Monstrxs empoderadxs no Desfazendo Gênero

Colaboração de Léa Santana*

Seminário Internacional Desfazendo Gênero

Escrevo esse texto em aeroportos e voos, entre Salvador e São Paulo, descolonizando os pensamentos, recolonizando saberes e tentando reestruturar a cabeça após tantas desconstruções. Pensamentos em trânsito, corpo em trânsito, bem apropriado.

Desde o início do ano, comentava-se que 2015 seria O ano do queer na Bahia. A enorme expectativa era principalmente pelo anúncio da vinda da filósofa norte-americana Judith Butler, pela primeira vez em visita ao Brasil. Butler faria a palestra de abertura do II Seminário Internacional Desfazendo Gênero, realizado em Salvador, entre os dias 04 e 07 de setembro.

Autora de textos fundantes da teoria queer e grande defensora das pluralidades e abjeções da sexualidade, Butler seria a grande estrela libertária a dar voz e discurso as teorias também libertárias contra as opressões de gênero, contra os preconceitos aos não normativos, aos corpos não binários. E ela não decepcionou.

Em pleno Teatro Castro Alves lotado, com fechativa abertura de Mitta Lux, Euvira, a mulher barbada, e Rainha Loulou, Butler fez uma fala coerente e tranquila, discutindo a necessidade das teorias para fundamentar e alimentar as práticas e as políticas ativistas. Ela reforçou a necessidade de alianças, lembrando o quanto a coalisão de forças é necessária para o alcance de políticas (e práticas) de proteção às pessoas em situação de vulnerabilidade.

Butler no palco. Imagem: divulgação

Butler no palco. Imagem: divulgação

Apontando como o reconhecimento das identidades é um processo sempre em construção, Butler reafirma a necessidade das teorias para inteligibilidade dos indivíduos e dos coletivos não normativos, dos seres em condições de precariedade, seja por guerras civis, preconceitos raciais ou subordinações colonizantes.

Mas foi respondendo às perguntas da plateia que se pôde sentir a gigantesca força daquela figura miúda. De pé, caminhando pelo palco e já sem o texto pronto em mãos, Butler fez questão de interagir com a plateia, retomando questões sobre mídia, (des)colonialidades políticas e teorias dos estudos queer. E a manhã do segundo dia de seminário foi encerrada com sorrisos deliciados das pessoas presentes no teatro, certamente também das que puderam assistir à fala transmitida online no site do evento.

Desfazendo Gênero foto de Andrea Magnoni

Auditório lotado. Destaque para Judith Butler e Richard Miskolci. Foto: Andrea Magnoni

O Desfazendo trouxe muito mais transgressões.

Em quatro dias de evento, um balaio de monstruosidades incríveis, de subversões inéditas, de desestruturações do pensamento e ordem. Ainda na tarde de sexta-feira (04), primeiro dia do Desfazendo,  Diana J. Torres, ativista espanhola, provocou comentários com uma oficina  prática de pornoterrorismo.

Os participantes da oficina, nus, passearam pelos gramados e área externa do campus e fizeram moldes engessados de seus corpos, discutindo as potencialidades da carne e da arte para quebra dos preconceitos.

Participantes nus no campus da UFBA. Imagem: divulgação

Participantes nus no campus da UFBA. Imagem: divulgação

Na mesma noite, em performance artística, Diana novamente maravilhou a plateia de mais de mil pessoas presentes. Desta vez, em parceria com Suzy Shock, travesti argentina, poeta e música, tocando percussão em seu próprio corpo. Apesar da desinformada cobertura da imprensa baiana, as discussões que se seguiram mostram que as atividades cumpriram seus objetivos.

Aliás, no que diz respeito as mostras artísticas, o Desfazendo Gênero foi incrivelmente frutífero.

Em paralelo as discussões dos simpósios temáticos e palestras, as atividades artísticas trouxeram reflexões tão políticas e tão intensas quantos os debates. Espontâneas ou programadas, ações como o Caruru da Diversidade, com acrobacias em pano, Cabaré Drag King, apresentações musicais de Solange, Tô Aberta, PaguFunk e Ktrina Erratik, as intervenções Egux!, de Mayara Yamada e Gordura Trans, de Tamiris Spinelli desorganizaram as noções de corporalidades, sexualidades e moralidades.

No palco do Teatro Gregório de Matos foram encenadas Diário de Genet, sobre a cena homoafetiva de Salvador, tomando como base uma biografia de Jean Genet e Solo Almodóvar, que trata da vivência de homens e mulheres transexuais, misturando ficção e realidade a fragmentos de obras de Almodóvar.

No auditório do Pavilhão de Aulas da UFBA, aconteceu uma noite de exibição de curtas-metragens discutindo erotismos, violências, travestismos e olhares. E isso é só um minúsculo recorte das atividades culturais de um seminário com 71 simpósios temáticos, 759 trabalhos apresentados, 25 minicursos, 25 oficinas, mostra de 50 pôsteres, com participação de 1500 inscritos, mas que teria mais de 4 mil presentes caso todas as inscrições pudessem ter sido contempladas.

New Queer Cinema

Paralelo ao Desfazendo Gênero, tivemos ainda a amostra New Queer Cinema – Cinema, Sexualidade e Política acontecendo na Caixa Cultural com apresentação de 14 longas-metragens, dois debates e, na abertura, uma conversa com o cineasta canadense Bruce LaBruce, pioneiro do cinema queer. A New Queer Cinema não fez parte do seminário, mas o momento não poderia ser mais propício para as agendas se cruzarem.

Para quem teve a honra de estar presente, o Desfazendo Gênero foi uma oportunidade fantástica de trocas e reconhecimentos.

Como pesquisadora feminista, encontrei um espaço de intensos intercâmbios de saberes, com perspectivas sul-americanas, desconstrutivistas, cheias de prazer, amor e ludicidade.

Desfazendo Gênero. Imagem: divulgação

Imagem: divulgação

Sentir a teoria pulsando em cada fala, concreta, palpável, viva, dá um novo fôlego, um frescor revigorante aos estudos, mas é como ser humano que me sinto mais fortalecida, mais segura quanto às insubordinações necessárias para combater os fundamentalismos repressores.

Sim, podemos lutar com arte, podemos afrontar com sorrisos e purpurina, sem perder a dureza jamais. Sejamos monstrxs empoderadxs.

Agora é chegar em São Paulo e continuar refazendo as ideias no I Seminário sobre Teoria Queer, no SESC Vila Mariana.

2015 segue se confirmando como um ano deveras frutífero para os interessadxs no queer, em todo o Brasil.

 


 

*Léa Santana é doutoranda e mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo/UFBA.

Comentários

Comentários

ACT Redação é o seu robô preferido.
  • Diogo

    Que merda da porra.