Moda de gênero neutro: modismo ou movimento?

Gucci, Milão, inverno 2016 RTW
Gucci, Milão, verão 2016 RTW
Nicopanda, Nova York, verão 2016 RTW
À esquerda e à direita: editorial da coleção Necessities, do selo To whom it may concern, e ao centro, look com proposta Freegender da Acne Studios. (Paris, inverno 2016, RTW)

À esquerda e à direita: editorial da coleção Necessities, do selo To whom it may concern, e ao centro, look com proposta Freegender da Acne Studios. (Paris, inverno 2016, RTW)

A moda agênero (ou de gênero fluido, ou freegender) tem sido há algum tempo presença constante em desfiles internacionais e, mais recentemente, desfiles nacionais. Isso não quer dizer que haja um consenso sobre esse tipo de estilo, nem que há esforços para buscar informações e refletir mais a fundo sobre o tema na hora de aplicá-lo ao vestuário. Isso se dá em parte porque a própria discussão mais aprofundada sobre gênero e sexualidade é algo relativamente recente (ou ao menos podemos dizer que o maior acesso a essa discussão é relativamente recente). Para se ter uma ideia, recentemente o Facebook (versão gringa) colocou 56 definições de gênero como opção no formulário de descrição de seus membros. Sem entrarmos no campo sexualidade, só a categoria gênero já é um amplo espectro de definições, que escapam ao binarismo homem/mulher, e que pode englobar ambos ou nenhum. E se o mais sensato a fazer na vida é deixar que cada um defina sua identidade de gênero da maneira como se sente melhor, como a Moda interpreta esse movimento? Seria a moda agênero apenas uma fatia de mercado a ser explorada? Só uma tendência, ou modismo?

Rad Hourani, Paris, inverno 2014 HC Rick Owens, Paris, verão 2016 RTW Maison Martin Margiela, Paris, verão 2014 HC J.W. Anderson, Londres, inverno 2016, RTW

Rad Hourani, Paris, inverno 2014 HC / Rick Owens, Paris, verão 2016 RTW / Maison Martin Margiela, Paris, verão 2014 HC / J.W. Anderson, Londres, inverno 2016, RTW

Já vamos começar respondendo que não, moda agênero não é e nem deve ser apenas um modismo, mesmo que algumas marcas a tratem como tal. Essa maneira de se vestir está muito mais ligada a uma ideia e a uma filosofia de vida do que a uma tendência do tipo “nessa temporada vamos usar saias-lápis e camisas estampadas” (até porque convenhamos que mesmo na moda binária convencional isso já está bem ultrapassado). Mais do que “renovar o guarda-roupa” para a estação, um indivíduo que consome peças agênero está fazendo uma declaração política ao mundo sobre quem ele é, como ele deseja ser visto. Por isso, a moda agênero tem mais a ver com uma a criação de uma cultura da Moda que não estivesse diretamente ligada ao mercado, e sim a determinados valores, sociais e políticos, atribuídos a certas formas de agir e vestir – mas, numa sociedade capitalista pautada em oportunidades de venda, isso é quase impossível.

Gucci, Milão, inverno 2016 RTW Gucci, Milão, verão 2016 RTW Nicopanda, Nova York, verão 2016 RTW

Gucci, Milão, inverno 2016 RTW / Gucci, Milão, verão 2016 RTW / Nicopanda, Nova York, verão 2016 RTW

Sejamos realistas: a maioria das marcas (especialmente as mais famosas e ligadas aos grandes conglomerados de moda) está mais preocupada em lucrar por ser vanguardista e disponibilizar peças que quase ninguém fez, do que necessariamente fazer com que as pessoas se sintam representadas – a reflexão sobre consumo consciente continua sendo, portanto, muito importante. Se o caminho natural do mercado parece ser a não-diferenciação, saber exatamente como desejamos performar no mundo é essencial para não nos deixarmos levar por toda coleção declarada de gênero neutro.

Amapô, SPFW, inverno 2016 RTW Alexandre Herchcovitch men, SPFW, ver]ap 2015 RTW

Amapô, SPFW, inverno 2016 RTW (fotos 1 e 2) / Alexandre Herchcovitch men, SPFW, verão 2015 RTW (fotos 3 e 4)

Além da reflexão – necessária a qualquer pessoa – sobre a questão do consumo, quando falamos sobre moda agênero é imperativo pensar em questões de classe social e acesso, porque marcas que desenham coleções com a intenção de produzir roupas sem gênero ainda vendem seus produtos a preços bem altos. É uma discussão que já entrou em pauta em alguns meios da moda: vale a pena pagar valores de três ou até quatro dígitos numa peça com o intuito de “militar politicamente”? A quem realmente essas peças servem? Quem tem acesso a elas?

APARTAMENTO 03, SPFW, inverno 2016 RTW (o tema da coleção foi justamente “O enigma do gênero”)

APARTAMENTO 03, SPFW, inverno 2016 RTW (o tema da coleção foi justamente “O enigma do gênero”)

Também podemos refletir sobre o shape e corte de muitas dessas peças. Nota-se ainda que o termo gênero neutro para algumas marcas é sinônimo de peças largas e sem muita forma, que não acentuam parte nenhuma de nenhum tipo de corpo. Para quem se sente bem com esse tipo de peça é um prato cheio, mas é inocente e desonesto pensar que toda pessoa que se defina como gênero fluido ou agênero vá se sentir representada dentro da mesma modelagem de roupas. Além disso, ao invés de simplesmente lançar coleções completas livres de gênero, estilistas ainda têm tentado “encaixar” essas peças em coleções femininas ou masculinas, fazendo com que a reflexão sobre gênero continue ligada ao binarismo da sociedade.

