fofo, não? Quer coisa mais ‘mãe’ que expor na rede a bela prole legendada por uma declaração de amor coruja?

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A questão é que os tempos mudaram e a mulher não está mais predestinada única e exclusivamente à maternidade, como era comum de se ver até meados da década de 50. No Brasil, por exemplo, duas em cada dez famílias não têm filhos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Quem são essas famílias? Casais heterossexuais que optaram por não gerar uma vida, casais heterossexuais que adorariam parir um bebê – mas que, infelizmente, não conseguem por questões biológicas/fisiológicas, casais homossexuais que estão de boa sendo um par, casais homossexuais que sonham com uma criança – mas têm de enfrentar todo nosso sistema falho e burocrático na espera de uma fila de adoção, pessoas que convivem sob o mesmo teto – tendo ou não ligação consanguínea – e que se definem familiares pela ligação que têm, independente de filhos.

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Apesar disso, a maternidade não é uma questão livre e simplesmente de escolha, no Brasil. Somos pressionadas a parir: pelos familiares que mantém a cultura enraizada de que eis um papel a ser cumprido por toda mulher, pela mídia com pressão e inverdade que nos vende cotidianamente um ideal surreal de felicidade através da construção da família padrão e, especialmente, pelo Legislativo, que não nos permite a opção de interromper uma gestação indesejada – ABORTO!

Então, parimos. E qual a sensação disso quando se vive no país onde vivemos? Que ao dar à luz nos transformarmos na famosa PUTA QUE O PARIU. Porque é exatamente dessa forma que passamos a ser tratadas, um corpo comercializado, um corpo que não mais nos pertence, um corpo que por mais que dê o melhor de si, no fim das contas, vai ouvir xingamentos e ofensas das mais cabeludas.

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Mas mulheres têm de provar sua força. Junte a vontade/necessidade feminina de sobreviver em uma sociedade tão cruel + o famigerado instinto maternal e você terá… uma pessoa que não vive, apenas sobrevive. Esqueça o cor de rosa, a musiquinha animada da propaganda de margarina, o maridão que sempre coopera, a imagem de mãe sorridente pelo magnífico fato de ter gerado uma vida, um milagre de Deus! Deus entra em cena também. A religião faz parte do time que nos pressiona a parir.

De acordo com o levantamento Progresso das Mulheres no Mundo 2015-2016, elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU), as mulheres ainda fazem quase duas vezes e meia mais trabalho doméstico e de cuidados com os filhos e filhas que seus companheiros. Só que não há muito espaço ao debate do feminismo quando estamos lidando com uma situação tão machista. E isso é curioso, não? Afinal de contas, é a mulher quem pari, esta deveria ser uma questão feminina, mas não é.

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Sendo assim, deveríamos, uma vez que nosso país se diz democrático pela Constituição, ao menos receber as publicações referentes ao Desafio da Maternidade, com tolerância e respeito. Porém isso também não acontece. Vai você ser desafiada por uma amiga e não responder ao questionário. Faça o teste e veja quanto tempo ela irá demorar a perguntar a razão de você ainda não tê-lo aceitado. Vai você aceitar, despir-se de qualquer julgamento e ser verdadeira em compartilhar mais dores do que delícias referentes a parir.

Mãe de primeira viagem, a dona de casa Juliana Reis, de 25 anos, foi íntegra assim e, como resultado, acabou sendo bloqueada pelo Facebook. Em sua postagem, ela escreveu: ‘Quero deixar bem claro que amo meu filho, mas odeio ser mãe’. Dois dias e muitos compartilhamentos e insultos de desconhecidos depois, a própria rede a baniu por conta das denúncias que seu perfil havia recebido.

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Quem também se mostrou integrante do time de mães sobrecarregadas, porém dispostas a conversar sobre as dificuldades da maternidade contemporânea foi a apresentadora Luísa Mell – esta, contudo, não sofreu penitências de Mark Zuckerberg.

A intolerância digital é um reflexo da falta de informação e educação dos brasileiros. Somos intolerantes, burros, preconceituosos e essencialmente teimosos – uma vez que não nos permitimos sequer dialogar. Não estar de acordo com a opinião de alguém é absolutamente normal, mas usar de injustiças sociais para demonstrar uma opinião sem fundamentos é triste, muito triste, porque demonstra a conivência com nosso sistema falho.

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Deixemos de lado as questões pessoais de cada mãe que genuinamente compartilha seus sofrimentos e nos voltemos às questões gerais no que diz respeito a gerar uma vida. Primeiramente, o aborto é uma questão de saúde pública e sua legalização deveria ser considerada de maneira laica (lembrando que legalizar não tem NADA A VER com incentivar). Segundo, esta teria de ser uma decisão pessoal e intransferível (que não caberia a ninguém, além da própria mulher e/ou casal optar ou não pela maternidade). Terceiro, o sistema de saúde brasileiro – como um todo, público ou privado – é despreparado para acompanhar verdadeiramente uma gestação, dando o real suporte que uma gestante necessita (vide o tabu em torno do parto normal).

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E como nossa única opção é PARIR, parimos! Parimos um filho em um país onde a educação é falha, onde não há saúde, onde a corrupção rola solta, onde os índices de violência são absurdos, onde a sociedade é machista, onde só é cidadão quem pode bancar financeiramente sua dignidade, onde não existe liberdade de expressão, onde seu corpo não é seu.

Então parimos! E nossa licença maternidade é ridícula, o aleitamento materno é considerado pornográfico, o homem não assume suas responsabilidades como pai porque o bebê é apegado à mãe, somos cobradas para emagrecer e recuperar a forma física, em todo e qualquer lugar que se vá terá alguém lhe apontando o quão você é uma péssima mãe – independente do que você faça.

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Se fossemos inteligente de fato, teríamos conhecimento do poder que a internet nos proporciona, saberíamos pensar de forma coletiva e consideraríamos o fato de usar um simples desafio para propor mudanças políticas, para pressionar positivamente nosso governo em prol das necessidades urgentes dos brasileiros – mulheres e homens – mas somos ignóbeis. Lavamos nossas mãos, atiramos as pedras esquecendo-se dos nossos próprios tetos de vidro.

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Enfim, em alguns lugares, ser mãe é padecer no paraíso. Aqui é ser Amélia, Emilia, Geni, Silvia…

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Adele Grandis: Taurina com ascendente em touro - isso explica muita coisa!