Cisminário Queer

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Aconteceu nessa quarta (09) e quinta (10) o I Seminário Queer, organizado pela revista Cult e Sesc Vila Mariana. A iniciativa trouxe um dos maiores nomes no assunto, a filósofa estadunidense Judith Butler, em sua primeira visita ao Brasil.

O seminário contou com 5 painéis, além da palestra de Judith. Nomes como a pedagoga Guacira Lopes Louro e Márcia Tiburi e a francesa Marie Hélene/Sam Bourcier (ela utiliza ambos os nomes) estavam entre as apresentações mais esperadas do evento.

Com os temas “O que é Queer?”, “Cultura e Política”, “Gênero e Sexualidade”, “Educação e Saúde: Aprendizados” e “Contra-Hegemonias – Os Estudos Queer entre os saberes insurgentes” o seminário seguiu uma uma linha acadêmica, onde todos apontavam para o mesmo norte, de um destino ainda bem bastante distante da realidade.

O “Cisminário Queer” como foi apelidado, era branco, hétero, acadêmico e normativo. Com suas raras exceções dos padrões, as mesas foram constituída por pessoas que trouxeram pontos importantes para a conversa, mas estavam dentro dos padrões privilegiados.

A primeira mesa do seminário e a última contavam com o sociólogo Richard Miskolci (Leia:A Teoria Queer e a Sociologia: o desafio de uma analítica da normalização), então curador do I Seminário Queer. Richard dissertou sobre como as visões ditas “neutras” na nossa sociedade, que regem os direitos humanos e sociais, são na verdade masculinas, hétero e branco europeia.

Richard também falou sobre o termo Queer, sobre a falta de incomodo em criar uma nomenclatura nacional para o tema, sobre as diversas visões que cabem dentro desse guarda-chuva e chegou até fazer uma brincadeira com o termo e o seu grupo de estudo “Quereres”. Falou também sobre normatividade e como os polos feminino e masculino acabam apagando aquele corpo que não se encaixa nessas extremidades.

Um ponto muito importante na primeira fala de Richard, e que vamos utilizar como gancho para essa conversa, foi sobre os grupos conservadores dentro dos próprios movimentos sociais e de luta de igualdade, que acabam buscando espaços pequenos e não um grande espaço de solidariedade.

Mas não seria o I Seminário Queer mais um pequeno espaço?

Richard Miskolci é uma das figuras desse texto não apenas por ser branco, descendente de europeu e privilegiado. Se fosse por isso ele não seria destaque aqui. Mas ele estava em uma posição de curador e palestrante, falando sobre e com pessoas das mais diversas que estavam na plateia.

Os papos nos corredores entre os participantes era tranquilo no primeiro dia, mas foram inflamados no segundo. Vou explicar o motivo: Márcia Tiburi e o seu cu. Márcia tinha me encontrado no primeiro dia de seminário e me convidado a ler sua fala, como uma Drag Queen em palco. Acreditei muito na ideia de representa-la como corpo queer, questionando ali até onde o gênero iria.

Tiburi tinha captado desde o inicio a normatização que havia se estabelecido no painel – que apesar de muito aprofundado em teorias como da Butler, o ambiente em si ainda estava com essa cara branca e hétera – e percebido a oportunidade de desconstruir isso, correu para tentar apontar tal problema. A história me animou muito… até ter o pedido de Márcia negado pela organização.

Com direito a sua fala no painel “Gênero e Sexualidade” que ocorreria então na quinta (10) as 10h, Márcia aproveitou e questionou até onde a teoria queer atingia nossos reais corpos, se ela realmente estava subvertendo algo. Falou sobre o falso que nos incomoda e que nos agrada e até onde o queer incomoda. Márcia tratou até sobre o modo heteronormativizado que até as apresentações de ideias queer seguiam.  (Assista:)

O caso é: Márcia defendeu sua ideia de corpo queer performático – baseado na teoria de Butler – até o fim. Sua revolta com a recusa da minha performance como Drag Queen era mais do que clara, e real para todos os presente. Como assim uma performance queer foi barrada pela organização do festival?

