EX-heteronormativX #01: a aula de waacking

Oi. Sou o César, nasci em 1978 e estou redescobrindo minha identidade depois que percebi que minha felicidade estava sendo capada por amarras heteronormativas. Cansei, porque não sou obrigado. Este é o tema deste par de textos, que mostra 2 momentos importantes no meu processo de abandono da heteronormatividade. Espero que você se identifique e que estes textos possam ser úteis pra você.

 

Eu, com 7 anos. | Foto da Tia Sandra, minha professora do pré.

Eu, com 7 anos. | Foto da Tia Sandra, minha professora do pré.

Vamos lá.

Hoje comecei uma oficina de waacking. Uma oficina bafo que está acontecendo no Elevado, em São Paulo.

Waacking é um tipo de dança inspirado na música da noite e no gestual dos atores do cinema mudo. Aqueles gestos exagerados, cheios de intenção. É drama mesmo. A dança começou a ser chamada assim por volta dos anos 70, tem um forte elo com a comunidade LGBTQ+ e expressa, ao mesmo tempo, beleza, fluidez e força. Se você quiser saber mais, sugiro googlear “Tyrone Proctor”. Ele foi uma das estrelas do Soul Train, programa de TV americano que mostrava dançarinos profissionais em trajes FABULOSOS performando ao som da parada de sucessos.

Abaixo, dois exemplos de gente dançando waacking:

1. Flávio Franzosi, meu professor de waacking.
* AVISO: caso você seja fotossensível, assista o OUTRO vídeo, logo abaixo desse 😉

2. A trupe de dançarinos de Diana Ross arrasa no waacking a partir de 1:11 (indicação do Flávio).

O Flávio, que ministra a oficina de waacking, fez balé aos 10 e não tem medo de botar as alunas na fogueira dos movimentos abruptos, precisos, em velocidade insana. Pela diversão absoluta de todos. Não há barreira, heteronormativa ou de ritmo que não se rasgue em deleite. O Flávio é uma madrasta boa. Iemanjá. Joga as filhas no rio, mas orienta e é um cara gentil. Aliás, gentileza é o que eu preciso nesse momento. Lá vem o drama…

Eu na aula de waacking. Estou cansada, gente! Ou waacko ou abro os olhos.

Fazendo drama na aula de waacking. Cansada, mas invencível, darling. | Imagem: Danila Bustamante / DIANA

Como disse, faz pouco tempo que consegui sacar algumas das prisões de heteronormatividade que me capavam a vida. Tipo, é algo recente mesmo. Em 2011, fiz uma pose durante uma sessão de terapia e perguntei para a psicóloga se eu parecia afeminado. Ela fez uma pausa e me disse que não. Hoje, não me preocuparia em fazer a pergunta. Enfim, eu tinha problemas mesmo. Mas estou melhorando, bicha. Estou melhorando.

Percebo meu corpo, em outubro de 2015 e aos 36 anos, em estado larval. Não sinto mais que precise parecer machão o tempo todo. Agora, a notícia realmente boa é que eu não preciso parecer machão em momento algum! Posso ser uma ninfa de barba! Posso usar uma saia de paetê! Posso ter queixo fino! Posso ser o babado que eu quiser, porque o babado é meu! São várias masmorras caindo ao mesmo tempo! Estou gostando mais do meu corpo e me sinto cada vez mais próximo da sanidade.

Da esquerda para a direita, Nexus Polaris, Draga da Quebrada, Duda Babaloo e eu na Festa Estranha.

Da esquerda para a direita, Nexus Polaris, Draga da Quebrada, Duda Babaloo e eu na Festa Estranha. Gostam do meu look dona de casa? | Imagem: Troublemakers Photography

O lado desconfortável disso tudo, é que meu corpo ainda não sabe muito bem o que fazer às vezes. No meio de um movimento, o corpo solta um membro descoordenado pra lá, outro pra cá, me quebra tudo. É um pouco de timidez, mas é falta de jeito também. Nunca tive jeito, não conheço meu corpo. Sempre fui meio assim, mas agora estou ainda mais destrambelhada. Estou toda descoordenada, desaprendendo os limites do meu corpo.

E agora estou nessa oficina de waacking, que está sendo um alívio. Acho que é a coisa mais legal que poderia estar acontecendo no momento, porque na aula de waacking eu posso ser desajeitada e me experimentar. Suar e não pensar mais tanto na falsa obrigação de parecer machão.

Então fica aí a primeira dica da amiga: tá noiada? Quer se libertar? Vai mexer o corpo! Vai dançar, vai se divertir, bee. A propósito, Flávio, se alguém que ler o texto se animar pra fazer a oficina de waacking, ainda cabe mais um?

É isso! A gente se vê a qualquer momento aqui, ou no meu instagram: @cesarmunhoz

E lembre-se: se quiser compartilhar suas nóias heteronormativas e pós-heteronormativas comigo e com a galera que lê A Coisa Toda, tag seu post com #exheteronormativX

Pérolas falsas, quero muitas. | Imagem: Troublemakers Photography

Pérolas falsas, quero muitas. | Imagem: Brunella Martins

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