A Selvática Karina Buhr e Elza Soares, a tal Mulher do Fim do Mundo

[Colaborou Alisson Prando*]

Duas das maiores personalidades femininas brasileiras acabam de lançar discos incríveis! De gerações completamente diferentes, Karina Buhr e Elza Soares soam com o mesmo vigor e o mesmo sentimento de igualdade e feminismo.  Selvática é o terceiro disco de Karina, assim como A Mulher do Fim do Mundo é o primeiro de inéditas de Elza Soares. 

‘Selvática’ – Karina Buhr

Karina Buhr

Mais agressiva, Karina Buhr retorna aos estúdios depois de quatro anos sem um álbum de inéditas. Não que a cantora não estivesse produzindo. O sucesso de seus shows, bem como dos shows em que ela canta o repertório dos Secos & Molhados, estavam dando tempo para que as ideias selvagens tomassem força.

‘Selvática’, produzido por Mau, Bruno Buarque e Victor Rice, continua a saga da artista brasileira iniciada em ‘Longe de Onde’, disco em que Karina já mostrava composições existencialistas e explorava uma sonoridade punk rock. A diferença nesse álbum é que Buhr encarna personagens diferentes em diversas músicas: “Pic Nic” traz a visão de uma empregada doméstica sobre seu patrão; “Cerca de Prédio” trata da especulação imobiliária, tanto de Recife (Karina participou ativamente do movimento Ocupe Estelita), quanto de São Paulo (ela também se recusou a fazer shows para contrutoras disfarçadas de “Park Food Truck”); e “Alcunha de Ladrão” mostra o desespero de alguém que morre de fome e rouba para comer. Karina é plural e tem um olhar sobre a realidade que vivemos. Isso é incrível em uma massa de cantores e cantoras que só sabem cantar sobre amores perdidos.

‘Selvática’ também é uma declaração feminista. A última faixa, que  dá título ao álbum, é uma tentativa de reescrever a Bíblia. Com a ajuda de Elke Maravilha e Denise Assunção, “Selvática” pode assustar alguns ouvintes, mas Karina não parece esperar reconfortar você com sua música. Não apenas as letras, mas  baterias pesadas, guitarras, trompetes desconexos e sintetizadores são elementos constantes. Você pode baixar o disco no site oficial da cantora.

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Foto: www.facebook.com/josedeholandafoto

No palco do SESC Pompéia, Karina apresentou as músicas de seu disco ‘Longe de Onde’, ‘Eu Menti Pra Você’, porém a maior parte do repertório ficou com as músicas de ‘Selvática’. A performance contou com as típicas selvagerias de Karina, sua assinatura ao vivo – rolou ao chão, enrolou os fios de microfone em seu pescoço, gritou e bebeu catuaba. A única parte do espetáculo que deixa a desejar é o figurino de Buhr: a capa de seu disco foi censurada no Facebook por conter nudez. O show levou a classificação indicativa de 18 anos, por isso, alguns fãs esperavam que houvesse ao menos uma performance onde Karina performasse como a guerreira nua que encarna em seu álbum.

Mesmo assim, Karina e sua banda formada por Guizado, Mau, Bruno Buarque, Fernando Catatau, Edgard Scandurra e André Lima garantiram puro orgasmo, agora mais punk do que nunca.

 

‘Mulher do Fim do Mundo’ – Elza Soares

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Em seu primeiro álbum de inéditas, depois de mais de sessenta anos de carreira, Elza Soares trata de temas contemporâneos e apresenta um instrumental conceitual. Ao lado de Kiko Dinucci, Celso Sim e Rômulo Froes – os maiores nomes da nova safra de música experimental brasileira – Elza versa sobre transexualidade, violência doméstica, crise hídrica e drogadição.

O trabalho é uma continuidade das experimentações musicais que vinham acompanhando a carreira da cantora há um tempo: no ano passado, performou várias datas ao lado de dois DJs que faziam bases eletrônicas, enquanto misturava sua voz, característica, singular e, por vezes, robótica, num show de nome ‘A Voz e a Máquina’.

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Foto: www.facebook.com/osomdaqui

Com belíssimo figurino de latex feito pelo curitibano Alexandre Linhares e black power roxo, na abertura de sua turnê, no palco do Auditório Ibirapuera, Elza Soares contou com uma cenografia incrível. A partir de sua roupa, surgia uma calda imensa de sacos plásticos que ocupava toda a extensão do palco. Um show à parte.

As apresentações de estreias que ocorriam em um sábado e domingo, contaram com a participação de Rômulo Fróes – um dos principais compositores das canções interpretadas por Elza – e também de Rubi, cantor performático que esbanjou magnetismo em cena.

Elza é mesmo a Mulher do Fim do Mundo: viveu as reformas sociais brasileiras, viu a partida de seus filhos (seu primeiro filho morreu quando ela tinha 16 anos, de fome), sofreu preconceito por ser negra, foi vítima de violência física e psicológica, enfrentou a misoginia estruturada na música brasileira, mas sobreviveu, e venceu. O Brasil agradece. Que Elza nunca pare de cantar.

Você pode ouvir ‘Mulher do Fim do Mundo’ de Elza Soares no Site Natura Musical

Agradecimentos especiais à Isadora Bertolini, Giovanna Leopoldi e Igor Cardoso Cruz.

 

[*Alisson Prando é blogueiro pelo www.discopunisher.com, estudante de Filosofia Feminista e História do Corpo nas Artes Visuais. Entrevistou diversos artistas e personalidades políticas. Já escreveu para a TOP Magazine e a Revista JUNIOR. Gosta de passar seu tempo lendo Adorno, Judith Butler e Paul B. Preciado, enquanto toma sorvete e ouve Madonna, Lady GaGa e Karina Buhr.]

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