A questão assombra o que o seminário mais tentava repelir de si, ele aparentava como tudo aquilo que tentamos destruir como comportamento normatizado. Barrar a performance de uma Drag Queen em palco é subutiliza-lo em mais uma representação derivada dos bloqueios e preconceitos de nossa sociedade, e que ali eram debatidos. Seria então um Cisminário? Enquadrando todo esse pensamento e teoria em cima do queer dentro de uma caixa heteronormativa?

Essa questão faz com que a gente volte ao Richard, onde respondia uma pergunta feita na mesa “Contra-Hegemonias – Os Estudos Queer entre os saberes insurgentes”. Richard foi questionado sobre a ausência de pessoas trans e outras minorias dentro dos painéis. Larissa Pelúcio previamente respondeu que não gostaria de estar ali em breve, que a ideia era que a partir dessa iniciativa e de outras, pessoas queer estejam em palco falando de suas experiências. A conversa poderia ter sido encerrada por ai, mas Richard Miskolci deu a sua resposta chocou a muitos. Assista a partir de: 1:30:00

Richard alega que também sofreu violências e que não está ali disputando o espaço com outro. Justifica que resolveu dedicar seu trabalho acadêmico ao tema e que não estava falando “pelos outros” e sim “com os outros”. Alegou também que o “subalterno” até poderia falar no microfone, mas que lhe faltaria o vocabulário, e que “eles” estavam na tentativa de construir tal vocabulário.

Neste momento, Larissa interrompe, para situar o contexto da declaração de Richard, onde dentro dos textos de Gayatri Chakravorty Spivak (professora da Universidade de Columbia), notavelmente do texto “Can the Subaltern Speak?“, onde Spivak diz que “para você ser escutado (pela hegemonia), e realmente levado a sério, você tem que falar com os termos hegemônicos“. E critica a postura, onde muitas vezes, por falta de vocabulário, determinada pessoa é ignorada. Sendo desta forma, onde Spivak diz, que o subalterno não se expressa, não por não ter voz, mas sim por não se utilizar do vocabulário hegemônico vigente, sendo então “brutalmente desqualificado pela hegemonia”.

O pensamento de vulnerabilidade sangra nesse momento, onde diversas pessoas da plateia se levantam e se retiram da sala. A subalternidade é prevalecida aqui,  o estranho incomoda e é excluído de forma categórica na citação de Spivak, por Richard Miskolci.

A piada parece pronta, e é. O apelido de cisminário foi uma das brincadeiras mais assertivas desses dois dias, não porque fazia piada com a situação, mas porque nos moveu a reflexão de como a normatividade está grudada dentro da academia e até mesmo na linha de estudo queer. E também como o academicismo, representado lá como “vocabulário”, inviabiliza o diálogo entre academia e “subalternos”.

Atos empobrecedores, que poderiam passar desapercebidos em outras ocasiões, foram captados pelos presentes e questionados a todo instante. E percebíamos que as tais visões e decisões “neutras” que reinam em nossa sociedade, são mais do que nunca academicistas, masculinas, hétero e branco europeia e que estavam mais interessadas em criar e usar termos do que criar uma nova realidade. Pois infelizmente, ainda vivemos num mundo apontado por Spivak, onde a hegemonia emudece os subalternos, como foi muito bem ilustrado por Richard Miskolci. Cabe, a nós, subalternos, enfrentar e nos apropriar dessa hegemonia, dentro e fora da academia, para termos voz.

