Review Social: Mass Effect

Trilogia Mass Effect

Mass Effect é uma das franquias de maior sucesso da BioWare, com mais de 14 milhões de cópias vendidas. A BioWare é conhecida por produzir sucessos como as séries de jogos Dragon Age, Baldur’s Gate (old school!) e Star Wars: Knights of the Old Republic. Além disso, Mass Effect é também a minha franquia de jogos preferida, então aqui vai um esforço para fazer um review útil e justo. Vamos lá, lembrando que o texto contém alguns spoilers.

Gameplay

O jogo é um RPG de ação com perspectiva em terceira pessoa. O protagonista pode escolher mais dois membros do esquadrão, que são controlados pela IA (Inteligencia Artificial do jogo), para acompanhá-lo em cada missão. Estes membros geralmente são pessoas que você recruta ao longo do jogo para sua nave, a Normandy. No jogo, cada diálogo faz diferença para o desenrolar da história. Desde o Mass Effect 2, você pode interromper certas “cut-scenes” de maneira calma ou agressiva. Existe um espectro de moralidade dentro do jogo (Paragon e Renegade), que varia de acordo com suas atitudes e escolhas e que também influencia as atitudes dos outros ao interagir contigo.

O ponto alto do gameplay é que você pode personalizar completamente seu personagem, seja o gênero, cor de pele, tipo físico, cabelo, tatuagens, etc. Não se engane, você sempre será a(o) Comandante Shepard e sua história possui um background pré-estabelecido, mas o fato de existir essa personalização num jogo desse naipe já é algo extremamente positivo. Além do mais, o background faz parte e é essencial para toda a narrativa.

Criação de Personagem - Mass Effect 1

Criação de Personagem – Mass Effect 1

Além disso você tem um arsenal badass de armas e poderes a seu dispor e também a liberdade de equipar e treinar as habilidades que mais lhe agradam em cada um de seus recrutas.

Enredo

O jogo se passa numa versão fictícia da nossa galáxia, a Via Láctea. O ano é 2183 e você assume o controle da(o) Comandante Shepard em missões de exploração pela galáxia. O nome do jogo é uma alusão à tecnologia que permitiu a humanidade fazer viagens mais rápidas que a luz, Mass Relays, e que já é conhecida e utilizada por diversas outras espécies mais desenvolvidas tecnologicamente. Em uma de suas missões, Shepard é designado para buscar um artefato alienígena em uma colônia humana chamada Eden Prime, que pode ser a chave para o desenvolvimento de novas tecnologias. Junto de Shepard e sua equipe, está um Espectro, Nihlus. Os Espectros são agentes do Conselho da Citadel (capital da galáxia) e responsáveis pelas missões mais perigosas e sigilosas nos sistemas da Via Láctea. O Conselho é representado pelas 3 raças mais desenvolvidas e influentes da galáxia: os Turians, as Asaris e os Salarians. E não, os humanos não fazem parte do conselho, hehe! Bem, acontece que em Eden Prime, após uma situação tensa, Nihlus é abatido por outro Espectro dos Turians, Saren, que tem objetivos próprios, e, a partir daí, toda a história se desenrola. O Conselho entra em conflito direto com a Aliança da Terra, com outras organizações em surgimento, como a Cerberus, e você tem de lidar com tudo isso, tentando não morrer no meio do caminho para salvar (ou não!) a humanidade.

Raças

É aqui que o jogo brilha junto ao enredo. E também peca em alguns aspectos. O foco maior, mas não o único aqui, será o papel que dão as mulheres no jogo, então vamos por partes.

Como eu já havia dito, o jogo te dá a liberdade de ser do gênero que bem entender. Ótimo, você pode ser uma soldada mulher durona! A partir do Mass Effect 3, você também tem a possibilidade de se relacionar com pessoas do mesmo sexo! Pois é, antes disso apenas eram permitidas relações ‘heterossexuais’, considerando aqui representações de gênero, já que existem raças de um único gênero.

Asari

Liara T'Soni - Asari Durona!

Liara T’Soni – Asari Durona!

