Por que os terroristas escolheram Paris?

Pássaro passa a frente da Torre Eiffel na primeira manhã de luto em Paris. Fonte: independent.co.uk

Pássaro voa em frente à Torre Eiffel na primeira manhã de luto pós-atentados em Paris. Fonte: independent.co.uk

A cidade das luzes foi mais uma vez atacada. E não foi atacada apenas politicamente, como em Janeiro deste ano, quando 12 pessoas foram mortas na sede do jornal satírico Charlie Hebdo. Foi atacada em seu cerne, sua cultura, seu lazer,  em seu “bem viver”. Foi atacada enquanto pessoas jantavam e faziam happy hour com seus amigos, comemoravam, assistiam um amistoso de seleções, viam um show de rock. Locais onde ninguém na mais pessimista das idéias imaginaria que seriam alvos de terroristas cegados em uma luta cruel. Mas por que Paris? A história nos dá informações importantes para explicar (e não justificar, que fique claro) estes ataques.

Antecedentes

Desde meados de 2012 e 2013, os integrantes e fundos financeiros do EI vinham aumentando exponencialmente, até aí tudo ‘normal’ para os governos do ocidente que financiaram diversas milícias no Oriente Médio para combater os governos Sírios e Iraquianos. No entanto, desde que o EI proclamou um califado na região entre as bordas da Síria e do Iraque em 2014, especialistas e governos acenderam o alerta de que a organização que crescia adiante não era como qualquer Al-Qaeda.

Enquanto a organização rapidamente tomava e destruía cidades, os seus vídeos publicados não exaltavam seus ganhos territoriais, mas focavam numa coisa quase ‘esquecida’ pelos governos e muito pouco sabida por qualquer cidadão comum, até mesmo os mais bem estudados. Os vídeos focavam especificamente na destruição das bordas entre a Síria e o Iraque com o título ‘The End of Sykes-Picot’.

Mas o que é esse Sykes-Picot?

O acordo de Sykes-Picot é resultado de deliberações secretas entre a França e a Inglaterra que data de 1916 e que dividia as esferas de controle e influência da França e Inglaterra no Oriente Médio ao término da Primeira Guerra e que, em 1920, ao término da guerra, foram carimbadas pela Conferência de San Remo. Resumindo: estas potências negociaram acordos com as nações do Oriente Médio para que se rebelassem contra o Império Otomano com a promessa de que, ao fim da Guerra, estas nações seriam independentes. No entanto, o que ocorreu foi que as potências vitoriosas dividiram todo o Oriente Médio em suas políticas colonialistas e de influência. Não fica difícil de enxergar o que aconteceu dali em diante, correto? Nações e territórios foram divididos de maneira arbitrária, sem considerar etnias, línguas ou religiões. Todas as guerras e ofensivas mais recentes que eclodiram e que muitos já devem estar mais cientes têm de maneira direta ou indireta relação com as divisões feitas neste período.

Mapa detalhado das divisões do acordo de Sykes-Picot de 1916.

Mapa detalhado das divisões do acordo de Sykes-Picot de 1916.

Apesar de no vídeo em questão mostrado acima eles não citarem especificamente nenhum país, fica claro que uma bandeira relevante do EI/ISIS é o Sykes-Picot. Eles citam o imperialismo americano ao apontar para uma Ford pick-up e dizer “Vejam quanto os EUA gastam para lutar contra o Islã, e tudo acaba nos nossos bolsos”. Também é simbólico quando sobem sobre os escombros dos postos policiais da fronteira destruída e dizem: “Como vocês podem ver, está abaixo de nossos pés agora.”

França como alvo

Alie agora o fato da França ser um dos autores deste tratado de divisão. Todo o desenrolar de influência colonialista ao longo do século, o apoio às políticas de intervenção americanas no Oriente Médio, o fato da França ser uma das nações que mais age com bombardeios no território Sírio e o fato de permitir que um jornal satírico, Charlie Hebdo, que lançou mais uma tiragem bastante controversa e de mau gosto até com as vítimas do massacre, faça gozo não apenas de diversos símbolos e textos sagrados do Islamismo, mas à própria cultura e maneira de viver dos muçulmanos. Juntando tudo isso, temos pronta a receita para o ódio que se destilou no último atentado em Paris.

