Precisamos falar sobre moda para homens gordos

gordo

Quando você olha uma capa de revista, quando passa em frente um outdoor, folheia um catálogo, quem você vê? Quer dizer, provavelmente você vai responder que vê o trabalho de um modelo, mas… Você consegue reconhecer algum aspecto em comum com você? Se pensarmos que esses anúncios estão tentando te vender algum produto, seria natural que você conseguisse se relacionar com alguma coisa na produção toda, mas imagino que raramente isso aconteça, né? E se eu te falar que a intenção é justamente essa?

Um dos fatores que contribuem para a formação de uma auto-identidade saudável é a possibilidade de enxergar-se no outro. Todos nós somos espelhos humanos, percebemos nossas diferenças e similaridades quando dirigimos nosso olhar para as outras pessoas. A indústria da moda, neste sentido, é uma poderosa fabricante de imagens. Nos outdoors, passarelas e nas capas de revistas, mais do que peças de roupa são mostradas. Comportamentos, atitudes, imagens, filosofias e corpos se inserem dentro de uma imagem de moda, numa relação cíclica tanto de reprodução de modelos vigentes como sugestão de novas formas de ser e estar no mundo. Com um olhar atento, é possível perceber que uma supostamente simples imagem de moda pode estabelecer papéis sociais de gênero, cor, classe, identidade sexual e padronização de corpos e comportamentos.

Basicamente, a indústria fashion produz imagens irreais, que geram anseios irreais e insatisfações reais, resultando na busca – e consequente enriquecimento – da indústria da beleza. Quando se problematiza a questão da diversidade e a moda, é essencial falarmos sobre representatividade. Quer dizer, quando você vê um editorial, um desfile ou uma roupa na arara de uma loja, deve haver ali algo que faça você se reconhecer, que te contemple, que satisfaça a sua necessidade específica. Não basta que uma roupa apenas cubra a sua nudez, ela deve ser parte da sua expressão no mundo, da sua singularidade.

Corpo gordo rejeitado, corpo sarado incentivado: Campanha de 2010 da empresa Interbest Outdoor para recrutar novos clientes trazia um homem gordo se despindo progressivamente e os dizeres: quanto mais cedo você anunciar aqui, melhor. Exemplo de campanha da Calvin Klein Underwear na famosa Times Square, NY.

Corpo gordo rejeitado, corpo sarado incentivado: Campanha de 2010 da empresa Interbest Outdoor para recrutar novos clientes trazia um homem gordo se despindo progressivamente e os dizeres: quanto mais cedo você anunciar aqui, melhor. Exemplo de campanha da Calvin Klein Underwear na famosa Times Square, NY.

Sem sombra de dúvida, um dos grupos com menor representatividade e possibilidades múltiplas de expressão dentro do mundo da moda são os homens gordos. Você pode me dizer: ‘ah, mas as mulheres gordas também sofrem com o padrão imposto pela indústria’. Concordo plenamente e, inclusive, a opressão estrutural da sociedade recai bem mais sobre mulheres – especialmente as que se colocam fora de um padrão pré-determinado de beleza. Porém, no caso específico da moda, nota-se que as mulheres já se organizaram politicamente muito à frente dos homens. Só pra citar exemplos, já existem associações específicas de modelos gordas e eventos específicos que reúnem marcas que produzem roupas femininas bem bacanas em tamanhos grandes (apesar de sempre haver espaço pra problematização).

Mas e os homens gordos? Bem, aí a coisa fica mais complicada. Enquanto lá fora já existe um ainda tímido movimento no sentido de reunir boas opções de vestuário para homens gordos, e um aumento também tímido da oferta de modelos gordos, no Brasil são poucas opções de vestuário que os contemple. Enquanto as mulheres criticam, com razão, o fato de haverem pra elas uma ou duas araras em grandes redes de moda popular, homens costumam encontrar nem isso. Já contando com a inexistência de padronização dos tamanhos e do fato de muitas coleções serem feitas a partir de medidas do mercado de moda asiático (que costumam ser menores), é bem difícil andar num shopping comum e encontrar algo no setor masculino que vá alem de um tamanho 52 ou 54 (algumas grandes marcas terminam sua numeração no 48).

