Muito além do Oscar: mulheres querem é espaço e reconhecimento no cinema

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Dia desses ouvi um comentário um tanto quanto parvo, por assim dizer; uma pessoa dizendo ser bobagem ‘essas atrizes hollywoodianas reclamarem à toa pela diferença salarial’, uma vez que recebem milhões por filme estrelado. E dai que cada produção realizada é quase como um prêmio da Megasena? O funcionamento lucrativo da indústria nada tem a ver com a discrepância significativa entre os salários de homens e mulheres, independente de suas áreas de atuação.

Mas vamos voltar nossas atenções ao cenário das estrelas mesmo – vai que, assim, a galera entende um pouco melhor como as coisas são de fato, né? Até porque, não é uma questão que trata apenas de dinheiro, infelizmente. Como se não bastasse receber menos, a vida profissional da mulher é desvalorizada em outros aspectos também. Em 2013, inclusive, a New York Film Academy apresentou um levantamento sobre o assunto com foco nas produções realizadas em solo americano.

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Dos 500 filmes mais assistidos entre os anos de 2007 e 2012, 30,8% tinham personagens femininas com falas, 28,8% das mulheres em cena estavam usando trajes sensuais (contra apenas 7% dos homens), 26,2% das atrizes apareceram parcialmente nuas (enquanto 9,4% dos atores encenaram assim) e apenas 10,7% dos filmes tinha um elenco balanceado com personagens femininos e masculinos.

Ou seja, muito além da questão salarial está a forma como a mulher é exposta e interpretada em suas funções: há a sexualização de seus cargos! A submissão, a omissão e a sexualidade são fatores recorrentes enfrentados pela mulher no mercado de trabalho. Será que apenas em Hollywood é assim? Obviamente que não, mas usar as famosas como exemplo chama mais atenção, vamos seguindo por esta linha então.

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Ainda nessas produções analisadas, para cada atriz em cena existia 2.25 atores em atuação. 1/3 das personagens eram sexualizadas ou apareciam seminuas. O número de filmes voltados ao mercado adolescente também aumentou em 32,5% suas cenas de nudez em questão de cinco anos. E 50% do público que foi ao cinema assistir a esses filmes é feminino. Qual a reação dessas mulheres ao verem suas semelhantes expostas de tal forma na grande tela?

Agora tirando um pouco as estrelas do foco e voltando as atenções ao staff da produção como um todo, existem 5 homens para cada mulher na carreira. 34,5% das diretoras realizaram documentários e 16,9% filmes de ficção com narrativa. Hoje temos apenas 9% diretoras (contra 91% diretores), 15% escritoras (versus 85% escritores), 17% produtoras executivas (contra 83% de homens na função), 25% produtoras (versus 75% de homens no cargo) e 20% editoras (conta 80% editores).

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Quando o assunto é o salário em si, a lista da Forbes de 2013 elencou atrizes e atores mais bem pagos do ano. A soma masculina era de US$465 milhões contra US$181 milhões femininos – tendo Robert Downey Jr. como o mais lucrativo (US$75 milhões) e Angelina Jolie como a que mais faturou (US$38 milhões). Em média, as atrizes mais bem pagas têm 34,8 anos e os atores 46,5. Mais um exemplo de que a beleza feminina tem de ser jovial para entrar em cena.

Durante toda a trajetória do Oscar (até 2012), apenas quatro diretoras haviam sido indicadas ao prêmio de Melhor Direção: Lina Wertmüller (1976), Jane Campion (1994), Sofia Coppola (2004) e Kathryn Bigelow (2010) – apenas a última venceu a estatueta. Em 2013, durante a 85ª edição da premiação, 140 homens foram indicados contra 35 mulheres. E nenhuma mulher concorreu como direção, edição, roteiro ou trilha original na ocasião. No decorrer desses quase cem anos, apenas 7 produtoras venceram o prêmio de Melhor Fotografia, 8 ganharam como Roteiro Original e 8 como Roteiro Adaptado. 77% dos vencedores do Oscar foram homens.

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E é ai que o movimento feminista tem papel fundamental. Enquanto existirem diferenças tão evidentes baseadas em números reais no que diz respeito ao posicionamento profissional das mulheres x dos homens há a necessidade sim de se reivindicar pela igualdade de direitos.