É claro que a França não é o único inimigo declarado do EI. EUA, Rússia, Inglaterra, Itália e boa parte do Ocidente correm riscos graves de novos atentados. A Rússia confirmou que o avião russo que caiu no Egito no último dia 31 de Outubro foi um ataque terrorista, lembrando que o EI já havia reivindicado a sua queda. Levado por um fundamentalismo exacerbado, o Estado Islâmico está em conflito com todos os supostos valores ocidentais que vão de encontro com suas ideologias. Não é por menos que desta vez, os alvos dos ataques foram uma casa de show onde uma banda de rock tocava, restaurantes com jovens que curtiam um happy hour e se divertiam numa suposta vida desregrada, e um estádio de futebol onde França e Alemanha disputavam um amistoso. É curioso ressaltar que, em seu último vídeo divulgado, o EI diz que os próximos alvos serão Roma, Londres e Washington, todas capitais de países envolvidos diretamente no desmantelamento do Império Otomano, bem como mais diretamente com as operações no Oriente Médio. Não citam diversas nações envolvidas nas crises de refugiados com Alemanha ou Bélgica, ainda que estas não estejam livres de virar alvo.

Vale lembrar também que parte dos terroristas deste último atentado eram de nacionalidade francesa e que alguns moravam em Bruxelas, na Bélgica, segundo últimas informações. A polícia francesa também diz ter encontrado um passaporte Sírio no local dos atentados e que este pertenceria a algum dos terroristas, o que gerou certas desconfianças pelo mundo, não em relação à autoria dos atentados, mas porque soa bastante estranho que um terrorista suicida ande com seu passaporte por aí.

O que esperar do futuro?

Após os últimos atentados, pouco pode-se prever das próximas ações do EI. No entanto, muito se prevê das ações dos países ocidentais. Como já deram a entender, os ataques aéreos devem aumentar, e uma ofensiva ainda maior deve se instalar nas regiões afetadas do Oriente Médio, com uma coalizão francesa e russa e também, muito provavelmente, estadunidense. Muitas notícias, informações errôneas e teorias que beiram o absurdo também começaram a ser espalhadas pelas redes, e é importante que nos mantenhamos atentos a esses tipos de coisas. O Brasil manteve-se longe de conflitos, apenas expressando sua lamentação aos ataques e parafraseando o que todos os líderes mundiais expressaram sobre combate ao terrorismo.

O que também pode-se esperar é o fortalecimento da ultra-direita nacionalista francesa (cujo líder é Le Pen) e ocidental, assim como mais barreiras para o fluxo de entrada e saída de pessoas nos países, além de aumento da xenofobia, com a estigmatização ainda maior dos muçulmanos. Tendo em vista tantas prospectivas negativas, chega a ser reconfortante o vídeo divulgado no Facebook de franceses que lamentavam conjuntamente nas ruas de Lille expulsando um pequeno grupo de ativistas xenofóbicos.

O fato é que no meio desse fogo cruzado entre um ocidente imperialista e uma organização fundamentalista religiosa do oriente, quem mais continuará sofrendo serão os inocentes, tanto de lá quanto de cá. Se desejar entender um pouco mais desse conflito e atiçar mais sua empatia com o sofrimento alheio, recomendo assistir este video:

Por mais clichê que possa soar, é preciso dizer: nesses tempos sombrios, sentimos muito não apenas por um ataque ou outro, nem por uma nacionalidade ou outra, mas por toda a humanidade que só sai perdendo nestes conflitos.

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Marcos Lourenço é estudante de História. Apelidado de Trevor no teatro por admirar o ator Trevor Wright. 26 anos nas costas e vivendo um dia de cada vez como um bom pisciano. Cinéfilo que também gosta de games-livros-teatro. Sempre curioso e engajado já se meteu em poucas e boas.