Charlie Sheen e HIV/Aids: o que você tem a ver com isso?

No dia 17 de novembro de 2015, noticiou-se por todos os lados o diagnóstico do ator Charlie Sheen sendo HIV positivo. Além do fator fofoca, conversa de bar, etc., por que é importante falarmos sobre isso?

É difícil falar de forma fundamentada sobre o vírus HIV e a Aids para quem, como eu, nunca teve contato com a doença ou com alguém que já recebeu esse diagnóstico. A informação que nos chega sobre o vírus é realmente fragmentada e, no fim das contas, só mesmo quem tem que conviver com a doença sabe o que está passando. Isso, quando a pessoa tem a sorte de ter acesso a tratamento de saúde decente, bem como a ajuda de amigos e parentes.

Vamos começar pelo começo: o HIV/Aids teve seus primeiros casos diagnosticados nos EUA, por volta de 1977 e 1978, chegando ao Brasil em 1980, com um caso na cidade de São Paulo que só foi reconhecido oficialmente em 1982.

Neste período, nos EUA, o vírus era conhecido por “doença dos 5 Hs”, que eram as siglas para homossexuais, hemofílicos, haitianos, heroinômanos (usuários de heroína) e hookers, prostitutas, em inglês. Mesmo quando héteros eram diagnosticados, sua contaminação era dada como decorrente do contato com algum destes cinco grupos.

Apesar de muitos diagnósticos em pessoas heterossexuais, crianças e em pacientes que receberam o vírus por transfusões de sangue, esse estigma – que rendeu ao vírus o apelido de “câncer gay” – durou longamente até 1986, quando Gia Carangi, supermodelo da época, foi uma das primeiras mulheres a morrer de complicações decorrentes da Aids. O fato iniciou um processo de desmistificação da doença na opinião pública.

Neste momento do texto vocês já repararam que em algumas frases escrevo “HIV”, em outros “Aids”. Talvez estejam se perguntando porquê. Explico: HIV é uma sigla em inglês para vírus da imunodeficiência humana (human immunodeficiency virus), e é classificado como um retrovírus por sua capacidade de “enganar” o sistema imunológico humano, reproduzindo-se dentro do corpo sem que o organismo o reconheça como uma ameaça.

Isso pode acontecer durante anos sem nenhum sintoma – por isso profissionais da área da saúde recomendam que você faça um teste periodicamente não só para o HIV, mas como também várias outras doenças sexualmente transmissíveis.

Mas Bea, então quando é que estamos falando de Aids? Quando o seu corpo produziu o vírus por algum tempo (e esse tempo depende de cada organismo), ele já se clonou a muitas células do seu sistema imunológico, chamadas células T. Ao fazer isso, ele as deixa muito enfraquecidas, portanto seu corpo fica muito frágil e vulnerável a outras doenças.

Quando mencionei a modelo Gia alguns parágrafos acima, escrevi: “complicações decorrentes da Aids”, ou seja, complicações decorrentes de um estágio específico de quando a sua contagem de células T está muito baixa para ser capaz de defender seu corpo de outras infecções ou doenças – isso é Aids.

Resumindo: você pode ser HIV positivo e não ter Aids, ou seja, suas células T estarem ótimas. Os coquetéis de medicamentos disponíveis atualmente podem ajudar uma pessoa a viver por muitos anos sem sintomas, porque impedem o enfraquecimento do sistema imunológico e tentam retardar ao máximo a capacidade de multiplicação do vírus HIV.

hiv-aids

Sabemos que durante a década de 90 tivemos muitas mortes ao redor do mundo em decorrência de complicações pela Aids, porém, atualmente, além da maior eficácia dos tratamentos, os métodos de prevenção têm mais espaço em alguma parte da mídia. Contudo, falta uma informação mais completa: eu mesma acreditava, como comentei ali no início, que o vírus HIV automaticamente me tornava uma pessoa com Aids.

Por que Charlie Sheen é importante neste momento?

Porque ainda temos muitas informações imprecisas a respeito de HIV/Aids a desmistificar. Uma delas é a crença de que este vírus é adquirido por um comportamento promíscuo. Outros usam o HIV/Aids como uma deixa para condenar usuários de drogas.

Vocês sabiam que desde 1991 o SUS distribui gratuitamente coquetéis e orienta tratamentos para pessoas com HIV e Aids? Inclusive, postos de saúde são orientados a fornecer seringas para usuários de drogas, a fim de evitar a contaminação? Isso vale para qualquer unidade do SUS no Brasil. São procedimentos alinhados com os preceitos da campanha do Dia Mundial de Luta contra a Aids, comemorado desde 1988 em todo o mundo.

Aproximadamente 35 milhões de pessoas são portadoras do vírus HIV neste planeta. Isso mesmo, e agora a minha pergunta é: há quanto tempo alguém influente e vivo não aparecia para falar sobre isso? O último a ter o mesmo impacto global foi Magic Johnson (sabem, do basquete?), em 1991 – isso 25 anos atrás. Quem também teve grande impacto em mim foi a drag queen Ongina. Sua participação na primeira temporada da série RuPaul’s Drag Race, em 2009, foi marcante não só pelo talento, mas por revelar seu diagnóstico.

capas de jornais em 1991 sobre o diagnóstico de Johnson e sua saída do Lakers

Capas de jornais nos Estados Unidos em 1991, noticiando o diagnóstico de Magic Johnson e sua saída do Lakers

Antes, havia essa ideia de que pessoas com Aids necessariamente morriam jovens. Os casos com celebridades ajudaram a afirmar esse conceito. Gia Carangi, por exemplo, faleceu aos 26 anos. Perdemos Cazuza aos 32. Contudo, quase 40 anos depois, temos pacientes que, graças ao bom tratamento, chegarão à velhice sendo portadores do vírus. O mínimo que todos podemos fazer é não perpetuar um estigma e evitar a contaminação. 

Sites úteis:

Unaids.org.br
Unidade das Nações Unidas sobre o tema. Discute prevenção, tratamento e desconstrução do estigma no Brasil.

Aids.gov.br
Portal do governo brasileiro sobre o vírus e a doença, com informações importantes sobre direitos, SUS e novas pesquisas.

PelaVidda.org.br
ONG que oferece apoio a pacientes e famílias.

Gestos.org
ONG envolvida com as políticas públicas no tratamento e pesquisa, além de programas de prevenção e informação com foco em adolescentes e jovens.

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bisexual, disléxica, fotógrafa, cinegrafista e drag queen maravilhosa nas horas vagas. manda um beijo em todos os ombros