É hora de ouvir a voz do negro na Moda

Naomi Campbell em ensaio/entrevista com Nick Knight. As armas representam a luta da modelo negra contra o racismo na indústria da Moda.

Naomi Campbell em ensaio/entrevista com Nick Knight. As armas representam a luta da modelo negra contra o racismo na indústria da Moda.

No dia da Consciência Negra, muitas discussões são levantadas sobre o passado, presente e futuro dos povos negros na sociedade. E a Moda não deve se ausentar delas, pois é uma engrenagem na grande máquina social responsável por, muitas das vezes, perpetuar o racismo e  a exclusão das pessoas negras através de seu apagamento em desfiles, editoriais e propagandas, assim como na área de criação. Pessoas negras são boa parte do mercado consumidor. Entretanto, sua representatividade nas revistas e passarelas foi tardia e ainda é escassa. Foram décadas de existência da revista Vogue UK até que Donyale Luna fosse escolhida para estampar a capa. Só no começo dos anos 90 uma grande empresa de cosméticos se preocupou em ter como única porta-voz em uma campanha uma modelo negra. Na ocasião, a Revlon contratou a modelo Veronica Webb para ser o rosto de bases que prometiam ser mais abrangentes em relação aos diferentes tons de pele.

Dorothea Towles Church é considerada a primeira mulher negra a desfilar em desfiles de alta costura, como os da Dior, nos anos 50 e 60. Teve que enfrentar o racismo e o preconceito da indústria. Conta-se inclusive que Pierre Balmain se recusou a ceder vestidos de sua maison para que Dorothea estampasse uma capa de revista, porque achava que ficariam desvalorizados  aos olhos dos clientes. A modelo persistiu, conseguiu reconhecimento na indústria, e passou a viajar, depois de ficar famosa, por todos os Estados Unidos, desfilando para garotas negras as roupas que tinha usado nos grandes desfiles. Dorothea dizia que sentia que tinha uma missão em viajar por toda a América desfilando porque mostrava a todas as mulheres negras que elas poderiam ter nela um exemplo, entendendo que elas podem se vestir de maneira elegante e diferenciada e se sentirem bem consigo mesmas.

Pioneiras: Donyale Luna, a primeira negra a estampar uma capa da revista Vogue (março/1966). Dorothea Towles Church em desfile na Califórnia durante os anos 60. Veronica Webb em anúncio da Revlon (1992).

Pioneiras: Donyale Luna, a primeira negra a estampar uma capa da revista Vogue USA (março/1966). Dorothea Towles Church em desfile na Califórnia durante os anos 60. Veronica Webb em anúncio da Revlon (1992).

Pioneirismo tardio: Naomi Campbell foi a primeira negra na capa da Vogue Paris (agosto/1988) e Emanuela de Paula foi a primeira negra na Vogue Brasil, em janeiro de 2011.

Acima: Naomi Campbell na Vogue Paris (agosto/1988) e Emanuela de Paula na Vogue Brasil, (janeiro/2011).

Hoje em dia, temos agências especializadas em modelos negras no Brasil, o que não quer dizer que o racismo tenha sido superado. Cotas para modelos negras têm sido incentivadas nos desfiles, mas a situação ainda está longe de ser consolidada na prática. Essa falta de equilíbrio não é um problema só do Brasil. Naomi Campbell, considerada a modelo negra mais bem sucedida da história, argumenta que a exclusão de modelos negras na indústria da moda está longe de acabar. Ela tem sido uma porta voz na luta contra o racismo, e inclusive incentiva novas modelos negras a permanecerem na indústria através de grupos administrados por ela no aplicativo de mensagens WhatsApp.

