Inclusão: será que existe para todo mundo?

símbolos deficiência

[Colaboração de Jorge Rodrigues*]

Vocês já se questionaram se realmente são inclusivos com as pessoas que tem uma (ou mais) deficiência? Porque a inclusão simplesmente não é aceitar a deficiência da pessoa. Não é dizer ‘pô, eu não tenho nada contra, pelo contrário não vejo problema nenhum nisso’. Não é ser amigo da pessoa que possui uma deficiência. Ninguém quer ser “tratado de maneira diferenciada”. Todo mundo é e quer ser tratado como uma pessoa normal. Mas isso não quer dizer que pode-se ignorar questões de acessibilidade e as necessidades especiais que a pessoa portadora de deficiência tem.

A gente vive em uma sociedade que não é feita para quem tem deficiência. A pessoa com deficiência não tem a acessibilidade necessária para que possamos usufruir de todos os recursos que a sociedade oferece. Então, repito: você realmente se considera inclusivo? Eu, Jorge, sou surdo. Nasci surdo devido à rubéola. Minha mãe ficou doente durante a gravidez e a minha surdez é profunda, ou seja, não escuto nada. Eu sei Libras e sei oralizar um pouco apesar de ter vergonha de falar em público (risos).

Não escuto nada e dependo de Libras para me comunicar com as pessoas, seja na internet, no celular, no Skype, na rua, no bar. Mas nem sempre isso acontece da melhor forma. Eu dependo da caneta e do papel para poder comunicar-me com a pessoa. Preciso procurar uma forma de fazer a pessoa compreender o que quero dizer. Preciso me adaptar para fazer a pessoa compreender. Percebe-se que sempre sou eu a ter que fazer uma adaptação? Este é o problema. Ninguém aprende Libras. Nem procura saber. E mesmo assim as pessoas se dizem inclusivas.

Inclusivas como? Pois eu não vejo isso. Nem meus amigos surdos. Nem outros deficientes.
Ser inclusivo é procurar formas de oferecer acessibilidade, é aprender a Libras para se comunicar com o surdo, procurar uma forma de fazer a pessoa se sentir confortável. Isto é ser inclusivo.

A sociedade precisa começar a se adaptar à pessoa com deficiência. Porque não é justo que eu fique tendo que me adaptar para que você me compreenda. Não é justo que eu fique tentando alcançar o impossível enquanto você não tenta alcançar o possível. Pense no que a pessoa com deficiência sofre diariamente. O bullying. As olhadas na rua quando eu tento me comunicar com alguém que não sabe Libras, fica aquela situação constrangedora.

Não tenho vergonha de tentar me comunicar com a pessoa. Mas tenho vergonha ao ver ela dar risadas. Ou então fica aquele clima de eu ter que ficar repetindo alguma coisa várias vezes e a pessoa não entender, então eu tenho que recorrer ao bloco de notas do celular. Eu e meus amigos não queremos ter que ficar revivendo ‘flashbacks’ de bullying, de risadas e tal. Queremos apenas poder conseguir comunicar sem barreiras. É pedir muito para que vocês quebrem essa barreira com a gente?

É pedir muito para que vocês tentem retribuir? Não é. A retribuição que vocês podem dar é muito pequena comparada com o esforço que a gente dedica todo dia para conseguir fazer as coisas. A gente tem que matar dez leões por dia para sobreviver. Vocês matam quantos? Vocês ouvem, vocês falam, vocês conseguem viver sem precisar se preocupar com a possibilidade de estarem machucados no meio da rua e não souberem como pedir socorro. Você não tem com o que se preocupar quando a polícia desconfiar de você e estiver te chamando e você não ouvir e ela atirar em você.

Você não tem que se preocupar em ficar constrangido quando sai com alguém que não sabe Libras e que isso pode cortar o clima do encontro. Você não tem que sofrer tentando comunicar-se com o barista da Starbucks só para poder falar o maldito nome dos cafés. É Frappuccino de mocha de caramelo! E no trabalho? Passar aquele constrangimento em tentar falar com alguém da empresa, ter vergonha de chegar num diretor e ter que passar por aquela cena de tentar explicar as coisas e ele não entender. Ter que lidar com várias pessoas falando “ah não precisa” quando vêm me procurar para pedir ajuda e então percebem que sou surdo.

A gente mata DEZ FUCKING LEÕES para sobreviver.

É pedir muito para que vocês aprendam Libras? É pedir muito para que vocês conheçam um pouco da cultura surda e de outras deficiências em geral? Eu estou farto da militância LGBT e em geral dizer que é inclusiva porque ela não é. A maioria não é. Não procuram legendar os vídeos que fazem, não procuram transcrever os vídeos sem eu ter que pedir. Não procuram aprender sobre a cultura surda. A gente sempre tem que cobrar. SEMPRE!

Eu não posso falar muito de pessoas com outras deficiências, mas elas merecem também o mesmo tratamento que eu estou cobrando de vocês.

E finalizo aqui a pergunta:

Será que vocês realmente são inclusivos? Reflitam e tomem vergonha na cara <3


*Jorge Rodrigues, 20 anos, ex-estudante de Arquitetura e futuro estudante de Letras, trabalha como assistente administrativo em uma multinacional.

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