Isso traz toda uma gama de complicações, porque as peças são vendidas em “tamanhos e cortes padrão” para corpos masculinos ou para corpos femininos cisgêneros, dificultando a vida de quem quer adquirir a peça, mas não se encaixa nas medidas e formatos padronizados (se falarmos em pessoas não binárias e gordas então, pior ainda). Há ainda um grande gap entre possíveis ideias revolucionárias de modas agênero, e o sistema em que essas roupas são fabricadas e distribuídas.

Tarcisio Brandão, Casa de Criadores- Inverno 2016 Ocksá, Casa de Criadores - Inverno 2016

Tarcisio Brandão, Casa de Criadores- Inverno 2016 (fotos 1 e 2) / Ocksá, Casa de Criadores – Inverno 2016 (fotos 1 e 2)

A lição que fica dessa reflexão é a de que cautela é necessária. Por um lado, devemos comemorar que as discussões sobre o campo da sexualidade e gênero têm avançado e ganhado maior espaço em diferentes setores da sociedade, forçando certas mudanças. Por outro, devemos ter a malícia de saber que o capitalismo não faz militância a não ser para benefício próprio, e se o mercado tem oferecido cada vez mais opções de roupas de gênero neutro (ainda que a preços e modelagens não acessíveis), é porque descobriu que o campo das identidades individuais é um nicho lucrativo e rentável. Podemos pegar essa visibilidade e usá-la a nosso favor, mas não se engane: vestir-se de maneira a fugir do binarismo ainda é um ato de resistência e demanda resiliência.

Fizemos abaixo um quadro com algumas peças que propõem um visual não-binário e que estão disponíveis em lojas online (vale lembrar que muitas das roupas que ilustram esse texto são de marcas vendidas apenas em ateliês ou lojas físicas). Algumas das peças são especificamente pensadas para serem de gênero neutro; outras são apenas peças que ainda estão classificadas como “femininas” ou “masculinas”, mas que não carregam necessariamente signos específicos atribuídos a um ou outro, podendo ser usadas para criar looks de gênero neutro.

Fazer esse tipo de exercício (o de procurar mesmo em peças ditas de um gênero específico possibilidades de transgressão) é uma alternativa de acessibilidade, já que dessa maneira é possível encontrar peças mais baratas e até disponíveis em lojas de fast-fashion. Mais do que sugestões de consumo, a intenção do quadro é fazer um resumo real dos preços das peças disponíveis e propor talvez novas ideias para inspiração de cada um.

Vale lembrar que isso não é um publipost, não recebemos de nenhuma das lojas pra anunciar as peças aqui e estamos abertos a isso, caso haja interesse (mas não se preocupe, leitor, que se assim for a gente sinaliza direitinho que o post é pago, ok?).

1. Blusão Acne Studios, $220USD http://www.acnestudios.com/shop/men/sweatshirts/casey-gender-black.html 2. Necessity box To whom it may concern, $250EUR http://shop.towhomitmayconcern.cc/collections/wear/products/twimc-necessity-box 3. Anel Renner, R$29,90 http://www.lojasrenner.com.br/p/anel-rustico-539098873-539098881 4. Pulseira miçangas, R$49,90 http://www.tanlup.com/product/872128/pulseira-micangas-e-conta-branca 5. Túnica Bordada Herchcovitch, R$311,00 http://loja.herchcovitch.com.br/product/AH50T005_A-26?cat=/484/485/486 6. Casaco Mercatto, R$49,99 http://www.olook.com.br/roupas/trico/casaco-tricot-elastano-mercatto_223126 7. Calça alfaiataria, $39,90USD http://www.zara.com/us/en/trf/trousers/striped-trousers-c269212p3074542.html 8. Bolsa Calvin Klein, R$285,00 http://www.dafiti.com.br/Shopping-Bag-Calvin-Klein-Estampa-Verde-1818952.html 9. Bolsa FiveBlu, R$64,90 http://www.dafiti.com.br/Bolsa-FiveBlu-Sacola-Caramelo-1856301.html 10. Tênis estampado, R$488,00 http://www.farfetch.com/br/shopping/women/vans-tenis-estampado-item-11184935.aspx?storeid=9475&ffref=lp_pic_12_11_ 11. Calça estampada, R$ 69,99 http://www.posthaus.com.br/moda/calca-pantalona-estampa-etnica-plus-size_art176500.html 12. Kit de pulseiras, R$25,99 http://www.marisa.com.br/kit-pulseiras-diferenciadas-10015565907-69102-rosa-detalhe 13. Óculos de sol, R$84,00 http://chillibeans.vteximg.com.br/arquivos/ids/303204-400-400/OC.CL.1015-2515.jpg 14. Tênis metalizado http://www.farfetch.com/br/shopping/women/luiza-barcelos-tenis-de-couro-envernizado-item-11172630.aspx?storeid=9694&ffref=lp_pic_14_18_

1. Blusão Acne Studios, $220USD
2. Necessity box To whom it may concern, $250EUR 
3. Anel Renner, R$29,90
4. Pulseira miçangas, R$49,90
5. Túnica Bordada Herchcovitch, R$311,00
6. Casaco Mercatto, R$49,99 
7. Calça alfaiataria, $39,90USD 
8. Bolsa Calvin Klein, R$285,00
9. Bolsa FiveBlu, R$64,90
10. Tênis estampado Vans, R$488,00 
11. Calça estampada, R$ 69,99 
12. Kit de pulseiras, R$25,99 
13. Óculos de sol, R$84,00 
14. Tênis metalizado Luiza Barcelos, R$279,30

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.