Ex-HeteronormativX #02: 5 dicas para manter o astral

Oi. Sou o César, nasci em 1978 e estou redescobrindo minha identidade depois que percebi que minha felicidade estava sendo capada por amarras heteronormativas. Este é o tema deste par de textos, que acompanha 2 momentos importantes no meu processo de abandono da heteronormatividade. Espero que você possa se identificar com o que lê aqui e que se liberte também!  

Hoje, vou dar 5 dicas para você manter o astral enquanto enfrenta os altos e baixos dos caminhos de abandono da heteronormatividade.

Antes, deixem-me divar um pouco:

cesardivandoFazendo a egípcia com minha camiseta da Madonna, 1994.
Foto: Acervo Pessoal

Pronto. Já divei.
Agora vamos conversar.

Andei triste e confuso. Logo que publiquei o primeiro texto, rolou uma onda de felicitações no meu círculo social. Vieram me dizer que eu era corajoso por me expor daquele jeito, que eu tinha feito algo importante pra mim e para os outros, enfim. Foi só alegria.

Dias depois, veio uma sensação estranha. Parecia que eu tinha tinha pulado de um penhasco sem fundo. Desde o começo, eu sabia que desafiar, em mim mesmo essa heteronormatividade, não seria necessariamente um processo fácil. Tem dias que, simplesmente, dói. Uma nova identidade não surge sem que a pele anterior se vá. E, enquanto a pele anterior se vai, você, sujeito e objeto da mudança, precisa conversar com os seus próprios conceitos antigos, o que não é fácil.

Não mesmo! | Fonte: Mastersmite

Quando você sai na rua e recebe olhares inóspitos, isso fica um pouco mais complicado. No último dia das bruxas, fui festar na Rua Augusta, em São Paulo. Eu estava sem camisa, com peito, pêlos e tatuagens à mostra e um colar de pérolas falsas em torno do pescoço. Apesar de estar cercado de amigos que não viam problema algum no meu look, logo senti os olhares, ouvi os comentários monossilábicos de canto de boca. Nada muito novo, em comparação com o que eu enfrentei quando era criança. Tinha gente me apontando o dedo porque eu era magro demais, porque não gostava de futebol, porque não tinha interesse em brigas de rua, porque eu falava de um jeito tranquilo e fino, porque amarrava as blusas de moletom em volta da cintura (criando uma silhueta que lembrava uma saia).

IMG_551-Cboriu 84Nunca é cedo demais para divar! Em Balneário Camboriú, 1984 / Foto: Acervo pessoal

Sem saber que poderia questionar essas críticas durante a infância, fui sistematicamente assimilando e cristalizando a noção de que minha existência plena não era algo bom. Será que você não passou por algo parecido?

Agora que eu resolvi quebrar essa armadura, me vejo sem a possibilidade de olhar para aqueles que me disseram coisas tristes e dar uma resposta. Ou seja, na prática, o problema agora é todo meu. Preciso pegar cada uma dessas vozes do passado que me deixam pra baixo e decidir o que fazer com elas. Em alguns momentos, preciso ser prático e simplesmente ignorar esses demônios. Em outros, escolho “debater com essas vozes” e ver se essas concepções antigas se reformulam de maneira duradoura dentro de mim. Seja como for, o importante é não se colocar para baixo e manter o foco no porquê de você ter se jogado neste processo: a liberdade.

Tá difícil?
Veja estas 5 dicas para manter o astral no processo:

1) Pratique escrita livre.


Fonte: Giphy

Sempre que estou num momento crítico de ansiedade em relação a esse processo e tenho a disponibilidade para sentar e escrever, é isso que faço. Escrevo sem censura e sem julgamento. O que sai? Desabafos, tristezas, raivas, ideias novas, memórias divertidas… Enfim, é como puxar a descarga. As nóias vão ficando mais claras e as possibilidades vão se mostrando.

 

2) Olhe-se no espelho de corpo inteiro, com frequência.


Fonte: Giphy

Redescobrindo minhas formas, percebo como elas são bonitas naturalmente. Elas estão lá, do jeito que são. Fico em frente ao espelho trocando de roupa. Coloco meu terno favorito. Depois coloco uma calça apertada e colares. Depois, coloco só a calça do terno e fico sem camisa, brincando com os pelos do meu peito. Depois, uma saia e assim e por diante. Assim, percebo que não existe um limite no meu corpo, muito menos no meu coração e na minha mente. São infinitas as possibilidades de ser eu mesmo e expressar como me sinto!

 

3) Observe pessoas. Todas elas.

Saia de casa qualquer dia desses, de preferência em um dia movimentado, e observe a infinita diversidade de pessoas ao seu redor. Aprecie formas e cores diferentes da sua. Perceba como as pessoas interagem, se vestem. Observando e misturando, você vai descobrir MILHARES de identidades novas. Perceba como NÃO existe um molde ao qual você deve se adequar para ser você mesmo. Faça anotações, desenhe, se quiser, ou fique só olhando. Quanto mais referências de diversidade humana você tiver, aos poucos seu coração, mente e corpo vão entendendo que NÃO há um limite, desde que você não queira que ele exista.

 

4) Saia para dançar.


Fonte: Giphy

Ouvir comentários chatos na noite, todo mundo ouve, bee. Convide seus melhores amigos, saia da concha e perceba que nem todo mundo está na mesma coordenada espaço-tempo que você. O conservadorismo é grande e você não está imune. Confie na presença, aja como se todos fossem potenciais amigos, conte com a rede de apoio dos amigos que você já tem, capriche no shade caso seja necessário, e você tem grandes chances de sair da balada a mil na autoconfiança. Se ser amigável não funcionar e os comentários foram além, você já sabe o que fazer: fale com os responsáveis pela balada e exija que eles não apoiem essa palhaçada. A noite é para todos.

5) Aprecie sua própria companhia.


Fonte: Upsocl

Fique em casa curtindo suas músicas e séries favoritas. Dê-se tempo pra digerir as coisas que acontecem enquanto você expõe suas nova vida não-normativa. Ouça seu disco favorito, jogue videogame, brinque com os pets, ou organize a planilha da semana, se isso te for aprazível. Na jornada pela liberdade, é preciso medir energias, porque o processo pode, SIM, ser exaustivo. Exponha-se quando estiver afim, recolha-se quando achar que precisa de tempo.

Gente, só LEMBRANDO QUE, além dessas 5 dicas, terapia sempre ajuda. Ter ajuda profissional para lidar com o processo vai te dar ainda mais luz pra atravessar esse vale de incertezas.

Bom, gente. Chega de chororô.
Aproveite seu tempo! Experimente as dicas acima e venha me contar o que achou.
A gente se vê por aqui e também no meu Instagram @cesarmunhoz

BYE BYE TRISTEZA e beijo pra todxs!

Fonte: Tumblr

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