E se o Reino Unido teve sua primeira modelo negra na capa nos anos 60, e a França no final dos anos 80 (Naomi), no Brasil (país com grande porcentagem de população negra), a situação é ainda mais assustadora. Emanuela de Paula foi a primeira modelo negra da publicação brasileira em janeiro de 2011, depois de 35 anos de existência da revista no país. Além da dificuldade de estréia de modelos negras em capas de revista, a situação não melhora depois que elas chegam lá. Em pesquisa realizada, constatou-se que dentre as 6 maiores revistas norte-americanas relacionadas a moda, apenas 14% das capas foram estampadas por pessoas negras, sejam elas modelos ou personalidades da indústria do entretenimento. Uma péssima representação da diversidade.

A Vogue Italia lançou, em sua edição de julho/2008, um ensaio especial só com modelos negras, e a edição recebeu o nome de Black Issue (um trocadilho com a palavra issue, que confere dois sentidos à frase em inglês: “edição negra” e “questão negra”). Quatro capas alternativas foram feitas com as modelos negras mais famosas da atualidade, e os editoriais também traziam apenas modelos negras. A edição foi um grande sucesso de vendas. Desde então, a publicação europeia tem feito editoriais especiais com modelos negras e até reservou uma página especial para tratar sobre o assunto. Há críticas, entretanto, tanto sobre a falta real de diversidade das modelos (a maioria tem cabelo liso e traços delicados), como sobre o fato de a criação de “edições especiais”, ao invés da simples inclusão dessas modelos de maneira regular na revista, seria uma forma de criar separações e de manter antigos mecanismos de exclusão.

Capas da primeira edição da Vogue Itália. Inclusão que se parece cooptação.

Capas da primeira edição Black Issue da Vogue Itália. Inclusão que se parece cooptação.

Dentre os estilistas, a presença de negros ainda é tímida se comparada à quantidade total de estilistas à frente de grandes marcas e com desfiles nas principais semanas de Moda. Stephen Burrows foi um dos estilistas mais importantes da era disco, entre o final dos anos 70 e o começo dos anos 80. Ganhou diversos prêmios na área da Moda e vestiu celebridades que vão desde CherMichelle Obama. O Council of Fashion Designers of America (CFDA) lhe concedeu em 2006 um tributo especial, o colocando entre os principais nomes da moda mundial.

À esquerda, modelo da coleção ready to wear de Burrows apresentada na Semana de Moda de Nova York em 2007. Acima, Farrah Fawcet veste Burrows na cerimônia do Oscar em 1978 e a primeira dama Michelle Obama veste terninho do estilista durante discurso. Abaixo, o estilista ao lado de alguns de seus modelos apresentados em sua retrospectiva em 2006.

À esquerda, modelo da coleção ready to wear de Burrows apresentada na Semana de Moda de Nova York em 2007. Acima, Farrah Fawcet veste Burrows na cerimônia do Oscar em 1978 e a primeira dama Michelle Obama veste terninho do estilista durante discurso. Abaixo, o estilista ao lado de alguns de seus modelos apresentados em sua retrospectiva em 2006.

Stella Jean é uma estilista italo-haitiana famosa por seu trabalho de estamparias. A ex-modelo e estudante de ciências políticas venceu um concurso da Vogue Itália para jovens estilistas, caiu nas graças de grandes nomes como Franca Sozzani e Giorgio Armani e, desde 2012, faz parte do line-up da semana de moda italiana, apresentando coleções masculinas e femininas. Procura trabalhar com tecidos sustentáveis e com estampas que remetam à África.  Segundo ela, suas estampas representam um mundo liberto da opressão ocidental, e um retorno  às origens igualitárias das relações humanas.

Modelos femininos e masculinos da coleção ready to wear Verão 2016 de Stella Jean verão na Semana de Moda de Milão. Ao centro, foto da estilista vestindo uma de suas criações.

Modelos femininos e masculinos da coleção ready to wear Verão 2016 de Stella Jean verão na Semana de Moda de Milão. Ao centro, foto da estilista vestindo uma de suas criações.