O conforto que poderia vir em algumas lojas especializadas na verdade só é mais sofrimento. Já não bastasse ser tão ruim ter que frequentar uma “loja para gordos”, o que geralmente se encontra é uma cartela de cores triste e modelagens que mais se aproximam de quadrados de tecido com furos do que com camisas, calças e camisetas. E nem é uma questão de esperar pela próxima coleção, porque a indústria não estabelece nenhuma relação com o que é apresentado em passarelas. O que está disponível para venda hoje provavelmente estará lá, na mesma cor e corte, daqui a dez anos.

Exemplos de peças vendidas na tradicional Camisaria Varca, por muito tempo praticamente a única loja que vendia roupas para homens gordos em São Paulo (e ainda vende. As mesmas.).

Exemplos de peças vendidas na tradicional Camisaria Varca, por muito tempo praticamente a única loja que vendia roupas para homens gordos em São Paulo (e ainda vende. As mesmas.).

A internet, que tanto revolucionou o setor de vendas de moda, pouco fez pelos homens gordos. Com exceção de algumas lojas virtuais (não estamos recebendo patrocínio pra citar lojas, mas #ficaadica), todo o resto ou é só uma versão da realidade cinzenta e antiquada da loja de gordos dentro da internet ou então as marcas que se dizem plus size (um termo horroroso, cuja problematização daria um texto próprio. Em resumo, não somos “um tamanho a mais”, somos gordos, e esse tipo de termo suavizante é mais um atraso político do que um aliado) fazem roupas para um homem no máximo, “robusto”, porque gordo mesmo não cabe naquelas peças. Indo além, muitas dessas marcas não trazem sequer modelos vestindo as peças, denunciando tanto a carência que essa indústria tem desses profissionais quanto a dificuldade do homem gordo ter representatividade dentro da moda.

Aliás, a representação do homem gordo é uma questão que atravessa a moda. Durante muito tempo homens gordos têm sido usados como “alívio cômico” por parte da mídia em geral, como a figura engraçada, desastrada e que só pensa em comida. Sempre um coadjuvante, aquele que faz uma piada ou que se dá mal em nome da comédia. Uma caricatura de si mesmo. A moda poderia ser um canal justamente pra mudar esse estereótipo. Homens gordos têm interesse em se vestir bem, em acompanhar tendências e novas modelagens, em apresentar-se de uma maneira visualmente interessante. E isso envolve, além da mudança das modelagens e da diversificação das peças, pensar em editoriais que realmente estampem homens gordos, não apenas homens com uma barriguinha saliente e um corpo que pode ser lido apenas como musculoso.

A gordofobia é uma opressão social real (A Coisa Toda já falou sobre o tema aqui e aqui). Atinge mesmo as pessoas que são ícones dentro do processo criativo do mundo da Moda. Karl Lagerfeld, que emagreceu mais de quarenta quilos em um ano com uma controversa dieta, disse que o fez não por motivos de saúde, mas porque não queria mais conviver com a pessoa que era. Hoje o estilista magro usa só usa o que gosta e já afirmou por exemplo que seus comentários gordofóbicos contra a cantora Adele foram positivos pois a incentivaram a perder peso. Marc Jacobs sempre teve ideias inovadoras e geniais no mundo da moda, mas a imprensa passou a reconhece-lo mais depois da intensa rotina de dieta e exercícios físicos aos quais ele se propôs.

Antes e depois: Karl Lagerfeld (acima), antes e depois da dieta que o fez perder mais de 40 kg e livrar-se de uma "imagem que não lhe agradava". Marc Jacobs (abaixo), transformação de pessoa do backstage a garoto propaganda e queridinho da indústria.

Antes e depois: Karl Lagerfeld (acima), antes e depois da dieta que o fez perder mais de 40 kg e livrar-se de uma “imagem que não lhe agradava”. Marc Jacobs (abaixo), transformação de pessoa do backstage a garoto propaganda e queridinho da indústria.

Ser gordo e fazer questão de participar dos movimentos do mundo fashion é um ato político. Mostrar-se e exigir que a realidade mude é um ato de resistência e empoderamento. Não aceitar regras do que pode e não pode ser usado é um ato definidor de identidade positiva. Vai ter gordo fazendo editorial, vai ter gordo exigindo roupa bonita, vai ter gordo usando listra e bermuda curta e roupa ajustada. Só falta gente pra produzir e vender essas peças…

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.