Meninas, meninos, menines, todos no parquinho da vida

coluna De Humano para Humano é publicada semanalmente às quartas.
Pink Morning by Miag

– Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
– Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
– Então me ilumina, me diz como é que termina?
– Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.

Costura o fio da vida só pra poder cortar
Depois se larga no mundo pra nunca mais voltar _ Joyce in: Feminina. (1980, álbum homônimo)

Outro dia alguém estava aos saltos no Facebook sobre as meninas de rosa e os meninos armados em um playgound qualquer e a pergunta foi: “O que as meninas levam em suas bolsinhas pink?”

Algumas pessoas responderam (sem um pingo de misericórdia e imaginação): “Maquiagens!”

Fiquei pensando. Primeiro eu pensei: “E daí?”. Depois: “Gente, deixem as crianças em paz!” e, mais adiante: “É foda ser criança.”

É foda ser criança. A gente sabe, porque já fomos crianças. E a gente adora contar as misérias que passou na infância, até inventar, porque ser criança tem que ter sido foda pra gente ser um campeão do mundo hoje e descontar em todo mundo essa infância supostamente difícil. A não ser que você tenha dormido até completar 18 anos, você deve lembrar como era difícil, por exemplo, a vida no parquinho versus o eterno “jogo da obediência aos pais”.

Vou falar de mim.

Meu cabelo era complicado e minha mãe pedia pra mulher do salão cortar bem curto para que ninguém tivesse trabalho e nem mexesse muito naquela “moita”. Com cinco ou seis anos, eu era igualzinha a qualquer outro menininho do parquinho. Até me chamarem a atenção para isso, era ótimo, porque eu nem ligava para nada e todo mundo se misturava mesmo, meninos, meninas, alienígenas: brincávamos de tudo, na rua, no play, na casa dos outros. (Claro, tinha sempre uma menina que “não podia descer” pra brincar, mas um dia eu escrevo um post só para ela.)

Até que começaram, os próprios adultos idiotas, a chamar a atenção para isso. “A Carolina parece um menino com esse cabelo” ou como meu próprio pai falou uma vez (já tô bem, pai!): “Parece uma polícia feminina!”. Eu ouvi, como toda criança, “sem querer”. Lembre-se bem disso antes de falar merda por aí: as crianças costumam ouvir tudo que a gente fala, mesmo não tendo como entender o alcance semântico das palavrinhas. E, como são ótimos papagaios, elas vão reproduzir o que você falou.

Mas voltando ao assunto. Aí eu era um menino, né!? Então tá, eu posso? Não, não tá, não, não pode.

Comecei a me odiar loucamente porque passei a prestar atenção em toda e qualquer distinção entre meninos e meninas e achei muito humilhante não me parecer com as amiguinhas de maria-chiquinha (era assim que a gente chamava os elásticos de cabelo em 1983), rabo de cavalo e as malditas botas da XUXA que não entravam no meu pé que cresceu um ano antes do pé de todo mundo.

Comecei a não entender nada das regras do jogo (?) e qual exatamente era para ser meu comportamento (será que eu ia poder continuar cuspindo na calçada, rindo alto, mordendo meus colegas e apostando figurinhas no bafo?).

Piorando o quadro, na escolinha que eu frequentava tinha aula de dança obrigatória. Meia fina, colant com emblema do colégio, saia plissada, sapatilha e eu inaugurando o meme “queria estar morta”. Melhor que isso, queria estar me lambuzando de areia com os meninos e jogando gude, bem longe daquela professora que me odiava por eu não querer dançar bonitinha e quietinha igual as graciosas coleguinhas magrinhas e pequenininhas que eu tinha. Resultado da imposição: não sei dançar até hoje (mas danço mesmo sem saber, foda-se).

Saber que eu parecia um menino por causa de um corte de cabelo estúpido me confundiu e me marcou por quase uma década. Comecei a ficar tímida e a me sentir errada. Queria que meu cabelo crescesse e, ao mesmo tempo, queria ser a Mônica dos quadrinhos e curtir meus cabelinhos curtos em paz.

Na década de 80 não tinha nada disso de criança se empoderando de uma identidade de gênero e podendo ser John Malkovich da identidade que bem entendesse (como estamos vendo agora com mais frequência, o que é lindo, totalmente perfeito e libertário, continuem assim, pessoas-que-criam-crianças). Se tinha, a gente não via, não sabia, etc., mundo sem internet.

Uma coisa que era mais tranquila era o lance das cores que eu mencionei lá em cima. A gente usava vermelho, azul, amarelo, branco, verde, roxo, laranja, MUITAS LISTRAS, MUITO SHORTS SEM CAMISETA, etc. e tinha muito menos rosa e muito menos pink na nossa vida. Faça uma pesquisa pelos brinquedos da década de 80: eram muito menos “agressivos” na binaridade que hoje.

