Refugiados e a ofensiva xenofóbica

Nesta última década temos visto um crescente aumento da xenofobia ao redor do mundo. Na Europa, a aversão progressiva aos estrangeiros aumenta ainda mais com os refugiados, da África e Oriente Médio, que chegam à região aos milhares. No Brasil não tem sido diferente, com os haitianos, chineses, sírios (e mesmo com os médicos cubanos) entre outros.

A xenofobia se caracteriza pelo medo/pavor de estranhos ou estrangeiros. Em certos casos, ela não se manifesta de forma concreta ou com ações que interferem diretamente ao outro, mas, em outros casos, essa fobia se manifesta em gestos de ódio e preconceito, culminando com violência.

Reprodução: http://palabrasyfrasescubanas.blogspot.com.br/ (Março de 2013)

Reprodução: http://palabrasyfrasescubanas.blogspot.com.br/ (Março de 2013)

No Brasil vimos os ataques aos haitianos no Rio Grande do Sul, Paraná e, mais recentemente, em São Paulo, onde 6 haitianos foram baleados aos gritos de “Haitianos, vocês roubam os nossos empregos”.  Na Europa, a questão também se mostra complicada, quando barcos com centenas de refugiados são interceptados e impedidos de seguir viagem. No meio do caminho até o sonho de uma nova vida e segurança, muitas embarcações acabam indo a pique, causando a morte de centenas de pessoas.

Em ambos os casos e locais, a motivação é a mesma: xenofobia. A desculpa dada também é quase sempre similar: a de que os estrangeiros estão roubando empregos e super lotando serviços públicos. Muito irônico quando a maior parte dos que tecem esse tipo de comentário também brada sobre meritocracia. Meritocracia, esta, que é praticamente política de Estado em boa parte destes países. Se a conquista vem, e deve vir, do mérito, não há sequer lógica ou consistência na argumentação dada.

O mais peculiar dessa questão é que esse tipo de atitude nem de longe vem de uma maioria mas, sim, de uma parcela minoritária da população, com classe e padrões sociais bastante elevados, que torcem pela manutenção exclusiva de seus privilégios e status quo. No Brasil, em boa parte das grandes cidades vemos bolivianos, peruanos, colombianos, haitianos e povos imigrantes de diversos países, convivendo bem e de maneira pacífica entre eles mesmos e entre os brasileiros. No interior, a situação é aparentemente mais branda: os médicos cubanos são melhor acolhidos do que nos grandes centros urbanos, por exemplo. Vale lembrar que a aprovação dos mesmos é de pelo menos 84%.

Na Europa também temos bons exemplos de boa convivência. Em Londres, vemos judeus e muçulmanos convivendo tranquilamente lado a lado, muitas mulheres andam de burkha e há também diversos imigrantes brasileiros, italianos e espanhóis. Em alguns distritos como Stamford Hill chega a ser raro ver um “nativo” inglês e, em quase qualquer loja, os funcionários locais  quase sempre sabem falar um pouco dos idiomas dos imigrantes, de tão acostumados que estão.

Mas, então, por que tantos países estão sofrendo tanto com a onda de violência xenofóbica? Até mesmo países escandinavos como a Suécia têm sofrido com a crescente ofensiva racista e xenofóbica de grupos neonazistas e de supremacia branca. Independente do PIB e do rankig da educação do país, o problema acontece em diversas formas e por diferentes motivos.

Entre os principais culpados pelo aumento da xenofobia, podemos citar a grande mídia e as classes mais altas da sociedade, que diariamente, de forma direta ou indireta, reforçam estes discursos meritocráticos e, através desses, acabam influenciando certos indivíduos a reagirem a esse medo inconsciente ao estrangeiro com atitudes fora da razão e mais violentas.

Em muitos casos, esse reforço de discurso vem também das próprias políticas de governo. Exemplos não faltam na Europa: Alemanha, Itália e em partes, outros países, também têm tomado atitudes claramente xenofóbicas. Esse vídeo, da Angela Merkel, a chanceler alemã, é de partir o coração. A própria Inglaterra vem fechando cada vez mais suas fronteiras de imigração.

No Brasil, nossa política de governo é, ainda, a da inclusão. Por isso, é importante que lutemos para que assim continue e para que a empatia e o afeto com o outro, uma marca internacional do brasileiro, não morra nas mãos de nenhum governo ou classe politicamente poderosa. A ofensiva xenofóbica e os ataques recentes no Brasil e no restante do mundo são sinais importantes e devemos sempre estar atentos: é muito fácil perder a empatia quando olhamos apenas para questões pragmáticas.

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Marcos Lourenço é estudante de História. Apelidado de Trevor no teatro por admirar o ator Trevor Wright. 26 anos nas costas e vivendo um dia de cada vez como um bom pisciano. Cinéfilo que também gosta de games-livros-teatro. Sempre curioso e engajado já se meteu em poucas e boas.