E muito provavelmente este seja o maior problema das academias, e do cisminário: a falta de voz. Seja a falta de voz, originada pela “falta de vocabulário”, ou utilizando um termo menos academicista, a falta de prestígio de falas “desvocabuladas”, seja pela ausência da representação de corpos queers no seminário. Talvez o problema (de comunicação entre palestrantes e platéia), tenha sido a tentativa de apropriação de um seminário acadêmico, feito nas pressas, por parte de “subalternos”, sem que tenha havido uma abertura no diálogo entre idealizadores, organizadores e público. Talvez o problema tenha sido, como aponta a tese de Spivak, a falta de “vocabulário”. Provavelmente um pouco de ambos, associado à outros “ruídos de comunicação” de todos os lados.

Com certeza, o problema passou na falta de sensibilidade da academia, em não imaginar que os “subalternos” iriam estar presentes, tanto como objeto de estudo, como consumidores do estudo, mas sobretudo como cidadãos. E a desculpa de se existe “vocabulário”, ou não, deveria estar ausente, dando lugar a uma extirpação do academicismo das academias. Quem sabe assim consigamos trabalhar para que o II Seminário Queer, não seja apenas um “cisminário“?

Márcia Tiburi é citada mais uma vez para fechar esse texto, na nossa tentativa de mandar uma mensagem aos organizadores: Meu cu, logo existo.

 

Comentários

Comentários

Dudx é editor/fundador d'A Coisa Toda, assessor e produtor, artista visual, palhaçx e erê de buaty.
  • Jaqueline Gomes de Jesus

    Acho que este versos do poema antológico de Éle Semog, Dançando Negro, ajudam-nos a refletir sobre a invisibilidade/ausência das falas subalternizadas negras/trans/militantes em quaisquer espaços acadêmicos, inclusive os – teoricamente – contra-hegemônicos:

    “Não sou festa para os teus olhos
    de branco diante de um show!
    Quando eu danço há infusão dos elementos,
    sou razão.
    O meu corpo não é objeto,
    sou revolução”.

    E repito a velha e ainda atual catilinária: as exceções só confirmam a regra!

  • Tiago Da Silva Ferreira

    Texto muito interessante. Acho que a academia estranha os “subalternos”, mas os subalternos fazem o mesmo em relação à academia. Acho que vivemos um momento de dificil diálogo entre os diversos grupos, academicos ou não. Um acusando o outro de tentar falar pelo outro ou dizendo que sua luta é mais importante do que a outra. Parece uma encruzilhada sem fim. A própria Spivak já foi acusada de ter discurso hegemonico e ser academicista. Não tenho nenhuma dúvida de que há hierarquias dentro das esquerdas, mas o problema é que não conseguimos manter um diálogo horizontal no meio de toda essa crise. Nossos movimentos ainda sao muito verticais e normativos. Às vezes tenho a sensação de que estamos esperando um Messias que vai nos dar a resposta. Não seremos nós ainda cristãos no nosso âmago?

    • Jaqueline Gomes de Jesus

      Prezado, permita-me um aparte: o palestrante deu a entender que os subalternos não utilizam o vocabulário da metrópole/academia, logo, o problema é deles. Oi? Nunca tinha visto tanta apropriação deturpada do pensamento pós-colonial de Spivak.

      • Tiago Da Silva Ferreira

        Eu não entendi que ele tinha dito que o culpa era dos subalternos. Caso ele tenha dito isso com a intenção que você apontou, obviamente discordo.
        Entretanto, se você ver uma palestra da Spivak, não sei sinceramente se ela se comporta tão diferente. Ela é academica tambem. Aí que está.
        Eu particularmente não gosto muito desse texto dela e acho que ele tem problemas, mas isso é outra história.

        • http://www.acoisatoda.com Eduardo Araujo

          Foi um comentário em resposta a pergunta “Por que os paineis não contam com pessoas trans e outros perfis queer” e ele usou a linha da Spivak nesse contexto.

      • http://www.acoisatoda.com Eduardo Araujo

        Respondi no comentário acima. No vídeo consta a parte da pergunta e dessa resposta.