“Crianças viadas” e o perigo do Gaydar

Tradução: O gaydar de Zeke está tão afiado que ele é capaz de não somente inferir quem é gay, mas também quem vai se tornar gay no futuro.

Tradução: O gaydar de Zeke está tão afiado que ele é capaz de não somente inferir quem é gay, mas também quem vai se tornar gay no futuro.

A estreia do programa Masterchef Junior na Band trouxe mais do que uma competição gastronômica televisionada disputada por crianças. A repercussão do programa, especialmente nas redes sociais, mostrou a real visão que muitos ainda têm sobre a infância e sobre papéis sociais de gênero e sexualidade. Esse texto não pretende abordar todos os acontecimentos polêmicos – alguns, criminosos – resultados da exibição do programa (você pode ler um pouco mais sobre o assunto aqui). Mas gostaríamos de focar numa das discussões levantadas: o tratamento de muitos telespectadores em relação a um dos participantes, que foi classificado por muitas pessoas como “criança viada” (não vamos divulgar aqui o nome do garoto, que tem apenas 11 anos de idade).

Quem já era da “turma da internet” lá pelos idos de 2012, certamente acompanhou a ascensão e sucesso do blog Criança Viada, um lugar onde adultos submetiam suas fotos de infância em que apareciam em poses, digamos, questionadoras dos papeis sociais de sexualidade e gênero socialmente impostos (sexualidade e gênero são coisas diferentes, mas estamos usando os dois termos no texto porque o termo criança viada não faz só referência a uma possível homossexualidade do indivíduo, mas também a papéis de gênero subvertidos). Desde então o termo se popularizou na internet brasileira, até ser usado de maneira “natural” nos dias de hoje para descrever o comportamento de uma criança  num programa de TV.

Exemplos de postagens do blog Criança Viada: crianças “fabulosas” desde sempre.

Exemplos de postagens do blog Criança Viada: crianças “fabulosas” desde sempre.

Mas existe uma diferença fundamental entre usar o termo “criança viada” ao se referir a fotos de nossa infância e de nossos amigos e usar esse termo pra descrever o comportamento de alguém que AINDA É criança. Muitos já sofreram bullying e chacotas no decorrer de suas vidas por não corresponderem às expectativas sociais de performance de gênero e sexualidade, mas lidaram com isso, tiveram tempo de amadurecer, e hoje conseguem lidar de maneira equilibrada e resiliente com suas identidades e maneiras que se apresentam ao mundo. Por disporem do tempo para amadurecer e descobrirem a si mesmos, essas pessoas conseguem encarar o termo criança viada como algo empoderador. Entretanto, quando esse termo é usado (até mesmo por pessoas gays) pra descrever uma pessoa que está na plena vivência de sua infância, ele pode ter o mesmo efeito negativo do bullying que muitos já viveram e tiveram que superar do que necessariamente como uma palavra empoderadora.

Aliás, quem ou o quê disse que o garoto é “viado”? A forma como ele fala? Como age? Por “desmunhecar”? Por apresentar-se mais sensível do que a maioria? Que direito temos de definir a sexualidade de uma criança somente pelo que vemos dela brevemente num programa de TV? Não estamos ensinando a esse garoto e a todos os outros que ter características de comportamento encarados socialmente como “femininos” é algo negativo? Que a não ser que o garoto assuma uma série de comportamentos estereotipados, tudo bem seus colegas de escola e amigos o definirem como o “veadinho”, como o “maricas”? Não é exatamente isso que muita gente já teve que vivenciar e o motivo de muitos terem chegado a medidas extremas – como o suicídio – por não suportarem as gozações das pessoas pela forma como se apresentavam ao mundo?

Exemplos de tweets sobre o participante do Masterchef Junior: admiração, julgamento e gozação.

Exemplos de tweets sobre o participante do Masterchef Junior: “admiração”, julgamento e gozação.

Algumas pessoas creditam sua percepção da “viadagem” do menino a um “faro”, uma “intuição”. Popularmente, é convencional rotular essa “percepção” como gaydar (gay + radar, ou seja, a habilidade de alguém inferir só pela imagem ou comportamentos de outra pessoa a sua orientação sexual). Só que a questão do gaydar não está imune a problematização também. Afinal, o que leva a gente a presumir que alguém é gay? Algumas pesquisas acadêmicas não conseguiram concluir que o gaydar é uma habilidade de fato “biológica”, uma capacidade sensorial inata do ser humano. Argumentamos então que, se ninguém nasce com um radar instalado detectando a sexualidade alheia, o gaydar está muito mais baseado numa leitura social do que numa capacidade interna.

E quais signos são necessários pra ativar o gaydar? Cuidados com a aparência, jeito de falar, de se comportar, a delicadeza, a educação? E seria coincidência que todas essas características sejam popularmente associadas à feminilidade? Da mesma forma, um gaydar com uma garota seria ativado se ela se vestir de maneira mais despojada, não se preocupar com maquiagem e cuidados estéticos e tiver comportamentos “brutos”? Ou seja, tudo o que não é interpretado como signos tradicionalmente femininos? Se um menino é delicado, gosta de cozinhar e tem uma personalidade borbulhante, ele deve ser gay. Não porque ele se sente atraído sexualmente por outros meninos (teoricamente o requisito pra, de fato, ser gay), mas porque ele AGE COMO UMA MENINA DEVERIA AGIR. É por isso que as pessoas acreditam ser possível presumir que um garoto que provavelmente nem refletiu sobre sua sexualidade ainda seja gay, porque ele não correspondeu às suas expectativas sobre como se comporta um menino (tá vendo a confusão entre gênero e sexualidade?).

Brendan Jordan em campanha sobre visibilidade LGBTQ da American Apparel: uma luta que ELE escolheu se preparou e escolheu lutar e uma das “crianças/adolescentes viadas” mais famosas da atualidade.

Brendan Jordan em campanha sobre visibilidade LGBTQ da American Apparel: uma luta que ELE se viu preparado e escolheu lutar, e uma das “crianças/adolescentes viadas” mais famosas da atualidade (e ainda assim ninguém tá tentando adivinhar por quem ele se sente atraído sexualmente, ok?).

Precisamos parar de fazer suposições sobre as outras pessoas DE QUALQUER IDADE. Evidente que se toda essa especulação recai sobre uma criança que está adentrando a puberdade, um período confuso por si só, os resultados podem ser ainda mais catastróficos. Mas é necessário, de qualquer forma, rever o quanto nossas concepções ainda estão enraizadas num tóxico senso comum. Um homem com trejeitos femininos não é menos homem. Uma mulher sem trejeitos femininos não é menos mulher. Há muitos tons de cinza entre o preto e o branco, há muitas possibilidades de sexualidade e gênero que não a dualidade “homem e mulher hétero” e “homem e mulher gay”. E acima de tudo, os comportamentos e aparências das pessoas não definem suas orientações sexuais. Pensar dessa forma só restringe a diversidade, a criatividade e a expressão dos indivíduos, que vão começar a atuar da maneira que as pessoas esperam só pra conseguir aceitação social. Que nossos “eus-adultos” consigam sempre fazer as pazes com as “crianças viadas” que porventura fomos, mas que essa imagem empoderadora de aceitação pessoal não seja um instrumento de opressão e restrição pra outras pessoas.

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.