Nas últimas décadas, especialmente nesses dez anos, temos cinco bons exemplos de representatividade no mercado cinematográfico atual: Ava Duvernay (diretora, roteirista e marqueteira) de ‘Middle of Nowhere’, Diablo Cody (diretora, roteirista e produtora) por trás de produções como o filme ‘Juno’ e a série ‘The United States of Tara’, Kathleen Kennedy, produtora de clássicos como ‘E.T.’, a saga ‘Jurassic Park’ e ‘O Sexto Sentido’, Kathryn Bigelow (diretora, roteirista e produtora) que assina filmes como ‘A Hora Mais Escura’, ‘Caçadores de Emoções’ e ‘Guerra ao Terror’ e Lena Dunham (atriz, produtora, roteirista e diretora) do filme ‘Tiny Furniture’ e da premiada série ‘Girls’.

Screen grab of youtube video 'ASK LENA #1: Questionable feminist?' Web to Watch - Ask Lena Dunham Ask Lena and you shall receive. In promotion of her upcoming book Not That Kind of Girl, Lena Dunham has launched a Q&A series on YouTube. Watch all 12 episodes (all of them under 3 minutes) in which Dunham offers advice on everything from being a feminist to jealousy. lenadunham.com/ask-lena [Via MerlinFTP Drop]

Na última década também tivemos cinco personagens inspiradoras com destaque no cenário hollywoodiano: Helen, de ‘Diary of a Mad Black Woman’ – uma mulher de 30 anos que estrela a comédia romântica destacando pontos como resiliência, lealdade e romantismo, Katniss Everdeen, de ‘Jogo Vorazes’ – uma jovem de 16 anos que é corajosa, determinada e protetora, Lisbeth Salander, de ‘Os Homens Que Não Amavam As Mulheres’ – uma mulher de 25 anos antissocial, inteligente, persistente e rebelde, Marjane Satrapi, de ‘Persepolis’ – uma jovem que tem sua história narrada entre os 10 e 22 anos, agressiva, passional, precoce e sobrevivente e Merida, de ‘Valente’ – uma adolescente de 16 anos cabeça dura, divertida e lutadora.

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São estrelas de produções de temática variada – sendo duas delas, inclusive, animações. O fato de termos dois filmes voltados ao público infanto-juvenil já é um avanço, mesmo que pequeno. Cativando expectadores ainda em formação, temos chances maiores de contribuir para essa mudança de padrões e roteiros batidos de muitos filmes e, por consequência, de todo o cenário em torno deles. Pessoas inteligentes não se conformam com qualquer coisa, são questionadoras e têm senso crítico. Lá em cima questionei sobre o sentimento de representatividade das mulheres que vão ao cinema e assistem aos filmes que expõe suas semelhantes em situações que não condizem com a realidade, lembra? Fato é que muitas delas não têm sequer discernimento disso justamente pelo fato de já estarem habituadas ao mais do mesmo.

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Não que sejam burras e/ou fúteis, longe disso, mas são ignorantes, no sentido mais puro da palavra, e não têm culpa disso. Cresceram tendo acesso aos filmes produzidos por homens e para homens – até mesmo as comédias românticas ou você pensa que peitinhos em cena são para atrair a atenção das mulheres? Nada mais é que um ‘consolo’ aos homens que vão ao cinema acompanhar suas namoradas/mulheres para assistir um filme com roteiro escasso pelo qual não se sentem atraídos. A mulher quer e se encanta pelo romance e o homem pelo aspecto visual das coisas – eis revelado o segredo dos casais graciosos dos filmes do gênero. 😉

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2015, felizmente, foi um ano de extrema importância para as mulheres no cinema – começando com o discurso de Patricia Arquette no Oscar (pedindo salários e direitos iguais para homens e mulheres), seguido pelo movimento #AskHerMore (manifestação que tomou conta das redes sociais em prol de perguntas mais inteligentes às atrizes no tapete vermelho, além da tradicional ‘o que você está vestindo?’) e mais recentemente o desabafo de Petra Costa, durante o Festival do Rio (em prol da soberania total das brasileiras sobre seus corpos e contra o machismo).

A ideia de um levantamento destes é justamente contribuir para aqueles que não têm muita noção de como as coisas funcionam nos bastidores – como a pessoa citada lá no início do post – a entenderem um pouco melhor como as coisas funcionam por trás das câmeras, a ‘fofoca’ que querem calar, mas que a gente compartilha de boa, porque todo mundo precisa saber!

attends the 87th Annual Academy Awards at Hollywood & Highland Center on February 22, 2015 in Hollywood, California.

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Adele Grandis: Taurina com ascendente em touro - isso explica muita coisa!