Sim, você leu certo, existe uma raça, que possui apenas um gênero. As Asari. Pelo lado positivo você pode pensar: “Wow, uma raça só de mulheres aliens!”. Sim super bacana, inclusive elas podem se reproduzir com qualquer espécie da galáxia, mesmo entre elas, através de uma forte conexão emocional. Não para por aí: elas possuem uma média de vida que chega a mais de mil anos, e são a raça mais evoluída da galáxia junto dos Salarians. Lindo né? Mas aí vem o problema. O fato delas serem tudo isso as faz a espécie mais atraente da galáxia, e qualquer pessoa-alien, mesmo alguém que não sinta atração sexual por nada no universo, pode ficar caidinho por elas e fazer um sexo tântrico-mental.

As Asari também dividem seu próprio ciclo de vida em jovens/mães/matriarcas, afinal [ironia] fêmeas devotam toda sua existência para se relacionar e procriar no tempo devido [/ironia]. As mais jovens têm um desejo de exploração e estão iniciando seu período sexual. Em geral elas possuem 3 “carreiras” que podem seguir: Comandante, Dançarina Exótica ou Arqueologista. No mais, em geral entre seus 50 e 300 anos, trabalham como strippers ou mercenárias e você as vê em qualquer bar ou club pelo jogo exibindo seu corpo padrão-sensual. Acredito que não seja preciso dizer muito sobre os papéis de mãe e matriarca, né? Com exceção que as matriarcas podem se transformar em guerreiras duronas, tendo acumulado centenas de anos de experiência e força Biotic (uma espécie de poder utilizando campos de mass effect).

Salarians

Mordin. - Você invarialvelmente passará a amar esse cientista Salarian ao jogar.

Mordin. – Você invarialvelmente passará a amar esse cientista Salarian ao jogar.

Já mencionados anteriormente, eles são, junto das Asari, a raça mais desenvolvida da galáxia. Parecem anfíbios e não possuem desejo sexual. São também extremamente cientificistas e racionais. Se reproduzem por necessidade, depositando ovos. Em sua raça, apenas 10% são fêmeas/mulheres e obviamente eles, “por algum motivo”, sentem atração/desejo apenas pelas Asari.

Quarians

Tali'Zorah. Sua melhor amiga e engenheira.

Tali’Zorah.

Os Quarians são uma raça cujas verdadeiras formas não conhecemos, apesar de aparentarem ser muito parecidas com humanos, por conta de suas vestimentas. Há uma explicação bastante plausível para a existência das roupas protetoras que é muito explorada ao longo da franquia. Eles vivem em uma nave pois não podem mais viver nas condições criadas em seu próprio planeta após uma guerra com uma raça de robôs. A primeira Quarian que você encontra no jogo, e única em mass Effect 1, é a Tali’Zorah. Uma engenheira durona! Além disso é uma raça que parece possuir uma maior quantidade de mulheres em posições de comando e autoridade, se comparado a outras raças. Ponto pro game!

Krogans

Krogans. Eu não diferenciaria se não fosse pelo véu, e vocês?

Krogans. Eu não diferenciaria se não fosse pelo véu, e vocês?

Aqui há uma explicação para a falta de mulheres. Os Krogans são a raça de tartarugas mais violentas do espaço. Por este motivo, sofreram um processo forçado de esterilização que os está levando a extinção. Esse processo de esterilização, claro, só atingiu as fêmeas, e todos os bebês nascem mortos. As poucas que podem procriar se tornaram commodities. Clãs de Krogans brigam por uma fêmea. Essa linha de enredo é extremamente importante no jogo e, apesar disso, você só vê uma fêmea Krogan em Mass Effect 3. Infelizmente, ela tem tanta armadura, que é bastante similar a um Krogan macho, além de usar um véu cobrindo seu rosto. Talvez neste caso a escolha seja até para fazer uma analogia com certas culturas aqui na Terra.