Duro Olowu, estilista nascido na Nigéria porém criado como um cidadão do mundo, trabalhou como advogado até se render ao amor pelo mundo das Artes e da Moda. Ele e a esposa se dividem entre as lojas em Nova York e Londres, e suas misturas de estampas e alfaiatarias precisas caíram nas graças de celebridades como Solange Knowles e a primeira-dama estadunidense Michelle Obama. Olowu faz questão de afirmar que não gosta de seguir tendências, deixando-se sempre inspirar pelo mundo.

Da esquerda para a direita: Modelo desfilado por Olowu na Semana de Moda de Londres, Inverno 2011 RTW e na coleção de primavera 2016. Ao centro, foto do estilista e ao lado, Michelle Obama e Solange Knowles usando criações do estilista.

Da esquerda para a direita: Modelo desfilado por Olowu na Semana de Moda de Londres, Inverno 2011 RTW e na coleção de primavera 2016 RTW. Ao centro, foto do estilista e ao lado, Michelle Obama e Solange Knowles usando criações do estilista.

No Brasil, um iniciante tem dado o que falar. Luiz Claudio Silva, da Apartamento 03, estreou recentemente na São Paulo Fashion Week. Em suas coleções, já provou que suas inspirações vem de temas complexos e questionadores. Em três desfiles, o estilista já fez referências ao cineasta Akira Kurosawa, refletiu e se inspirou em rituais religiosos e propôs uma discussão sobre gênero. É uma das promessas da Moda brasileira e foi indicado como estilista revelação no prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artew).

À esquerda, retrato de Luiz Cláudio, seguido de exemplos de looks das suas três primeiras coleções desfiladas na Semana de Moda de São Paulo (Inverno 2015 RTW, Verão 2015 RTW e Inverno 2016 RTW).

À esquerda, retrato de Luiz Cláudio, seguido de exemplos de looks das suas três primeiras coleções desfiladas na Semana de Moda de São Paulo (Inverno 2015 RTW, Verão 2015 RTW e Inverno 2016 RTW).

E por mais exemplos de estilistas e modelos negros que possamos citar, fato é que a maior parte da representatividade negra na moda ainda está nos blogs e iniciativas independentes. O Geledés fez um post incrível listando 45 dicas de blogs feitos por garotas negras. Vale lembrar que um dos melhores blogs de moda masculina é comandado por Sabir M. Peele, homem negro. Da mesma forma, modelos “menos famosas” que Naomi também têm feito importantes plataformas de conscientização sobre o racismo da indústria.

Sabir Peele, do Menstylepro (menstylepro.com) Gabi, do GabiFresh (GabiFresh.com) Folasade Adeoso, do Lovefola (lovefola.com) Cristiane Santos, do Ilpiccolomondodicri (https://ilpiccolomondodicri.wordpress.com/) Nykhor Paul, a modelo que falou sobre o racismo da indústria em seu Instagram

Da esquerda para a direita: Sabir Peele, do MenstyleproGabi, do GabiFreshFolasade Adeoso, do LovefolaCristiane Santos, do Ilpiccolomondodicri, e Nykhor Paul, a modelo que falou sobre o racismo da indústria em seu Instagram

A ideia que fica pra ser discutida nesse texto publicado em pleno feriado da Consciência Negra é a de que modelos, estilistas e criadores de tendências negros precisam ter mais espaço no “mainstream” da Moda. Por mais que os movimentos de vanguarda sejam fortes, é necessário que a visão criativa e bagagem cultural do negro chegue ao comando das grandes maisons, estrelem as maiores campanhas, publiquem nos blogs e sites com maior número de acesso e alcance. Que mais uma capa de revista com modelos negras seja algo natural, não uma “edição especial”, que suas vozes sejam ouvidas, que inspirem novas gerações sobre ser possível chegar a postos de comando e influência. Que o racismo seja cada vez mais denunciado e combatido, na Moda e em todos os espaços da sociedade.

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.