Lembro, inclusive, que a gente brincava de pônei, Barbie, Falcon, Comandos em Ação, junto com os meninos. Meu primeiro contato com um brinquedo rosa foi só na década de 90, quando tive uma Barbie bem perua importada dos EUA. As minhas Barbies anteriores mal tinham maquiagem pintada em suas carinhas de plástico e usavam calça jeans ou vestido preto, enfim.

Agora, século XXI, mais de 3 décadas depois de saber que eu pareço com um menino (não mais, não mais), parti para uma mini-pesquisa de campo para saber se as coisas estão mesmo como imagino que estão, com tanto barulho por aí (grandes empresas nos EUA e na Europa removendo a marcação de gênero de seus produtos, tipo Lush e Target). Aproveitei que meu irmão tem um filho, ou seja, eu sou tia (nada convencional, mas sou) e, numa das festinhas do play, acompanhada do meu sobrinho de seis anos, percebi – e achei lindo – que, ao contrário do que tinham alardeado no Facebook, todas as crianças estavam brincando juntas ou se esforçando ativamente para isso, nem ligando se parecem meninos ou meninas e, aparentemente, muito à vontade com tudo.

Me deu um alívio incrível.

Claro, tinha brinquedo rosa e brinquedo de guerra espalhado pra tudo quanto é lado. Mas percebi que estavam todos sempre convergindo para os brinquedos coletivos, inclusive na quadra, quebrando dentes e narizes em comunhão total. Percebi que tem mãe que protege as filhas pra que elas não se machuquem. Que tem menino que pega as bonecas escondido pro pai não ver.

Percebi um universo complicadíssimo envolvendo muitas e infinitas negociações e concessões, todas rolando ao mesmo tempo, entre cansaço de todos (pais, tios, primos, irmãos, babás, coligados, espiões da CIA), energia, memória afetiva, educação sentimental dos próprios pais, ética, estética, cosmética, estudos de engajamento, normatividades, “normose”, temperamento e por aí vai. E que a merda, darlings, está muito mais na nossa “cabeça adulta” que na das crianças. É, os adultos mudam pouco.

Por cima disso, você imagine que há toda uma bruta indústria indo atrás de cheirar o rabo dos pais e das crianças pra formular táticas de guerrilha de consumo, costumeiramente em escritórios onde 60% dos “operários de mentes” não têm filhos e/ou não têm o menor interesse na melhoria do mundo, muito menos em inclusão e empoderamento de identidade de gênero. O objetivo é a manutenção daquele determinado consumo e seu aumento a cada ano.

Usando rosa ou azul, as crianças, quase sempre, são vistas como usinas de queimar dinheiro dos pais e é nisso que os mercados estão de olho.

geninho

Geninho era uma criança de todas as cores no desenho da She-Ra. Ele se escondia pelo cenário do desenho e, no fim de cada episódio, tínhamos que lembrar onde ele estava escondido. “Oi, eu sou o Geninho! Descobriram onde eu estava escondido hoje?”, esse era o desafio. Ele estimulava nossa curiosidade e poder de observação. Me representava!

Dito isso, o que será que tem nas lindas e cheirosonas bolsas cor-de-rosa das meninas?

Eu dei essa volta toda na minha máquina do tempo com você para lançar uma proposta de reflexão em vez de fecharmos o assunto. Se essas meninas forem as pestes que eu fui, mesmo com as mães se preocupando tanto se elas vão se machucar ou não, nessas bolsinhas, mesmo com uma tentativa de normatividade estética sobre o que é “ser menina”, nessas bolsas tem muita imaginação.

Nas bolsas, nos bolsos, nas cabeças, tem muito sonho, muita criatividade. Se essas meninas forem como eu fui na década de 80, “aprincesadas” ou não, elas têm um planeta só delas, para onde correm quando se sentem isoladas e para onde voltam quando sentem que venceram mais um desafio. É o planeta delas, só delas (no meu tempo, eu chamava esse lugar de Ethéria).

O mundo pode cortar seus cabelinhos, pode deixar elas jogarem futebol, pode trancá-las no quarto com uma tonelada de Arieis, Barbies e maquiagens, elas vão criar e elas vão buscar, com muita sede, o que elas querem; vão derramar suco na saia e trocar por shorts. Elas vão explorar a casa assim que vocês saírem, abrindo todas as gavetas. Vão querer namorar a Miley Cyrus, a Rihanna e o Justin Bieber ao mesmo tempo, elas vão fingir que estão fumando usando um canudinho de suco, elas vão encontrar a senha do wi-fi e acessar sites proibidos, elas vão, amigas(os), fazer o que elas bem quiserem.

Porque, antes de tudo, elas não são meninas de rosa, não. Elas são crianças. E, como o próprio nome diz: elas CRIAM.

Resgate sua criança interior e crie com elas, usando todas as cores.

Com amor, She-Ra Miag.

Comentários

Comentários

ACT Redação é o seu robô preferido.
  • Diogo

    Menines ? a doença mental toma conta da humanidade.