Há, claro, diversas outras raças no jogo: Batarians (mercenários totalitaristas), Geths (robôs com inteligencia artificial), Collectors (auto-explicativo), Volus (pequenos comerciantes), Hanar (águas vivas rosas gigantes que flutuam), Drells (reptilianos, meu personagem favorito) etc. No entanto, o que mais me frustra e também algumas amigas gamers com que tenho contato, é o caso da raça dos Turians.

Turians

Garrus. Um de seus primeiros e mais fiéis amigos.

Garrus. Um de seus primeiros e mais fiéis amigos.

Os Turians parecem aves com mandíbulas, apesar do resto ser também bastante similar a um humano, e possuem uma sociedade extremamente disciplinada e militarizada. Além disso, eles possuem total igualdade de gênero e todos devem cumprir um tempo mínimo de 15 anos no exército. Eles ocupam uma proporção imensa da população militar galática e praticamente toda força policial das cidades que você visita no jogo também é composta por Turians. Por acaso, esta também é a raça com a qual tivemos nosso primeiro contato e entramos em guerra por um tempo, risos.  Certo, mas qual é o problema então? Por três jogos e cinco anos de missões, até o momento em que você salva (ou não!) a galáxia, simplesmente calha de todos os Turians que você encontra serem homens. E não se trata aqui de você não poder distingui-los. Em uma de suas últimas DLCs, a BioWare nos “presenteou” com o design de uma Turian mulher.

Turian mulher. Bem realista não?

Turian mulher. Bem realista não?

Ok, provavelmente existe uma explicação lógica pra isso, mas até que ponto ela assegura que os criadores tenham tomado a decisão correta? Você tem um limite de modelos de personagem que pode fazer, tanto por questões de grana quanto de tempo. E você sabe que os Turians são uma espécie com rosto de ave, que possui total equidade de gênero. Você então cria todos os modelos iguais e faz crer que alguns são homens, outros mulheres, ou simplesmente insiste que há um número igual de machos e fêmeas da espécie por aí, mas simplesmente nunca encontra uma delas? Aparentemente, os produtores optaram pela última opção.

Esse é o tipo de situação que nos mostra o quanto ainda temos de caminhar dentro da indústria de games. Considere que este é um dos jogos que mais tentaram acertar e trazer esses elementos sociais para a indústria. Nós temos a possibilidade de personalizar nosso gênero e tipo físico como bem entendermos dentro de um jogo de ação em terceira pessoa. Nós temos representantes de diversos tipos humanos terrestres em questão de cor. Temos também representações de relações homoafetivas de maneira natural, ainda que em menor quantidade que as heteroafetivas. Além disso, temos uma grande representação de personagens, e mesmo sociedades femininas, o que traz uma mensagem de empoderamento. Ainda assim, vemos uma sociedade feminina apenas pautada em ciclos reprodutivos e extremamente sexualizada-objetificada, outra onde as fêmeas são tratadas apenas como elemento salvador procriativo e uma última na qual, apesar de todo o discurso da narrativa, você simplesmente não encontra nenhuma mulher da espécie. Ou seja, consumimos uma cultura onde a invisibilidade ou não-existência de mulheres é aceita de forma bastante natural.

Enxergo e aponto todos esses tipos de críticas. No entanto, acredito que o fato de alguns desses problemas existirem não deve fazer do jogo um produto a ser demonizado, como se fosse algo que contribua diretamente para manutenção de um status quo na sociedade. Assim como um jogo de tiro não faz ninguém virar um psicopata, um jogo que possui e retrata questões sociais negativas não transforma ninguém em um opressor misógino, ainda mais quando é um produto que tentou e conseguiu, de diversas formas, se modernizar e trazer novos elementos sociais positivos para a cultura geek.

O que você acha disso tudo? Conhece Mass Effect, se interessa por essas questões nos games, tem críticas ou questões a acrescentar? Deixe nos comentários sua opinião!

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Marcos Lourenço é estudante de História. Apelidado de Trevor no teatro por admirar o ator Trevor Wright. 26 anos nas costas e vivendo um dia de cada vez como um bom pisciano. Cinéfilo que também gosta de games-livros-teatro. Sempre curioso e engajado já se meteu em poucas e boas.