Moda infantil de gênero neutro: já chegamos lá?

Linha infantil de Ellen DeGeneres para a GapKids

Linha infantil de Ellen DeGeneres para a GapKids

Certa vez , quando eu era criança, fui com minha avó comprar um presente pra uma pessoa da família que tinha se descoberto grávida. Ainda não sabíamos o sexo do bebê, então minha avó disse à vendedora que gostaria de um macacão amarelinho, porque, segundo ela, “servia tanto pra menina como pra menino”. Ficou claro pra mim naquele dia que a gente só podia comprar algo rosinha e florido se soubesse que a criança era menina, ou azul de bichinhos se tivesse certeza de que a criança seria menino. O amarelinho, nesse contexto, seria o meio termo, o que todo mundo poderia usar porque aparentemente carregaria uma ideia de gênero neutro.

De fato, durante muito tempo o conceito do macacão amarelinho era o máximo de conceituação que o senso comum poderia fazer sobre uma roupa sem distinção de gênero. Mas ainda bem que os tempos mudam, né? Mudam tanto que nem parece que vestir a criança de acordo com seu gênero designado socialmente é um fato histórico relativamente novo.

Durante séculos, crianças eram vestidas igualmente independente do seu gênero. Todos os bebês e crianças usavam… vestidos longos e brancos. Quanto mais rica a família, maior era a quantidade de rendas e babados. Especula-se que o uso da cor branca se dava pela facilidade de limpar as roupas após o uso. Além dos vestidos era comum o uso de uma peça chamada de pinafore, uma espécie de avental branco que ia por cima da roupa. Com o tempo, as roupas infantis começaram a cada vez mais a se parecerem com miniaturas das roupas dos adultos.

Hashtag baby ostentação - partiu arrasar no parquinho: Retrato de Selma Arndt, de seis meses de idade usando um traje infantil comum da era vitoriana. Exemplo de pinafore vitoriano. Retrato de família parisiense do século XIX por Louis Léopold Boilly (1803). Exemplo de "brincadeira de moda infantil" em revista inglesa da década de 1930.

Hashtag baby ostentação – partiu arrasar no parquinho:
Retrato de Selma Arndt, de seis meses de idade usando um traje infantil comum da era vitoriana. Exemplo de pinafore vitoriano. Retrato de família parisiense do século XIX por Louis Léopold Boilly (1803). Exemplo de “brincadeira de moda infantil” em revista inglesa da década de 1930.

Os meninos passaram a usar azul e cores escuras, e o vestido foi progressivamente se transformando em um conjunto de calças e jaqueta. As meninas passavam a se parecer cada vez mais com suas mães, com anáguas, corsets em versão mais leve e vestidos um pouco mais curtos do que o dos adultos. Do século XVII até o início do século XX, a ordem era usar peças de veludo e renda e vestir a criança como um pequeno aristocrata. As roupas restringiam bastante a liberdade de movimento das crianças, mas eram impecáveis e ostentavam a riqueza da família.

Após a Primeira Guerra Mundial, a exemplo do guarda roupa adulto, as roupas para crianças foram sendo simplificadas, com ternos e camisas de gola Peter Pan para meninos e vestidos mais soltos para meninas. Mas a verdadeira diferenciação de peças para meninos e meninas veio na década de 80, quando o exame ultrassom permitia saber com certa antecedência qual seria o sexo do bebê. Surgia então toda uma indústria de macacões azuis, rosas e… amarelinhos.

Ao folhear uma publicação sobre moda infantil ou de decoração de quartos, nos deparamos com uma dicotomia latente em relação a uma produção de sujeitos femininos OU masculinos, com papeis sociais específicos dependendo do gênero. Essas publicações não se destinam somente à produção de uma imagem ideal de criança; antes, ela se destina aos adultos da família, numa proposta de extensão do consumismo do mundo adulto para o universo da infância.

A fórmula é bem simples: a infância na sociedade capitalista  é literalmente um mercado multimilionário e em expansão. Crianças consomem para si, influenciam as decisões de compra da família e são potenciais clientes futuros de determinada marca. Não é de se espantar, portanto, que desde muito cedo empresas de publicidade invistam grandemente nessa faixa etária da população.

Exemplos de publicações de moda infantil: diferentes localidades, mesmos papeis sociais atribuídos a meninos e meninas.

Exemplos de publicações de moda infantil: diferentes localidades, mesmos papeis sociais atribuídos a meninos e meninas.

Recentemente, a comediante e apresentadora Ellen DeGeneres lançou uma coleção infantil para meninas em parceria com a gigante Gap. Mais do que a importância de lançar uma linha de roupas infantis numa loja de fast fashion de grande alcance – grandes marcas como Burberry, Prada e Stella McCartney mantém linhas infantis há anos, com preços que cada grife está acostumada a manter – a linha de Ellen veio com a proposta de questionar os papeis de gênero, com o argumento de que cada garota pode ser sua própria heroína, independente dos papeis sociais que se espera dela.

As roupas tem a premissa de serem confortáveis, restringirem minimamente os movimentos e são, em sua maioria, produzidas em tons neutros como bege, marrom e verde. O vídeo da campanha traz mensagens de encorajamento para garotas e a primeira vista, a ideia de DeGeneres parece um grande avanço em relação ao vestuário infantil no sentido de que não força meninas a performarem um papel social de princesas intocáveis cor-de-rosa.

Entretanto, é necessário cautela. Numa análise mais atenta, vemos que na verdade o que as roupas propõem é que meninas tenham acesso a roupas que já eram propriedade do guarda roupa masculino há tempos. Nesse sentido, não há neutralidade de gênero, apenas a oportunidade de meninas visitarem um espaço que sempre foi dos meninos, reforçando a imagem de que coisas tradicionalmente de garotas estão envoltas numa aura de fraqueza e fragilidade.

O ideal ao se discutir uma Moda infantil de gênero neutro é que justamente não haja divisões dentro da loja. As meninas são livres para usarem bermudas de skatista na mesma medida em que meninos são livres para escolherem túnicas brilhantes ou até vestidos. Não há papeis sociais atribuídos previamente, e não há escolhas erradas. Cada um pode ser herói seja usando uma saia de tule ou uma jaqueta de motoqueiro.

Um sonho para o design de moda infantil é que primeiramente o viés adultocêntrico desapareça. Deixemos que as crianças falem o que desejam vestir e como devem ser projetadas suas roupas. Crianças não são um vir-a-ser, crianças são produtoras de culturas infantis e sua criatividade ainda não experimentou a enorme quantidade de barreiras sociais que a dos adultos já provou. Outro sonho é que roupas masculinas e femininas sejam chamadas apenas de… roupas. E que todos tenham acesso a elas a preços justos e com plena liberdade de escolha. Que as crianças sejam os heróis que vão nos salvar da nossa limitada mente presa dentro de um macacão amarelinho.

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Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.