“Uma Nova Amiga” e a via-crúcis da pessoa transgênero

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Claire e Laura são amigas inseparáveis – do tipo que fez pacto de sangue na infância. Continuam assim até a idade adulta, quando uma delas morre. No enterro, Claire, a amiga viva, jura cuidar, para sempre, da filha e do viúvo de Laura. Este é o ponto de partida de Uma Nova Amiga (Une Nouvelle Amie, França, 2014).

Confira o trailer:

A primeira coisa que ouvi dizer a respeito do filme é que a personagem principal, que se revela uma mulher transgênero durante a história, é representada por um homem cis, o ator francês Romain Duris. Estamos em 2015. Já não estamos cansados de ver gente representando na telinha e na telona aquilo que não vive no dia-a-dia? O apagamento trans é uma realidade no cinema e na TV e é importante que esse tipo de questão seja debatido sempre. É uma pena que Laverne Cox ainda seja uma das poucas atrizes trans em evidência no mainstream audiovisual.

Apesar disso, Uma Nova Amiga nos oferece história forte, cheia de reviravoltas e com potencial de quebrar vários tabus por onde passa. Cuidado, que a partir de agora tem spoilers. Não tem como falar de nada queer nesse filme sem dar spoilers, sorry.

Vamos lá: logo após a morte de Laura, o viúvo David revela a Claire que é, no fundo, uma mulher. A amiga entende, mas não engole direito. Sai com David/Virginia pra fazer compras, mas julga, diz que é fase e que é melhor a nova amiga parar de fazer isso. Isso, no caso, é ser mulher, vestir-se de mulher, sentir-se mulher, segurar a filha no colo como mãe e não como pai. Detalhe importante: Virginia é uma mulher transgênero que sente atração por mulheres.

Imagem: DVD Magazine

Da esquerda para a direita, Romain Duris (Virginia) e Anaïs Demoustier (Claire). Imagem: DVD Magazine

Atropelada pelas próprias nóias, Claire expõe a batalha daquele seu parente ou amigo próximo que cresceu cercado por ideais machistas e que não sabe direito o que é gênero, o que é sexualidade, faz bagunça na cabeça, fala bobagem e, acima da tudo, julga fingindo que não julga. Com medo de ir atrás de respostas, se fecha na ignorância e presume que a família terá problemas com a existência plena de Virginia. Presumiu, f*deu.

O filme é acelerado, bem produzido e fala de MUITAS coisas relevantes para quem se interessa por natureza humana. Confiança, conflitos pessoais em geral, culpa, compromisso, atração, paranóia. Mas uma frase se destaca dentre os 108 minutos. Ao explicar para Virginia porque, ao invés de ajudá-la a sair do armário para a família como mulher transgênero que sente atração por mulheres, Claire resolve apresentá-la como um homem cis homossexual. É quando ouvimos a pérola do filme: “Melhor ser homossexual do que ser travesti,” diz Claire ao telefone para a nova amiga.

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Romain Duris como David

Pois é, fico pensando aqui. Realmente, eu que sou homem branco cis homossexual aprovado pelo Boticário, tenho menos problemas na vida pública e na vida privada do que a pessoa que, ao longo da vida, escolhe ser identificada por outro gênero, ou por nenhum. É fácil lidar com sexo. Todo mundo gosta de sexo. Além do que, sexo é algo que sempre há um jeito de se fazer entre quatro paredes (“ninguém precisa saber”). Virginia está cansada de não poder sair de casa como realmente é. Está cansada de não viver 24 horas por dia sendo ela mesma. É um pedido mínimo.

Claire é bissexual e tem a sorte de, em 2015, ser “plena” entre quatro paredes. Volta pra casa vestida de mulher, maquiada como uma mulher, dá beijo apaixonado no marido. Também não sente a necessidade de mudar isso quando entra em contato íntimo com alguém, seja homem ou mulher. Nas cenas mais quentes de “Uma Nova Amiga”, Claire rende-se aos encantos de Virginia, lhe apalpa o corpo e os seios falsos cheia de tesão, mas sai em desespero quando toca o pênis duro de Virginia. Grita “você é homem.” Aliás, parabéns aos envolvidos pela cena, que quebra uma penca de tabus:
– mostra o pau
– mostra o pau duro
– mostra uma mulher tocando no pau duro
– o pau duro é de uma mulher transgênero.

É gol! Por essa cena Buck-Angel-às-avessas-with-lasers e por vários outros momentos que seriam tremendamente educacionais à família tradicional brasileira, recomendo que você veja e se deixe afetar por esse filme pop, bem fotografado e fácil de seguir. O roteiro perde a mágica de vez em quando, mas em troca oferece momentos cômicos e dramáticos calculados para fazer até o mais forte e mascarado dos resenhistas chorar. :.)

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